Débora

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday January 16, 2008

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Passou a noite inteira com Ritsuko. De fato, com a felicidade perdeu a vergonha. É mesmo, acontece com todo mundo; pensou. Acordou com os ruídos da cidade, um carro passando em alta velocidade, fazendo aquele som deslizante no asfalto molhado, um sabiá solitário cantava abrigado em algum galho, dois guardas conversavam sobre o resultado de futebol, e distraídos brincavam com os poucos passantes.

Esqueceu da recusa do rabino, do pastor e do padre. Esqueceu do quanto se sentiu ultrajada e da raiva que tomou conta do seu ser. Esqueceu que a Rit, deitada ao seu lado, foi  expulsa de casa, pelo pai,  por ter se amigado com um americano. Como pode alguém sentir raiva de alguém anônimo, por sua nacionalidade? Bem, se lembrou que a mãe não compra nenhum carro alemão.

Águas passadas. Esse é o resumo líquido de sua situação aérea.

 Agora fazia parte de uma comunidade, encontrou na ancestral religião africana um penso para suas feridas. A sua companheira lhe dera calor, para ela que não encontrava amor. A companheira entendeu a sua timidez, e se aproximou. Lentamente.

Casar.

A conversa entre ambas foi mansa, serena, pacífica, amorosa e rápida. Principalmente rápida. Sabia que encontrara sua metade. Afinidade de espíritos e pontos de vista.

Ter uma vida regular, trabalhar, construir algo em comum. Adotar uma cerimônia como o ingresso para uma vida passada em brancas nuvens. Tão brancas quanto a sua necessidade de paz.

Levantou-se, trocou um beijo e se preparou para encontrar o tio. Seguiu andando, coberta por uma bata que lhe chegava aos joelhos, com uma sandália e uma bolsa que lhe cruzava o peito mirrado, hoje inchado pela alegria.

Ele era diferente de todos, cantor, quase poeta, gostava de bossa nova, era o lírico da família, não se prendia a preconceitos, risonho, liberal, uma figura muito próxima, talvez pela pequena diferença de idade. Separado, cuidava dos filhos, como uma choca,  com carinho meticuloso por eles, maternal. Jamais o vira desequilibrado, nunca discutia, era seu hábito  dizer:

- Empate pra mim é bom. Não quero ganhar, nem perder.

Ela precisava de um padrinho, era a única exigência feita. A cerimônia será simples, rápida; a benção regada com sucos, flores e frutas, como é hábito. Oxalá e Xangô, presentes e tudo restará em harmonia.

Encontrou pelo caminho um menino, desleixado, mirrado, sujo, parecendo um cigano, que lhe estendeu a mão, parecia cantar alguma coisa. Deixou ali duas moedas. Estava em estado de graça.

 Anunciou-se na portaria, chegou ao apartamento e disse:

- Daniel você quer ser meu padrinho de casamento?

- Quando você casará?

- Assim que possível.

- Poxa, quem é o felizardo?

- Lembra da Ritsuko, aquela menina que me acompanhou na festa de ano-novo?

- Claro que sim.

- Ela.

-…

- Então, tudo bem?

- Débora - disse o Tio - tenho o maior prazer de comparecer à cerimônia, mas padrinho não serei. E deu um meio sorriso, entre envergonhado e assustado. 

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