A grande transformação.
Confúcio nunca se considerou um pensador original. “Transmiti o que me ensinaram, sem acrescentar nada de meu”, afirmou certa vez. “Fui fiel aos antigos e a os amei.” Somente um sábio, agraciado com a intuição divina, poderia romper com a tradição. “Sou apenas alguém que ama o passado e se empenha em investigá-lo”.
Diante da quantidade de males que vimos sofrendo, parece não existir nenhuma possibilidade de êxito para aquele que pretende estabelecer alguma estratégia de escape. A cada dia que passa a violência exorbita seus direitos, abrange e atinge outras terras, faz cada vez mais vítimas, atingindo uma escala jamais vista de criatividade, ódio e destruição.
Acreditar que isso tudo terá um fim é uma ingenuidade. Insistir no assunto é discussão na certa, um obstáculo ao fim do diálogo.
Como estratégia para continuar esse tipo de conversa, recomende como faço agora, esse livro de Karen Armstrong.
Ela teve um trabalho incansável de seguir os rastros de nossa história, desde mil e seiscentos anos antes de Cristo. Utilizou a história dos gregos, dos indianos, dos judeus e dos chineses, como exemplo da nossa formação espiritual, ou seja, ela muda o âmbito da discussão do material para o espiritual. Sendo um reflexo do outro, numa mutação constante, segundo as circunstâncias.
Mostrou detalhadamente as origens das religiões, desde os tempos em que nos pusemos em pé. Desde o fogo inicial (Agni), até o fogo final com que Li Si recomendou a queima de todos os livros sagrados, no primeiro império unificado da China. Estabelece um diálogo entre todas elas; ressaltando um fundamento único (Regra de Ouro), que habitual e constantemente é desrespeitado. “Nunca faças aos outros o que não gostarias que te fizessem.” Analectos, 15,23.
Ao longo de suas páginas aprendemos como e porque nos tornamos materialistas, egoístas e violentos. Nós no século vinte e um não somos, infelizmente, originais, nossa época já existiu em forma equivalente ao longo dos tempos passados. E o que ficou gravado para mim da leitura é o fato de que todas as pessoas e coisas que vemos, derivaram de um mesmo lugar. Lugar que ainda não foi descrito, e parece que não o precisa ser, para ser verdadeiro.
Descobrimos ao longo dos séculos a nossa individualidade única e exclusiva saída de grande bloco, ele foi se partindo em pedaços; primeiro através da região e religião, depois da classe, logo após da família, em seguida através do nome, e agora através da atitude, da pose e da foto. Hoje somos o uno; mas intoleravelmente isolado, estilhaçado, apavorado pelo tempo finito que nos observa por sobre o Infinito.
Ela conta a história dessa viagem, do caminho que estamos fazendo, explorando ao máximo o nosso ambiente, e paulatinamente voltando para o conhecimento interior.Falta-nos uma visão espiritual que nos una. Essa tarefa efetivada pelo espírito de Confúcio foi também seguida pela Karen, que também não pretende ser original, apenas faz uma leitura atenta dos livros; continuou a tarefa de Jeremias, parece que esteve presente no Banquete mencionado por Platão, leu para nós o Bhagavad Gita, e rasgou o véu que encobre o Daodejing. Tudo isso para dizer que isoladamente, em algumas partes do mundo, e em tempos diferentes, já tivemos essa visão espiritual de que as palavras servem para descrever o descritível. Ela também amou o passado e o investigou. Desapegar é um verbo regular, mas não é conjugado. Praticamos outra regra: “Se fizerdes nos negócios o que o inimigo teria vergonha de fazer, tereis vantagem.” (Shangiunshu, 20 apud Graham, Disputers of the Tão, p.290)
Os nossos poetas que hoje são os nossos profetas – do grego prophetes, o que fala em nome da divindade - nos advertem do que poderá nos ocorrer pelo nosso apego, para isso basta ler a Estrada de Comarc McCarthy ou Auto-de-Fé de Elias Canetti.Recomendo que você peça desculpas pela indicação de três livros, de uma só vez; provavelmente não teremos tempo para escutar nossos profetas, não nos falta inteligência ou meios; será que falta espírito? Quem sabe? Quem viver, verá.
