Iólipo

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday February 27, 2008

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Finis. Fim. Lipo. Iólipo. Deitado e descarnado. A pele olivácea coloriu-se do tom do pó. Foi conhecido durante a sua vida por Lipo. Jazia ali como um dejeto de rio, aqueles que ficam na curva do caminho, sem seu fim natural: a foz e o mar. O ambiente que deveria aparentar tristeza, aparentava indiferença. Os poucos parentes sentados de costas para as paredes recebiam os seus poucos amigos.

Não que o Lipo não tivesse amigos, os tinha e em grande número, mas todos eles, sem exceção, não se conectavam com a sua família. Ele durante sua vida viveu em diferentes conjuntos sendo o único ponto de contato entre eles.

Filho caçula de uma viúva de vinte e sete anos, com mais quatro irmãos. Fruto de um casamento proibido entre um dentista comunista - morto na prisão por subversivo - e uma mocinha sonhadora de pai imigrante e sírio.

Recebeu da mãe todo o carinho destinado a si e aos outros. Todos tiveram que trabalhar desde cedo para prover o seu próprio sustento, sem tempo para cafuné; menos ele; não tinha idade.Todos o tachavam: mimado.

Os irmãos seguiam suas carreiras: o mais velho de jornaleiro se tornou funcionário público, a irmã casou-se logo e se excluiu do rol das despesas, o outro se tornou, na falta de tempo, dinheiro e disposição para estudar, político da situação, daquela situação subserviente, dos cretinos fundamentais, dos ‘sim senhor’.

Ele cresceu e viveu à margem; uma terceira margem. Não conseguia compreender aquela hostilidade, aquela avareza, aquele rancor que se distribuía ao seu redor. Aprendeu a conhecer Noel Rosa, sabia quase todo o seu repertório de cor, inclusive ‘Sai da tua alcova’. Passava horas ouvindo suas músicas, aprendeu a beber.

Com a bebida ele se tornava mais leve, as pessoas perdiam aquela dureza, os sorrisos afloravam mais facilmente, via grandes momentos de ternura e amor, o medo saía dali e o fundo triste daquelas almas aparecia, boiava. Um ou outro ficava valente e era deixado de lado. Não aborreciam ninguém, eram tratados como professores e deixados de lado.

O político lhe arranjou um emprego estável, onde não precisava trabalhar, não ganhava quase nada, mas deixou para sempre afastado o rótulo de vagabundo. A mãe arranjou um casamento com uma moça que praticava ‘johrei’; o pai chamado Von Zurück havia sido um grande grileiro de terras e mãe, dona-de-casa, cuidava de ambos. Marido e genro. Nada poderia ser mais diferente dele do que essa família. Em comum tinham apenas o gosto pela caninha e pelo filme ‘O Crepúsculo dos Deuses’, que assistiam diariamente. Mas essa congruência era com o sogro, não com a menina. Passaram juntos infindáveis seis meses. Aumentou a bebida até encontrar o nível insuportável para todos. O sogro foi o primeiro que caiu em coma alcoólica, finalmente, quando ele caiu, a noiva também caiu…fora.
Mudou-se para o centro da cidade. Vivia com motoristas de praça, biscateiros de uma forma geral, companheiro de bebida nos bilhares, lia João Antonio às vezes.
Encontrou muito amor, carinho, compreensão e isolamento. Ficou doente, muito doente, com úlcera. Teve tempo de dizer para o sobrinho empedernido:
- Ta vendo? Nada de cirrose. Isso é que é saúde. Não te falei?
Morreu sem receber alta.
De repente dentro do silêncio um murmúrio, um clamor, um alvoroço digno de velório, sem fúria, lotado de olhares enviesados. Três moças entraram silenciosamente, olhando para o corpo e para o chão. Vestidas com capas de chuvas, ao se movimentar desnudavam suas carnes, seus rostos tinham ainda restos das cores da noite, do amor comprado, exagerado, fácil de receber, difícil de dar.
Recatadas. Olharam e viram apenas homem com um sorriso no rosto, dirigiram-se para ele. E uma delas disse baixinho:
- Você pode me emprestar as chaves do apartamento dele, pra gente tirar nossas coisas?
O tio - funcionário público - se aproximou para ouvir a conversa, se intrometeu:
- Infelizmente não podemos.
O sobrinho - o do sorriso -, respondeu:
- Tio, me dê as chaves, eu me responsabilizo. Po’ deixar.
De posse do molho, entregou às moças e pediu que elas as devolvessem em sua casa.
E o Lipo foi embora com quatro declarações de amor ao natural, sem álcool, para sedimentar sua parte neste mundo, vasto mundo.

Adaptada

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Friday February 22, 2008

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Faz muito frio. Inverno. Margem do Mediterrâneo ou Mare Nostrum ou Orbis Tertius. Ainda assim algo insondável me chamou para o mar. Tive tempo para colocar algo sobre o corpo e desci.

Havia acabado de ler “Paris não tem fim”. As suas frases, reflexões, aquele despedaçar do homem refletido no escritor e sua obra, não saiam da minha cabeça. Encontrar um motivo que não fosse aleatório para explicar o ofício de escritor restou como um espectro.

Jamais poderia ser um deles. Estava do outro lado da cerca das descrições. Não convivi com pessoas que escreviam, liam ou se interessavam de qualquer daquelas formas de cultura. Tudo girava em torno da praticidade das coisas. “Para quê serve isso, menina?” “O quê você vai ganhar com isso?” “Você fica perdendo tempo com coisas sem uso, depois se arrependerá. Vai ver só”.

Não consegui viajar. Não me interessei por isso. Qual a graça? Ninguém consegue escrever sem viajar disse um húngaro antiquado e romântico e amigo. Nossa amizade se coloriu de um sexo que apesar de violento e interesseiro abriu-me outras portas, enquanto eu abria minhas pernas. Aprendi que a generosidade sem interesse não existe. E viajei com ele, sem sair do lugar.

Outro paradigma na vida dos escritores: uma negra miséria material, uma vida de necessidades não atendidas. Trabalhar por um maço de cigarros, viver num sótão e fazer do almoço a sua janta. Da sua janta o café da manhã e o almoço dos dias seguintes. Escrever um artigo com um toco de lápis para conseguir uns trocados em Cristiânia, depois de três dias sem por nada na boca e vê-lo recusado por inadptado ao tema. Vender jornais num dia, ser despachante no outro, colher uvas, carregar caixas, trabalhar como garçonete, prostituir-se na Conchinchina para ajudar a mãe e ver a sua ajuda ir parar no bolso do irmão drogado.

Desde cedo trabalhei como vendedora, num único lugar; ganhei o suficiente para viver. Sempre teve o suficiente para o que necessitasse. Nunca precisei de muita coisa. Agora, namorando Xip, pensei em fazer o meu terceiro casamento.  Eu pensava se devia conhecer sua família. Já conhecia famílias suficientemente para sabê-las iguais. Talvez aquela, tivesse outro tipo de infelicidade. Mas, no mais, iguais. Monotonamente iguais.

Entrei em meus casamentos como quem vai a uma festa. Aliás, ele geralmente começa com uma. Percebi que essa instituição esqueceu-se de prever que as pessoas continuam em movimento; e ela só é para paralíticos. Queria passar toda minha vida descobrindo, aos poucos, o meu parceiro. Mas, decorridos alguns meses já havia visto tudo. Perdia o interesse. O que fazer com o sólido papel que unia nossos tênues sentidos?  Caía fora. O primeiro com uma tremenda discussão, o segundo com um tépido suspiro como já disse o poeta ao descrever o fim do mundo.

Xip?

Gostaria muito de continuar sim, com ele. Viajei pela primeira vez por vinte dias seguidos. Nada para fazer além de ver paisagens. Ler. Amar. Estávamos passando com metódica paz o período de encantamento.

Sabia não ser escritora; não conseguia acreditar que teria nele material para continuar apaixonada ao longo dos tempos; não conseguia explicar nada que me rodeava, vivia num quieto desespero sem nenhuma válvula de escape, sempre me senti ultrajada, usada e abusada em um determinado ponto das minhas relações e das minhas situações.

E foi com esses pensamentos em minha cabeça, que me abaixei e toquei a água fria daquele mar, mar de onde partiu meus ancestrais e que me chamou como se eu fosse uma espécie de sacerdotisa.

Aquele meu toque me fez entrar dentro dele, com toda a minha disposição, desconhecida até aquele momento. Sofri um aperto de frio no corpo todo. Abraço. Aquele frio pulsou na minha mente e acelerou o batimento do meu coração. Entrei até sentir que não tinha mais pé. Mexi-me para conseguir algum calor e voltei. Não agüentava mais.

Saí e o encontrei, me esperando com uma toalha. Cobriu-me toda, esfregou-me, queria saber se precisávamos ir ao pronto socorro. Preocupado comigo, coitado.

“Por que fez isso?”

“Descobri que existem dois tipos de pessoas: as adaptadas e as inadaptadas. Faço parte dessas últimas”.

Olhamo-nos com dois olhares; um de ternura e outro de perplexidade. A lua ainda aparecia no pálido céu azul e distante sem nuvens. E foi dela que recebi o sinal para comprar meu bilhete de volta.

 

Time

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Wednesday February 20, 2008

 

 





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And you run and you run to catch up with the sun but it’s sinking

And racing around to come up behind you again

The sun is the same in the relative way, but you’re older

And shorter of breath and one day closer to death

Every year is getting shorter, never seem to find the time

Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines

Hanging on in quiet desperation is the English way

The time is gone the song is over, thought I’d something more to say

 

Pink Floyd  (Mason, Waters, Wright, Gilmour)

A grande transformação.

scriptu em Penso? by Djabal Tuesday February 19, 2008

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Confúcio nunca se considerou um pensador original. “Transmiti o que me ensinaram, sem acrescentar nada de meu”, afirmou certa vez. “Fui fiel aos antigos e a os amei.” Somente um sábio, agraciado com a intuição divina, poderia romper com a tradição. “Sou apenas alguém que ama o passado e se empenha em investigá-lo”.

Diante da quantidade de males que vimos sofrendo, parece não existir nenhuma possibilidade de êxito para aquele que pretende estabelecer alguma estratégia de escape. A cada dia que passa a violência exorbita seus direitos, abrange e atinge outras terras, faz cada vez mais vítimas, atingindo uma escala jamais vista de criatividade, ódio e destruição.

Acreditar que isso tudo terá um fim é uma ingenuidade. Insistir no assunto é discussão na certa, um obstáculo ao fim do diálogo.

Como estratégia para continuar esse tipo de conversa, recomende como faço agora, esse livro de Karen Armstrong.

Ela teve um trabalho incansável de seguir os rastros de nossa história, desde mil e seiscentos anos antes de Cristo. Utilizou a história dos gregos, dos indianos, dos judeus e dos chineses, como exemplo da nossa formação espiritual, ou seja, ela muda o âmbito da discussão do material para o espiritual. Sendo um reflexo do outro, numa mutação constante, segundo as circunstâncias.

Mostrou detalhadamente as origens das religiões, desde os tempos em que nos pusemos em pé. Desde o fogo inicial (Agni), até o fogo final com que Li Si recomendou a queima de todos os livros sagrados, no primeiro império unificado da China. Estabelece um diálogo entre todas elas; ressaltando um fundamento único (Regra de Ouro), que habitual e constantemente é desrespeitado. “Nunca faças aos outros o que não gostarias que te fizessem.” Analectos, 15,23.

Ao longo de suas páginas aprendemos como e porque nos tornamos materialistas, egoístas e violentos. Nós no século vinte e um não somos, infelizmente, originais, nossa época já existiu em forma equivalente ao longo dos tempos passados. E o que ficou gravado para mim da leitura é o fato de que todas as pessoas e coisas que vemos, derivaram de um mesmo lugar. Lugar que ainda não foi descrito, e parece que não o precisa ser, para ser verdadeiro.

Descobrimos ao longo dos séculos a nossa individualidade única e exclusiva saída de grande bloco, ele foi se partindo em pedaços; primeiro através da região e religião, depois da classe, logo após da família, em seguida através do nome, e agora através da atitude, da pose e da foto. Hoje somos o uno; mas intoleravelmente isolado, estilhaçado, apavorado pelo tempo finito que nos observa por sobre o Infinito.

Ela conta a história dessa viagem, do caminho que estamos fazendo, explorando ao máximo o nosso ambiente, e paulatinamente voltando para o conhecimento interior.Falta-nos uma visão espiritual que nos una. Essa tarefa efetivada pelo espírito de Confúcio foi também seguida pela Karen, que também não pretende ser original, apenas faz uma leitura atenta dos livros; continuou a tarefa de Jeremias, parece que esteve presente no Banquete mencionado por Platão, leu para nós o Bhagavad Gita, e rasgou o véu que encobre o Daodejing. Tudo isso para dizer que isoladamente, em algumas partes do mundo, e em tempos diferentes, já tivemos essa visão espiritual de que as palavras servem para descrever o descritível. Ela também amou o passado e o investigou. Desapegar é um verbo regular, mas não é conjugado. Praticamos outra regra: “Se fizerdes nos negócios o que o inimigo teria vergonha de fazer, tereis vantagem.” (Shangiunshu, 20 apud Graham, Disputers of the Tão, p.290)

Os nossos poetas que hoje são os nossos profetas – do grego prophetes, o que fala em nome da divindade - nos advertem do que poderá nos ocorrer pelo nosso apego, para isso basta ler a Estrada de Comarc McCarthy ou Auto-de-Fé de Elias Canetti.Recomendo que você peça desculpas pela indicação de três livros, de uma só vez; provavelmente não teremos tempo para escutar nossos profetas, não nos falta inteligência ou meios; será que falta espírito? Quem sabe? Quem viver, verá.

Pombinha

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday February 14, 2008

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Decorridos quarenta dias do seu primeiro dia de trabalho recebeu o salário do mês. Quatro notas novinhas tiradas do bolso do patrão, depois de uma pergunta encabulada. Todo o seu empenho coube num bolso de uma calça. Pela primeira vez conseguiu compreender o significado da expressão: falta mês no fim do salário.

 
Esse conto começou num pedido de alguns contos para o seu pai. Ele ouviu o pedido num misto de surpreso e alegre. Dando toda a impressão que o atenderia. Convidou o filho para tomar café da manhã, no dia seguinte, antes que ele saísse para o trabalho. O rapaz antes de dormir lembrava-se de ter esfregado as mãos de contentamento. Estava cansado de fazer escambo. Trocava os seus brinquedos por livros de bolso no jornaleiro da esquina. Desenvolveu, por cobiça à leitura, seu senso comercial. Trocou uma pista de carros de corrida pela coleção completa de uma espiã nua que abalou Paris. Seu melhor negócio. O brinquedo foi entregue sem a embalagem que serviu como sua primeira estante e esconderijo. Histórias escritas por David Nasser disfarçado sob um pseudônimo.  Dali pulou para a cama de Pombinha, personagem de Aluísio Azevedo. A sua iniciação se deu na literatura. Uma grande fuga, provocada pela proibição paterna, por ser literatura adulta. Proibir foi o primeiro degrau, os demais a qualidade do texto e contexto ajudaram a subir.

Estava cansado da vida de comerciante. Tomava tanto tempo, sempre se sentia num mercado persa, mais, sempre tinha impressão que havia feito um mau negócio. Não foi feito pra isso. Gostava de ler.

 

Tomou o café, comeu sua torrada, café com leite. Nada. O pai não deu um pio a respeito do assunto material e principal. Terminado, ofereceu uma carona ao filho e o levou a um escritório próximo e o apresentou para o seu patrão.

 

“Decorridos trinta dias você receberá o seu salário e o gastará da melhor maneira possível. Você é uma pessoa de sorte, nem todos conseguem emprego assim tão fácil.”

 

Com seu salário no bolso, convidou o velho para tomar uma cerveja. Foram a uma choperia alemã muito famosa, e que sabia ser do gosto dele. O velho era um grande conhecedor de cerveja. Ficaram bebendo uma boa parte da noite, contando as novidades. Aliás, o filho só bebeu água mineral. Abstinente. O pai de temperamento austero e de pouco falar, assim permaneceu durante todo tempo. Apenas abanando a cabeça, parecia compartilhar do entusiasmo do filho.

Saíram tarde, estavam num bairro muito movimentado da cidade, as luzes todas acesas, das casas, da rua, e dos automóveis, faziam o papel das estrelas. Uma confusão a qual o filho não estava habituado. Ficou com a visão ofuscada como se tivesse saído do cinema; mas não a ponto de não ver uma pessoa abrir a porta e entrar no carro do pai. Virou-se e se dispôs a fazer algo para tentar evitar o furto. Sentiu a mão pesada dele em seu ombro e a voz disse:

 “Deixa menino, ele só está fazendo o trabalho dele. Vamos ligar para a fábrica que eles mandarão outro. O seguro toma conta do resto, pra que estragar a noite?”

 “Por quantos livros poderia trocar um carro de verdade?” Foi o primeiro pensamento que veio à cabeça do garoto.


Piada

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday February 13, 2008

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Desde os tempos imemoriais nós temos a necessidade de viver outros ‘eus’. Vivemos intensamente a vida do outro, nos colocamos em seu lugar, sofremos com ele e por ele. Tentando aliviar a nossa dor, intensa e solitária, tornando-nos solidários. O fazemos deliberada ou intuitivamente.A tragédia grega e seu teatro, parece, tinham essa função. Estimular nossos sentimentos adormecidos ou irrefletidos. Aprendermos a sentir com e como o semelhante. 

Mais tarde, o drama passou a ser exibido numa tela, no escuro, em muitos mais poderíamos desfrutar daquela história, em muitos lugares, e com muito mais apuro técnico. Hoje em dia o cinema nos faz voar em todos os sentidos da palavra. 

Nossa era digital apressou tudo. Ganhamos em tempo, e em lugar. O drama, agora, passa na televisão, a rigor e como possibilidade, no mundo inteiro, e para que todos possam desfrutar, ao mesmo tempo.  Todos vivemos o mesmo drama.Entretanto, perdemos pouco a pouco a noção do coletivo que o convívio nos dá. Ele também fazia parte da catarse, algo se transmitia de um para o outro no teatro, e no escurinho do cinema; hoje essa solidariedade é solitária, beirando um animal em extinção, sem o Ibama para podermos colocar a culpa.  

Só conseguimos reavivar aquele sentimento fraterno que o drama nos causou, em rápidas ocasiões; pois como modernos adoramos a brevidade. E a conversa acabou. Assim como a pose de alguém na janela que dá para rua; lembrou Nelson Rodrigues. 

A nossa conversa é digital, fruto do nosso pensamento. Perdemos aquele irrefletido gostoso da piada do momento, onde talvez se perca o amigo, mas não se perde a oportunidade. 

Eu ainda a pratico, sempre que posso, sento com meus amigos e converso. Irrefletidamente. Refletidamente. Desde a textura da toalha, quando existe, até o sabor do pão daquela comunhão. Se ele é fresco, ou se é só o jeitão dele mesmo. O único assunto proibido é o cinema do Spielberg. É o receio do nosso vizinho, dele descobrir que somos descendentes do T-Rex.

Inefável

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday February 11, 2008

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 ”Quanto mais estendo o olhar em sua direção, mais alto ele voa. Quanto mais fundo o penetro, mais ele se adensa. Vejo-o adiante, e de repente está atrás. Passo a passo, o mestre habilmente nos incita. Ele me acresceu com cultura, restringiu-me com ritual. Ainda que quisesse parar, eu não poderia. Quando penso que esgotei todos os recursos, parece que alguma coisa se levanta e paira sobre mim, nítida. Todavia, embora anseie por obtê-la, não encontro o modo de alcançá-la. “

Confúcio apud Karen Armstrong in Grande Transformação, através de Hildegard Feist

Monte Deus

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday February 6, 2008

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Daniel Foe cumpriu sua missão. Saiu da casa dos seus pais e veio para o Brasil. Numa vila de pescadores, Monte Deus, onde não havia nada. Só céu, sol, mar, peixe, pinga e alguns casebres; muita falta. Falta de tudo, desde escola até água potável.

Moço, alto, loiro, forte, dezessete anos, com um rosto parecido com aqueles talhados em Rushmore; falando todo o inglês e nenhum português. Não conseguia sequer ser chamado pelo nome. O confundiam com religiosos mórmons, pela camisa de manga curta e a gravata. O traje de estilo era obrigatório, coisa de americano.

Afundou-se pelo interior, levou corrida de lavradores em Campos dos Goytacazes. Escondeu-se em Igrejas, andou pelo mato, ajudou a vacinar, medicar e enterrar. Pescou, armazenou, vendeu e negociou. Fundou uma cooperativa. Encontrou sua mulher, numa filha de pai português e mãe puri, chamada Jacira.

Casaram-se.

Voltaram à América.

Jacira aprendeu a falar inglês com seu sogro, médico que atendia aos necessitados sem cobrar consulta. E se orgulha de falar sem sotaque. Daniel fez universidade, aprendeu a administrar empresas. Algo havia nele que não o descansava nas terras americanas. Era a caninha brasileira, não havia igual, em nenhum lugar.

Depois de trabalhar em muitas empresas, enriquecer,  de fazer poucas amizades e muitos contatos, voltou para seu lugar de origem: Espírito Santo.

Comprou um belo terreno, construiu sua casa. Casa de pedra no alto de um morro, cercada de jardins, bananeiras, cães de guarda, pastos e gado; e de onde em dias claros se podia vislumbrar Angola, exagerava ele.

Chamou seu amigo brasileiro – Kofi – para passar o carnaval e tratar de alguns negócios também. A cidade que normalmente possuía quinze mil habitantes, somava ao redor de duzentos mil turistas. Contou que havia um descendente de orientais que passeava todos os dias numa das praias e de tarde escrevia. Escrevia um livro de bolso, por semana, e era vendido em bancas de jornais pelo país todo.

Presenciaram um senhor de paletó, gravata e chapéu, parado diante do mar, olhando, olhando com um olhar perdido e admirado.

A música de carnaval também seria ouvida na costa da África, e o tempo não precisava estar limpo.

Sentados à beira de sua piscina e sob duas bandeiras, a brasileira e a americana, conversavam sobre a sua terra.

- Aqui, dizia ele, é uma cidade peculiar, nela existe um exemplar de cada. Nada nos assusta. Todos têm um representante aqui. Quer um homem com onze dedos nas mãos, nós temos? Quer alguém com o pé virado pra trás, também? Você pode escolher, e eu encontrarei.

- De fato, respondeu o amigo, quando fui fazer a sua escritura no cartório, o escrevente lavrou o documento no computador e o passou para o livro através do estêncil.

- Mas o lugar é maraviloso. Você está vendo todas aquelas ilhas? Eu vou a nado, a cada uma delas, sou muito bem recebido; como e bebo, volto à noitinha, trêbado e vou dormir. Adoro calor. Adoro o Brasil. Quero que você me ajude a comprar mais um lote de terras logo ali adiante. Quero fazer um espécie de loteamento com vista para o mar. E tomar conta de um bar exclusivo que ficará eternamente de frente para uma praia selvagem, o que você acha?

-Não creio que você consiga sucesso nas vendas. Estamos longe da Capital, as estradas são precárias, o turismo é eventual e de baixa renda.

- Você sabia – retrucou – que o Espírito Santo é o maior exportador de frutas do país? A indústria moveleira é a principal fornecedora para os países Nórdicos?  Nem vou falar do granito, hein.

- Não, não tinha a menor idéia. Ainda assim, não consigo ver mercado para lotes residenciais.

- Quer saber? Proibi meu filho Matt de se casar com americana. O mais novo não sai do meu lado, e já está namorando uma menina daqui.

- Bem, não sei em que isso pode ter relação com o os lotes.

 - Acontece que já vendi desde calcinha, até aviões. Morei em muitos países, e sei que esse é o meu lugar.

Pegou seu carro, uma Veraneio totalmente reformada, e saiu com o amigo, feito um rojão meio descontrolado pela estrada de terra e foi mostrar o pedaço onde faria o seu empreendimento. O lugar era cercado por um grande portão de madeira com duas folhas entreabertas. Ele confiou no seu golpe de vista e foi: raspou a lateral esquerda inteira e sorrindo, encabulado e determinado.

- Não problemo.

Desceram e puderam ver um cenário agreste, intocado, cercado por palmeiras e uma faixa de areia que segurava o mar que rugia. Bateu uma chuva de verão e descobriram que o automóvel não conseguia subir. Pediu ajuda de caiçara, pegaram numa pá, e construíram o seu caminho de volta,  completamente molhados. 

Um minuto de lazer.

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Wednesday February 6, 2008

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O homem das profundezas mais baixas possui inteligência sem poder, desejos sem meios. A revolução industrial o ensinou a ler e deu-lhe um minuto de lazer; mas o triunfo concomitante do capital e da burocracia o deixou sem um sobretudo. Ele se empoleira em sua mesa de funcionário – Bartleby em Wall Street ou Joseph K. em seu escritório – labuta arduamente em servidão acrimoniosa, sonha com mundos mais ricos, e arrasta-se para casa à noite.    

George Steiner in Tolstoi ou Dostoievski através de Isa Kopelman e Luana Chnaiderman de Almeida

Programa.

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday February 4, 2008

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“Considero preconceito marcas e rótulos. Meu santuário é o corpo humano, a saúde, a inteligência, o talento, a inspiração, o amor e a liberdade absoluta, a insubordinação à violência e à mentira, onde quer que essas duas se manifestem. Aí está o programa que seguiria, se fosse um grande artista.”

Anton Tchekhov in “Sem trama e sem final”, através de Homero Freitas de Andrade

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