João-Ninguém
“Ignoramos o sentido do dragão, como ignoramos o sentido do universo, mas em sua imagem existe alguma coisa que se coaduna com a imaginação dos homens, e assim o dragão surge em diferentes latitudes e idades.“ Jorge Luis Borges, in O livro dos seres imaginários.
Por que colocou no seu blog ser um João Ninguém? Credo! Fica parecendo que nem você mesmo acredita na sua existência. … Quando vi a primeira vez, levei um susto. Depois, estranheza…
Ainda não sei exatamente como responder sua pergunta. Propositalmente não quero revisitar o texto em que isso está declarado. Creio que a declaração feita, poderia ser remetida aos autores alemães do início da última centúria de tempo, adeptos da inclusão de todos nós numa única unidade, onde todos teriam que ser fraternos, iguais e livres.
Esse sonho foi, pouco a pouco, sendo materializado. Hoje nós temos a mostra mais acabada da nossa perfeição, harmonia e liberdade. Tudo aquilo que estava nos livros, tocado pelo humano, se tornou real. Nós tivemos os nossos Quixotes, quantos não sei, mas deles e da sua luta, restaram farrapos que conseguimos ver, letras que conseguimos ler e, realidades que conseguimos sentir.
E o sentido do joão-ninguém também se transformou, passando daquele ser integrante do formigueiro racional, ao fluido como a brisa. Tanto um como outro são absolutamente irreais. São formas pertencentes ao universo cujo sentido não sabemos.
Portanto, para responder a uma parte da sua questão, posso dizer que eu mesmo não acredito na minha existência, como algo que tenha um objetivo, ou sentido, escolhido por mim.
Passei por vários caminhos, sempre tentando permanecer, nunca isso me foi permitido. Algo maior que a minha vontade, fazia-me movimentar, quer física, quer espiritualmente. É verdade, estou apenas passando por uma fase temporária, onde me preocupei em deixar uma descendência, para que ela siga a minha busca.
Que ela encontre a resposta daquilo tudo que não consegui. Não pretendo ensiná-la. Nem posso. Pretendo apenas dar o meu exemplo de leitor assíduo, do conquistador do Nada.
A matéria foi gradualmente mostrando o seu valor. Um valor que diminuía com o tempo, parece que inversamente proporcional à importância que todos os físicos e metafísicos lhe emprestam.
Um sábio chinês não conseguiu descobrir ao sonhar com uma borboleta, quem era ele; o homem que estava sonhando ou a borboleta que sonhou ser um homem dormindo. Esse é o ponto mais alto da fuga do real que consegui admirar. Jamais consegui atingir.
Quem sabe conseguirei?Você poderá perceber que sou otimista. Quis deixar um legado que não fosse o da minha miséria.








