Maiêutica bacana
A inteligência é um mar. Um infinito distribuído entre bilhões de indivíduos. Algumas inteligências brilham intensamente em algumas pessoas, mas e sempre existe um mas, aquela inteligência não parte de uma tábula rasa. Ela parte de uma série de conceitos, conexões, informações que já estão disponíveis e divulgadas e o seu brilho advém de uma especial conjugação desses fatores. Uma nova maneira de vê-los, de colocá-los à nossa disposição para fazer outra tarefa, que tomava mais tempo, mais esforço, ou mesmo que era de impossível realização.
Tivéssemos uma bota de sete léguas e déssemos dois passos, teríamos numa cena uma fogueira e uma manta, no próximo passo um aparelho de código Morse e, finalmente um fax. Qual a ligação entre esses objetos?A ligação é a necessidade de nos comunicar com rapidez maior. E é do diálogo entre essa necessidade e a nossa inteligência que evoluímos de um para o outro.
Devemos lembrar que uma notícia de Carlos V para a região dos Países Baixos, levava - no mínimo - noventa dias. Ele foi o monarca mais poderoso de sua época e, além disso, não havia necessidade de se atravessar nenhum oceano e o meio disponível era a tração animal. Esse fato tem a idade do Brasil.
Hoje em dia tudo isso é história antiga. Temos como divulgar uma informação instantaneamente. Atravessamos o globo num mesmo minuto, estamos vencendo a batalha do tempo e do espaço. Somos praticamente onipresentes.
A maneira pela qual isso ocorreu é o diálogo. Talvez o vocábulo diálogo leve a uma impressão equivocada, ou seja, somente como resultado de uma conversa entre pessoas. A minha impressão do diálogo é muito mais ampla, além do fruto de uma conversa, é fruto de uma reflexão após ler um livro, um informe, um artigo; ao obter uma informação; ao ver uma obra de arte. O diálogo é o elemento primordial e original de um êxtase, uma nova “eureca”, um pasmo com uma visão.
Não é a toa que uma boa idéia como a de Sócrates, não perdeu atualidade mesmo com dois mil e quinhentos anos nas costas, ainda é uma tecnologia de ponta. Conversar com os discípulos fazendo perguntas que, por sua vez, se alimentavam das respostas, numa caminhada física e intelectual incessante, deu nascimento à técnica que trocou de nomes muitas vezes, restando o original hoje, praticamente esquecido. Mas o princípio ficou.
Estabelecido o que compreendo ser inteligência e o que compreendo como diálogo, posso abordar a comunicação instantânea possibilitada pela rede de computadores interligados.
O homem é um animal transgressor. Ele não se conforma às regras. Por algum tempo talvez obedeça, mas ele reage rapidamente às modificações que lhe são impostas. Cria incessantemente. Cria com sucesso ou insucesso, mas cria. A língua é uma mostra disso. O nosso idioma é uma corrupção do latim (flor inculta e bela), assim como outras tantas. Se num primeiro momento reagimos contra o abuso da norma culta, logo em seguida ela se torna clássica e mais um pouco decai para uma língua morta. A Divina Comédia foi vista com repulsa; com adoração e hoje com esquecimento.
Essa é a nossa sina. Primeiro rejeitamos, depois compreendemos para finalmente esquecer. Sempre será assim. Porém o esquecimento não é impune, ele é a base para o novo conhecimento que chega. Nós gostaríamos que o mundo parasse um pouco e nos permitisse usufruir da paz. Temos uma tendência muito forte para acreditar que o já estabelecido é bom. E que o ótimo é inimigo do bom. Uma novidade é sempre vista com um misto de receio, tédio e descrença. Para logo em seguida ser aplaudida, se contar com o apoio de muitos. Assim é com a internet. As informações são falhas, não têm credibilidade, faltam ser autenticadas, e uma série de restrições, e uma parte delas inteiramente procedentes.
Mas também é de nossa natureza, contar, separar e dividir, como já fez Baltazar. Portanto ainda levará tempo para contarmos tudo, separarmos aquilo que serve e é original daquilo que é mera repetição e com isso dividirmos em blocos que pareçam sensatos e razoáveis toda essa massa de informação.Estamos no início de um novo processo de inteligência coletiva, e com a mais plena consciência desse fato. Seria muito bom aprendermos a lidar com o Tempo também. A rapidez das novas descobertas não é proporcional ao Tempo que a natureza tem. São coisas que andam em descompasso. Temos apenas quinhentos anos como um corpo social e territorial, ou seja, dialogamos apenas nas últimas quinhentas voltas da Terra ao redor do Sol, existem povos que já o fazem há mais de duas mil.
Falta lembrar ainda que a palavra bacana, que tem o sentido de uma coisa boa, e hoje está em desuso; tanto quanto o fato de ter sido tomada de empréstimo do espanhol, segundo alguns, cujo sentido original vinha do bacanal romano, que não era vista como uma festa propriamente bacana.
Essa é a nossa época. Ainda de uma confusão. Mas creio que a Inteligência prevalecerá. E coletiva. Cada vez mais. Não sei se isso nos fará melhores, temo que não, por isso somos bacanas.
