Ártico e antártico
Desço. Estou livre. Logo adiante encontro um menino perdido. Alto, muito vestido, estupidamente vestido para uma ocasião como essa, que não era ocasião alguma. Coroado por um boné, escondendo o seu rosto, levava uma mochila. Uma barba rala, inversamente proporcional à sua força.
Apenas o vazio. O vento e uma estrada apontando para o norte ou para o sul. Estou indeciso.
Aproximamos-nos simultaneamente. Sentamos, olhando ora para um lado, ora para outro. Muito tempo depois:
- O que você faz? – pergunto.
- Sou filho, sou sobrinho, sou namorado, sou outro.
- Ah… .
- Tenho vinte e três anos, moro com meus pais. Estudo para agradá-los, trabalho para agradar meu tio, faço dieta para agradar minha namorada.
- E o que você está fazendo aqui?
- Caiu a ficha. Tenho casa e comida. Em pagamento perco meu eu. Pelo medo do desconhecido, o conhecido se deita sobre mim, me violenta silenciosa e suavemente. Resolvi cair fora. Agradar a mim.
- A sua opção não é muito radical?
- Fiz duas tentativas frustradas, dentro do sistema, a primeira simulando um curso de inglês. Fiquei numa outra casa, adotei uma outra família, e me senti inteiramente familiarizado. Passei a maior parte do tempo andando. Vagando, sem gerar nenhuma expectativa. Sem ser expectativa de ninguém. Gostei do ‘fish and chips’. A segunda foi uma viagem a negócios de um amigo. Apesar de não ter negócio nenhum, fui mesmo assim, no vácuo, aproveitando a vaga dum hotel pago pela companhia onde ele trabalha. Voltei à casa familiar. A família temporária se mudou os vizinhos não sabem aonde. Tudo é transitório. Eles não têm medo. Não esse. Aprendi, pô.
- E você? Retrucou com aquele ar cansado e imperativo do jovem submetido à interrogatório.
- A minha opção é pegar a minha carteira de sete léguas e viver a aventura descrita nos livros que li, ao longo da vida. Buscar o vazio, após lutar pelas minhas idéias, após combater os bons combates, após perder, após rir e chorar. Entre a sua jornada e a minha existem vinte e nove invernos. Não pretendo mais voltar. Já vi de tudo. Nunca foi homem de ação. Vivi para me defender. Levei tanto tempo para descobrir a minha vocação, a sua geração é muito mais rápida. É digital. Sim ou não. Sou analógico. Criei um mundo que ainda está inexplorado.
- E pra que lado você vai? Falou abrindo a mochila.
- Vou para o sul, e você?
- Norte. Quero conhecer a vida das baleias Narval e sei que vivem no Ártico, lá será minha ilha. Falou simultaneamente ao ato de esvaziar o conteúdo dela.
