Hápax
“Jamais conseguiremos alcançar o verdadeiro valor da palavra. Quem chegou mais próximo disso foi Poe; paradoxalmente, mesmo sem sabermos ainda o seu poder, o ultrapassamos. A luta que travamos para vencer o meu medo e a sua desconfiança alcançou o apogeu na declaração - Eu te amo. Depois disso o silêncio.
Todas as vezes que um ou outro aparecia, combatíamos bravamente. Atingimos o vazio. Aquilo que é superior à palavra. Não consegue mais ser descrito. Apenas sentido.
Falamos sobre a música, sobre a maneira ignorada com que ela apela aos nossos sentimentos. Lembra? Agora posso dizer ‘nossos’, não? Conseguimos inalar o perfume de uma orquídea, ouvir o som do silêncio, sentir-se parte da natureza.
Diante da batalha travada pela conquista dos territórios afastados da nossa interioridade conseguimos um êxtase. Uma harmonia.
O desejo se tornou algo banal, indispensável, cotidiano. Um certo deslocamento do eixo da luta. A primeira fase foi aquela em que queríamos saber quem é o outro. Vencida a primeira, veio o inebriar.
A terceira fase deverá ser a construção de algo que seja comum aos dois. E o caminho não é suave. Tomará todo o tempo que nos resta. É o caminho só.
Ao invés de desconfiança: desejo. Ao invés de medo: desejo. Ao invés da poesia: desejo. Ao invés da cerveja: o desejo.
Essa é a equação para construir algo que é totalmente ignorado. Todas as formas de sinceridade serão usadas para incentivar a construção de um dique que nos proteja de tudo o mais. Todas as formas do medo serão usadas para proteger os passos seguintes.
Não há mais hipóteses a serem refutadas ou confirmadas. Todas serão as nossas. O desafio que temos pela frente é não perder o foco, não travar batalhas inúteis que serão sempre um passo atrás.
O grande desafio é conseguir ver que seremos doravante sempre diferentes; conseguimos chegar ao ponto de concordar que o nosso raciocínio é vago, inútil e sem serventia nessa questão. A questão é sentir, trocar, dar, receber e …. pensar; apenas para organizar isso tudo nessa folha de papel inútil, agora.
Não escreverei mais.”
Trecho imaginário de um múltiplo desabafo de Tom Waits, Charles Bukoswski, e Bruce Chatwin, encontrado em caracteres cuneiformes, numa caverna rupreste de sítio arqueológico na Patagônia. Temperatura ambiente: sete graus celsius. Ventos: oitenta quilômetros horários. Estação do ano: Primavera. Não é possível o uso de cartão de crédito, por problemas de comunicação.
