Sou

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Thursday December 20, 2007

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“Sou… Como madeira que queima. A madeira queima, mas não tem consciência de ter sido tronco intacto, não tem como saber o que foi e quando começou a pegar fogo. E assim ela se consome e basta. Vivo em pura perda…Eu não sou como homem acabado, mas gostaria de me tornar. Fazer de sua fúria bibliomaníaca a minha possibilidade de fuga não conventual do mundo. Construir-me um mundo todo meu.”. Umberto Eco. 

Passei ao longo da vida enredado com as cousas, lousas e mariposas. Essa vontade de construir um mundo surpreendeu-me, como uma explicação de um terapeuta.Será que é isso que faz alguém que lê ou que escreve. Sonhar e depois construiu um mundo todo seu?Num cantinho da memória deixei-o guardado. Um guardado matuto, desconfiado. Tudo o que o homem põe a mão se corrompe; lembrei da deusa Bona Dea que cuidava da fertilidade, da mulher e da cura, que acabou tendo suas sacerdotisas sacrificadas em nome de não sei qual ideal. Também da deusa Puta, que presidia as colheitas e quem diria, acabou se prostituindo lá no Irajá.

O tempo passou e acabei por falar cada vez menos, entender menos, conhecer o medo e a covardia, descobrindo suas manifestações nas mais variadas formas.E que todas as explicações que dava, tudo o que observava, eram um mecanismo que me afastava de mim próprio. A fuga de si mesmo.

Ontem conheci o avesso do pensamento de Gustave Flaubert: “O artista deve estar em sua obra como Deus na criação, invisível e todo-poderoso.” “Acho inclusive que um romancista não tem o direito de exprimir sua opinião sobre o que quer que seja. Teria o Bom Deus alguma vez emitido uma opinião?”

Tiro agora o guardado da memória e o apresento inteiro e com papel de presente, Esse exílio criativo ainda procurava dominar o mundo através da palavra, vence a corrupção do comportamento pela perfeição imutável da letra.

Talvez seja esse o motivo pelo qual os repórteres teimam em pedir a opinião dos escritores a respeito de tudo. Sempre vivemos num mundo de trevas, quando caçávamos olhávamos para o céu, e dele é que vinha a resposta. Depois quando plantávamos, olhávamos para a terra, e dela vinha a resposta. Todas falhas.  Hoje olhamos para nós mesmos, como a máxima criação da natureza, e dessa criação sairá a resposta. Os deuses de hoje são os escritores. A grande maioria esqueceu da lição do mestre. E dão palpites. Pena.

Não tenho chancela de escritor, falo menos, entendo menos, não me interesso por nada, estou muito ocupado em me entender. Desocupado de saber o porquê das coisas. Despreocupado de entender alguma coisa. Entretanto conheço mais sentimentos interiores e consigo ficar feliz e confortável. Sem ser refém de nenhuma correria. Apenas essa dos dedos sobre um teclado (que nem sempre obedece).  Uma forma de agradecimento:“I never felt at Home – Below –

And in the Handsome Skies

I shall not fell at Home – I know –

I don’t like Paradise –

Emily Dickinson 

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