Longevidade
Repentinamente, durante uma explicação a respeito da gênese do ideograma longevidade, um pensamento tomou conta de mim. Provavelmente uma explicação do caminho percorrido pela imagem desde o seu nascimento até agora, servirá também para explicar o caminho percorrido pela palavra.
Imagem como símbolo. Como reflexo do pensamento. Como nome do objeto ou utensílio. Um caminho mais completo, complexo e que desde cedo exige do raciocínio muito mais sofisticado.
Aprendi que a leitura do texto chinês, por exemplo, segue a rotação da terra, isto é, da esquerda para a direita, E a escrita percorre a página em linhas verticais de cima para baixo. O ideograma propriamente dito, é um conjunto de traços – já fixados anteriormente – começando de cima para baixo. Dessa maneira já sabemos ao ver uma folha de ideogramas como segurá-la, para iniciar a leitura.
Pois é, a língua russa toma algum tempo para nos ensinar a procurar a palavra no dicionário, sem o qual, o texto nos é absolutamente champollionesco, foi baseado num alfabeto criado por dois irmãos no século IX; quanto mais avançamos em direção ao oriente, estamos caminhando para as profundezas do tempo e da reflexão, elos se quebram, caminhos se apagam, e a complexidade aumenta.
Esse ideograma “shou”, formou-se com a junção de três idéias: objetivo, caminho, homem.
Em primeiro lugar, desenhamos dois algarismos: o dez e o um, esse conjunto de um a dez dá o sentido da completude. No espaço entre ambos existe tudo que um homem pode querer.
Logo depois temos um desenho de um caminho. Que é o nosso trajeto completo, sem marcas, ou rupturas. Originário do caminho que o arado fazia no campo.
Finalmente desenhamos uma boca e um pé, significando o ser por inteiro, desde o raciocínio explicado pela boca, até o físico, representando pelo pé.
Dessa maneira teremos desenhado o sentido da longevidade. Um homem caminhando, pleno, por um caminho sem acidentes, culminando em suas conquistas. É uma explicação mais complexa que a palavra longevidade nos dá.
Aprendi todos os passos que o desenho tomou para ter essa forma atual. Passou por muita simplificação, por uniformização, e acabou fazendo com que o desenho que era figurativo, fosse pouco a pouco se tornando abstrato, com treze traços, sempre. Tanto é verdade que o esforço feito para identificar esses componentes não é pequeno e mesmo assim infrutífero.
A escolha pelo sinal gráfico que é a letra, simplificou a nossa leitura. Ela é praticamente imutável, se modifica em pequenos detalhes. A complexidade – ela é presença fixa, seja no ocidente ou no oriente – se transportou para o significado, esse viajante ao longo dos tempos.
Palavra vem de parábola, que significa comparação ou aquela curva famosa. Símbolo vem do latim, através do grego “súmbolon”, significando um signo partido em dois e distribuído entre duas pessoas, por exemplo, o hóspede e o hospedeiro. A qualquer tempo aquele que apresentasse a sua metade do signo obtinha do outro o dever da hospitalidade.
Nós nos enganamos com a forma fixa da letra, a complexidade foi para dentro da letra, ela é um símbolo que precisa do nosso reconhecimento. Desenhar a palavra é uma coisa, compreender que ela é um símbolo é uma outra coisa, entre esses dois pontos, temos a mesma e oculta, complexidade do ideograma, E procuramos diminuir a dificuldade, explicando com outras palavras, palavras, palavras.
O ideograma “shou” mostrado para um chinês significa mais do que a longevidade. Mostrada para nós a palavra longevidade não chegaremos jamais àquela idéia. Entre o ideograma e a palavra temos a irrequietude do humano.
