Pombinha

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday February 14, 2008

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Decorridos quarenta dias do seu primeiro dia de trabalho recebeu o salário do mês. Quatro notas novinhas tiradas do bolso do patrão, depois de uma pergunta encabulada. Todo o seu empenho coube num bolso de uma calça. Pela primeira vez conseguiu compreender o significado da expressão: falta mês no fim do salário.

 
Esse conto começou num pedido de alguns contos para o seu pai. Ele ouviu o pedido num misto de surpreso e alegre. Dando toda a impressão que o atenderia. Convidou o filho para tomar café da manhã, no dia seguinte, antes que ele saísse para o trabalho. O rapaz antes de dormir lembrava-se de ter esfregado as mãos de contentamento. Estava cansado de fazer escambo. Trocava os seus brinquedos por livros de bolso no jornaleiro da esquina. Desenvolveu, por cobiça à leitura, seu senso comercial. Trocou uma pista de carros de corrida pela coleção completa de uma espiã nua que abalou Paris. Seu melhor negócio. O brinquedo foi entregue sem a embalagem que serviu como sua primeira estante e esconderijo. Histórias escritas por David Nasser disfarçado sob um pseudônimo.  Dali pulou para a cama de Pombinha, personagem de Aluísio Azevedo. A sua iniciação se deu na literatura. Uma grande fuga, provocada pela proibição paterna, por ser literatura adulta. Proibir foi o primeiro degrau, os demais a qualidade do texto e contexto ajudaram a subir.

Estava cansado da vida de comerciante. Tomava tanto tempo, sempre se sentia num mercado persa, mais, sempre tinha impressão que havia feito um mau negócio. Não foi feito pra isso. Gostava de ler.

 

Tomou o café, comeu sua torrada, café com leite. Nada. O pai não deu um pio a respeito do assunto material e principal. Terminado, ofereceu uma carona ao filho e o levou a um escritório próximo e o apresentou para o seu patrão.

 

“Decorridos trinta dias você receberá o seu salário e o gastará da melhor maneira possível. Você é uma pessoa de sorte, nem todos conseguem emprego assim tão fácil.”

 

Com seu salário no bolso, convidou o velho para tomar uma cerveja. Foram a uma choperia alemã muito famosa, e que sabia ser do gosto dele. O velho era um grande conhecedor de cerveja. Ficaram bebendo uma boa parte da noite, contando as novidades. Aliás, o filho só bebeu água mineral. Abstinente. O pai de temperamento austero e de pouco falar, assim permaneceu durante todo tempo. Apenas abanando a cabeça, parecia compartilhar do entusiasmo do filho.

Saíram tarde, estavam num bairro muito movimentado da cidade, as luzes todas acesas, das casas, da rua, e dos automóveis, faziam o papel das estrelas. Uma confusão a qual o filho não estava habituado. Ficou com a visão ofuscada como se tivesse saído do cinema; mas não a ponto de não ver uma pessoa abrir a porta e entrar no carro do pai. Virou-se e se dispôs a fazer algo para tentar evitar o furto. Sentiu a mão pesada dele em seu ombro e a voz disse:

 “Deixa menino, ele só está fazendo o trabalho dele. Vamos ligar para a fábrica que eles mandarão outro. O seguro toma conta do resto, pra que estragar a noite?”

 “Por quantos livros poderia trocar um carro de verdade?” Foi o primeiro pensamento que veio à cabeça do garoto.


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