Quatro operações
Até agora não consegui explicar o fascínio que histórias de presídios, ou a respeito de presidiários, exercem sobre mim. Não espero consegui-lo com esse comentário, apenas quero acrescentar alguns pontos que podem ser somados, multiplicados e divididos.
Somados com outras histórias que colhi por aí. Corisco - filho de um fazendeiro falido e companheiro de Lampião - foi preso e cumpriu inteiramente sua pena dando aulas para seu filho. Terminado o prazo de detenção mudou-se para o Rio e lá teve uma vida pacata.Gildo A. Meneghetti, o Nero paulistano, foi visitado na cadeia da Luz por Albert Camus. Cumpria pena por furto ou roubo, não sei bem, e nessa oportunidade foi-lhe perguntado se ele não gostaria de sair de lá. “Não, obrigado. Saio todos os dias, basta pegar um livro”. Insistente Camus quis saber se poderia fazer algo por ele. “Ah, quero um cigarro”. Foi o nosso Diógenes.
A cota da multiplicação é dada pela violência predominante, crescente e avassaladora, que nos habita e persegue; onde quer que estejamos, estamos preocupados com o assalto iminente ou com uma resposta virulenta, aparentando-nos com o animal e seu medo, disparado ao menor estalo. Nossa reação a uma explosão eventual de um motor à combustão o demonstra. Não existe diferença entre a prisão e a cidade.
Dividir esses fatos e reflexões poderá –muito pouco provavelmente- nos despertar da letargia a que estamos submetidos. Uma letargia barulhenta, exterminadora da nossa capacidade de espanto diante dos fatos. Houve época em que a violência era para indignar, hoje ela existe para hipnotizar, vingar, vender e dar audiência.
Subtraia disso a paz que um leitor encontra à beira de um campo, num hotel por nove dias. Paz que foi interrompida apenas duas vezes por outros hóspedes. A primeira interrupção foi de uma poetisa que se incentivou a cantar alguma obra de sua autoria, tomada por algum deus de ocasião; a segunda foi de outra leitora, que exibiu seu livro do momento, sentou-se, e na primeira oportunidade chorou convulsivamente, assolada pelos problemas familiares, suficientes para tirar-lhe completamente o equilíbrio e logo, logo, envergonhada, colocar uma cobertura ampla de vidro escuro no rosto para exibir sua paz psicotrópica.
Fizemos as quatro operações aritméticas, o que sobrou?
