Frágil

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Monday March 31, 2008

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Acabara de ler Petrônio, Boccaccio e Casanova; o seu pensamento passeou ao longo de dois mil anos; estava contente por conhecer uma cena do império Romano, outra dos anos da peste, e uma última de Veneza. Todas na meridional Itália. Todas ensinando que é bom viver o seu dia. Os homens sabem o bom senso.

Recebeu uma foto da Via Láctea, mostrando o planeta Terra como um pequeno ponto, assinalado por uma imensa marca circular, a imagem também mostrava o tamanho relativo dos planetas desse sistema solar. Copérnico sabia.

Leu um artigo científico sobre as épocas glaciais e soube também que é impossível determinar quando será a próxima. Os cientistas sabem das que já passaram; e a temperatura média de cada uma delas. Groenlândia e as geleiras também sabem.

Saiu do café, acendeu um cigarro, queimou a garganta com a quantidade de fumaça que tragou, olhou-se e descobriu a identidade cores entre a sua roupa e o prédio ao lado. Sabia que não conseguiria suportar o frio, sabia também que não conseguiria suportar o calor do copo em suas desabrigadas mãos.Afinal de contas sabia de tudo que lhe interessava.

Ouviu “O Fortuna, velut luna” da Carmina Burana, tocada ao longe.

Saber não é nada.

Tudo é orgulho, apego e vaidade.Apagou o cigarro, deixou o copo no chão. Andou circulando por todas as ruas mais ou menos sem direção, até encontrar sua casa.

Deitou para dormir.

O moderno José

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Tuesday March 25, 2008

 

 

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José não sabia decifrar os sinais enviados pelos sonhos, nem era belo o suficiente para atrair a atenção de alguém; mesmo assim foi vendido pelos irmãos. Exilado; restou empregar-se como cobrador de impostos, serviu-se deles para a melhor das finalidades: a própria e a do seu chefe; não resistiu às tentações da carne. Foi materialista demais para resistir aos apelos sensuais. Ter é poder. Tendo a tenda vale aprender a lenda?

 

Após seu sucesso inicial em terra estranha, chamou seus irmãos que vieram acompanhados por sua mãe. Deu-lhes uma oportunidade de fazer a sua vida também. Empregou-os. Deles continuou recebendo injúrias e desentendimentos. Não queriam oportunidades, queriam somente viver bem e sem problemas. Gostavam de aromas finos e de ar puro para encher os pneus de seus autos.

José - ah! José - após várias leituras equivocadas de sonhos e sucessivos fracassos em missões estatais, relegou-se ao convívio com os seus. Foi o que restou: as glórias imaginadas de um passado.

Cada vez mais compensava a distância do poder com as roupas caras e na moda. Precisava dos sinais exteriores de prestígio. Coninuou com companhia de feminina, uma após a outra.

Sintomaticamente passou a conviver com três simultaneamente. Sua vida transcorria nessa agitada acrobacia feminina. Uma trabalhava numa casa bancária; outra uma médica; e finalmente, uma que havia sido reservada para um futuro marido. Desde que ele tivesse poder e majestade suficiente. O futuro marido se revelou muito futuro. Num remoto e longínqüo lugar.

Assim que José soube que essa última houvera sido noiva de um ministro de Estado, ficou perdidamente apaixonado pela advogada.(Ela estudou por ser de bom tom.) Falava como se declamasse um acórdão de Tribunal. Rococó como Góngora. Cada frase poderia figurar numa Ordenação Manuelina.

Acabaram marcando o casamento, em dia e hora de conhecimento apenas dos parentes mais próximos. Temiam profundamente um escândalo das demais interessadas quando soubessem. Escândalo público eles não suportariam. Apesar dele não ter conversado com nenhuma delas a respeito do assunto. Deve-se mencionar: ao saber do ocorrido não se viu nenhuma lágrima vertida.

Os parentes ficaram em polvorosa, queriam saber do regime do casamento, afinal de contas, ele ao casar estava lidando com o seu patrimônio. Patrimônio que um dia seria deles. Ficaram desconsolados ao saber da comunhão total de bens e haveres. Foram deserdados. Tudo, tudo seria transferido para ela, a esposa. A lei.

Durante a breve vida de casado, adquiriu alguma paz de espírito. Deixou as roupas de lado, não comprou mais o carro novo todo ano. Não freqüentou mais os lugares da moda. Não queria ver, nem ser visto. E viveu em paz, sem filhos, até a que morte o encontrou. Lutou, mas já em agonia, não teve muita força. Parecia desanimado e feliz.

Após as cerimônias fúnebres, a família se reuniu para saber qual atitude tomar. Se havia alguma.

Um irmão lembrou de um fruto de aventura como solteiro. E todos correndo, foram buscar o filho, até então não reconhecido, para que abocanhasse o que lhe era devido. Encontraram um rapaz alto e bonito, formado engenheiro, e finalmente, com uma semelhança física impressionante.

 

Ele, o novo protagonista, após tomar conhecimento de todos os fatos, acompanhar atentamente o desenrolar dos dados e valores. Olhou bem para todos, um por um e disse, ao fim:

- Muito obrigado. Não tenho nenhum interesse em agir. Ele viveu o suficiente para me reconhecer. Não o fez. Ele não foi meu pai. Vocês estão enganados.

O miolo da alcachofra

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday March 24, 2008

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A palavra amizade, assim,

perdura apenas enquanto interessa;

pedra num tabuleiro

toma um trajetória inconstante.

Enquanto a sorte permanece,

vós, amigos, conservais inalterado o semblante;

quando cessa ela, em fuga infame voltais os rostos.

Petrônio in Satíricon através de Cláudio Aquati

Rejeito

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday March 19, 2008

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O outono começou uma semana mais cedo. Voltei do jantar em família. Ultimamente rareio esses encontros. Eles jamais desistiram de me fazer um deles. Não o sou. Não quero ouvir conselhos de ninguém, não quero mudar a minha conduta para ser mais simpático, sou o que sou.Direto, franco, objetivo. Se não gosto de uma coisa, digo e pronto. Está acabado. Gostou? Que bom. Não gostou? Que bom. Dane-se.

Existem alguns compartimentos dentro de mim, um deles é o dos sonhos. O outro o da realidade. Um outro é do medo. Outro é o da raiva. Eles não conversam ou trocam idéias entre si. Cada um domina o cenário e dirige a cena. O meu cérebro parece uma entidade que fala por si, não é exatamente comandada por mim. Moro só. Uma peça dos anos quarenta. Uma quantidade de mármore inversamente proporcional à sua decadência. Os latões constantemente lustrados já mostram o alvorecer da ruína. Não dou importância para nenhum detalhe, tudo que é real não conta. Conta é apenas aquela que paga, de vez em quando a minha comida. Vivo com um sanduíche de queijo. Uma fatia de tomate. Um vinho de supermercado tomado na quantia exata para evitar a dor de cabeça. Dois copos. O terceiro é certeiro, o quarto quase mortal. Real é a falta de grana. Lord Dinheiro tem seu valor. Manda prender, manda soltar.

Fiz uma tentativa ontem de voltar para casa da mãe. Ela aconselhou-me a ficar onde estava, afinal de contas seria uma humilhação voltar para casa materna, após desfazer o meu casamento; o que não diria a minha ex-mulher? Essa tentativa desesperada se deu pela iminente ruptura de todos os barbantes que amarram a jangada também conhecida como minha vida. Trocaria minha autonomia por alguma infra. Luz, água, telefone e banda larga.

Estou enviando meus contos para o Vidiadhar. Ele vai fazer um concurso para escolher os melhores. Eles farão parte do seu site pessoal. Soube que seu assessor já leu. Mandei mais alguns, aliás, vários. Sei que logo, logo, milhares de outros chegarão e aí perderei a minha chance de ser lembrado.

Resumindo a minha velha me jogou pra fora. Sente-se mal, por aconselhar-me inutilmente. Acha que a minha falência é devida ao meu mau bofe. Se fosse simpático não teria tanto rolo. Em suma, se me prostituísse seria um grande homem. Um grande p u t o. Livraram-se de mim, agora sou um plástico como aqueles que ficam boiando no rio Pinheiros. Durarei milhares de anos. Estou em boa companhia.

Tenho também uma amiga que me sustenta, cada vez que o abismo aparece com aquela borda horrível de onde se mira o nada, ela aparece com um rolo de barbante novo.Amarro aqui, pago uma conta de luz, outra de condomínio, a que estiver mais atrasada, e consigo uma semana de paz para trabalhar nos meus escritos. Adoro a Hilda.

Hilda não interfere na minha conduta. Finjo que ouço seus conselhos e ela se dá por satisfeita. Não é de todo burra. Sabe que não sigo nada, que continuo trabalhando em meus escritos, mas ela também sabe que tenho valor, e que num determinado momento eu vou estourar no norte. Insiste que eu dê aulas de redação criativa. Imagine só; aturar um monte de idiotas, cretinos, p.c.’s, evangélicos e demais excluídos. Pra que? Bem, sei lá, talvez eu faça isso. Afinal sou outro deles.

Hoje falei com ela, desabafei, e ouvi:

- Eu faço um trabalho íntimo constante para afastar o ódio. Rio muito, de propósito, quando quero, quando não quero também; tudo p/ arrancá-lo dali. Por que não lê Kardec ? Ajuda. Eu prefiro os irmãos Marx. (Arthur Dapieve também serve.) A raiva congela o seu pensamento. A sua atitude fica amarrada, enredada naquela teia que parece ter sido jogada sobre você. Teia da conspiração dos outros. Bobagem, isso é uma ilusão, um delírio, ninguém se preocupa conosco, nós (deixa eu me incluir?) somos partes de um plano pardal e assim que conseguem o objeto ou o objetivo: tchau. O próximo! Rápido!

Romantizamos o mundo e por isso temos ódio quando ele se comporta diferente do nosso idílio. É uma pena, mas é a verdade. Ou mudamos isso ou mudamos o mundo. Escolha a opção viável e será feliz.

Senti que saia do controle. Ela leu Dr. Pangloss, não é possível.Fiquei quieto. A opção seria mandá-la tomar residência bem no meio do inferno. Lembrei do barbante, e da força superior que ele exerce sobre mim. Não consegui falar mais nada. Estou certo de que também a mandarei para o diabo que a carregue. Basta que eu ganhe a grana do concurso. Essa esperança me dá tédio.

A segunda vinda

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Wednesday March 19, 2008

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A rodar e a rodar no giro que se alarga,

O falcão já não pode ouvir o falcoeiro.

Desagrega-se tudo: o centro não segura;

Está solta no mundo a simples anarquia;

Está solta a maré escura do sangue, e em toda parte

A cerimônia da inocência se afogou;

Falta aos melhores convicção, enquanto os piores

 Estão cheios de ardor apaixonado.

 

Turning and turning in the widening gyre

The falcon cannot hear the falconer;

Things fall apart; the centre cannot hold;

Mere anarchy is loosed, and everywhere

The ceremony of innocence is drowned;

The best lack all conviction, while the worst

Are full of passionate intensity.

 

W.B.Yeats através de Péricles Eugênio da Silva Ramos.

Ficção Científica

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Friday March 14, 2008

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o homem mais feliz de vênus

não usava camisa

José Paulo Paes em tempo escuro, a palavra (a) clara 

Taturana

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday March 12, 2008

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Hoje estava lendo um livro de um amigo que conta de suas andanças pela metrópole e lá fui convidado para entrar na Barnes&Noble, saber um pouco de sua história, saber como elas engolem as pequenas livrarias e os porquês de tudo. Preparem-se para um grande parêntese.O autor  é muito bom, faz ligações gostosas e perigosas, se confessa um admirador do Gay Talese. E tanto o seu texto quanto o do americano podem ser resumidos assim: começa-se a ler e não se para mais. Vou tirar um período do escritor americano para dizer que o brasileiro é, no mínimo, da mesma estirpe. Lá vai: “Quando o cavalo da estátua eqüestre de um general está com ambas as patas dianteiras levantadas, isso significa que o general morreu no campo de batalha; quando uma das patas dianteiras está no chão, o general morreu de ferimentos recebidos em combate; quando todas as patas estão no chão, é provável que o general tenha morrido na cama.”in Fama&Anonimato de Gay Talese através de Luciano Vieira Machado.Ao ler da sua experiência na livraria com um vendedor, imediatamente me lembrei de um amigo íntimo de muitos anos: Taturana.Um dos melhores seres mais aconchegantes e amáveis com os quais esbarrei e conheci, sem jamais retribuir um centésimo dos milhares que aplicou em mim; ocasionalmente vendedor de livros, e me acompanhou por muito tempo. Conseguiu edições incríveis e inacessíveis de dicionários etimológicos, edições esgotadas sem conta, dicionários de latim, grego, russo e tupi. Bastava ter curiosidade por uma obra, pronto, ele me conseguia. Autografada muitas vezes. Sempre foi mágico. Sempre foi um grande leitor também. Fazia tudo acontecer, sem traumas, problemas e complicações.

Aventurou-se por vários lugares, para conseguir algum reconhecimento do seu trabalho. Um cigano, um andarilho. Com um físico de Dom Quixote, caso você o imagine baixinho. Considerava-se um descendente dos Van der Ley dos Países Baixos, e dos Cavalcanti na linhagem original da Florença. Foi ele que me trouxe a História de Florença do Maquiavel. Para que conhecesse um pouco mais de sua história.

Numa ocasião, ele foi procurado por um jornalista que buscava saber como eram os seus clientes, suas identidades, hábitos e coisas assim. Acabei aparecendo numa folha diária, com direito a entrevista, foto e todas as formalidades de estilo. Tive o meu minuto de fama. Essa era a idéia que ele tinha de mim, de um grande amigo que lia.Sonhava muito em ter uma editora, gostaria de publicar obras bilíngües - italiano e português - com traduções soberbas. Começaria com aquela história do grande Nicolo Machiavelli.

Um belo dia apareceu com uma edição em fac-símile.

- Uma antevisão do meu paraíso – disse-me, exibindo orgulhoso aquele volume ainda um pouco desconjuntado.E o melhor de tudo isso é que você será o meu homenageado. Fiz uma poesia para você.  E mostrou-me seus versos cambaios.

Essa edição nunca viu a luz do dia.Algum tempo depois, veio me pedir conselhos a respeito do contrato de compra de uma casa. A sua casa, onde moraria com sua querida Dulcinéa. O contrato estipulava que ele pagaria uma vultosa soma, depois de certo tempo.

Arrisquei a pergunta:

- E de onde vem a grana, Tatu?

- Não há problema, falei com o Marco Maciel, que é meu amigo e aparentado lá de Olinda.

- Você nunca me falou dele como seu parente. Que ótimo. Você não acredita que seja melhor conseguir primeiro uma carta de crédito num banco qualquer, antes de você empenhar o seu dinheiro?

- Você acha que ele dará um balão assim num amigo e parente?

- Desculpe-me, falou a voz da razão, ou do medo, sei lá. Desculpe. Não quero atrapalhar. Boa Sorte.

Tempos depois recebi um telefonema de sua esposa, dizendo que o Taturana não estava bem, e que perdera o dinheiro que investira na casa. Agora posso voltar para terminar esse outro livro, com uma sensação estranha lá dentro de mim. 

Peneira

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Tuesday March 11, 2008

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Não tenho idéia se alguma vez sofri mais do que sofrem os sapateiros, os matemáticos ou os maquinistas dos trens; não tenho idéia de quem profetiza através dos meus lábios, se Deus ou qualquer outro de menos valor. Eu me permitirei tão-somente constatar uma pequena contrariedade que sinto, a qual, por sua experiência, você também deve conhecer. Eis do que se trata. Eu e você amamos as pessoas comuns, mas somos amados por verem em nós pessoas fora do comum.

Anton Tchekhov in “Sem trama e sem final”, através de Boris Schnaiderman

Albalice

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Tuesday March 4, 2008

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Sou filha de migrantes pernambucanos. Filha entre muitos filhos fui punida com a beleza. A beleza combinada com a pobreza e religião é algo muito explosivo. Desde menina fui proibida de entrar no banheiro quando meu pai se barbeava. Fui punida cada vez que levava uma cantada. Inocentemente contava para pedir ajuda e proteção, recebia um castigo. Talvez fosse tomada por uma oferecida. Aprendi a calar. Existia uma espécie de escuridão em casa, e nela eu aparecia como uma espécie de ponto fulgurante. Brilhava para sofrer. Bastava estar presente, para ser o centro das atenções, recomendações e conselhos.

Teimosa, jamais revidei uma violência, e também jamais aprendi com conselhos. Só com meus próprios meios. Sempre fiz o meu caminho, independentemente dele estar certo ou errado. Aprendi fazendo ou não fazendo.Aos poucos fui me calando, calando, apesar de falar o tempo todo. Falava para desviar a atenção sobre mim.

Fui trabalhar para custear meus estudos, apaixonei-me pelo patrão, silenciosamente. Ganhei coragem e me declarei. Ele não acreditou. Fui mandada embora.Trabalhei, trabalhei, namorei pouco. Aprendi a fazer bem o que faço. Tudo que consegui foi trabalhando. Amor e dinheiro.

Casei com um colega do trabalho.Ele: descasado com dois filhos e trabalhava o suficiente para pagar a pensão deles. Parece esperar a herança de alguém.Bebia muito, ouvia Pink Floyd quando estava pra baixo e Bach quando estava alegre. Inteligente, calado, tímido.Toda vez que a parte alegre da minha natureza despontou fiquei desapontada.

Casada há vários anos, tive a idéia de me pintar, arrumar o cabelo, ficar bonita e nua em pêlo coberta com meu melhor casaco desci as escadas e fiquei parada no patamar. Esperando a sua ereção, aliás, sua reação. Olhou-me, com um ar indeciso entre surpreso e alegre; tirei meu casaco, abri os braços e pedi por ele, derretida em méis pela esperança fulgurante daquele olhar.

Ouvi:- Qui que é isso Alba? Isso não é coisa de mulher honesta.

Depois de algum tempo, consegui minha filha. Depois de mais algum tempo, consegui me separar. Sem alegria, com peso na consciência, levei três meses tomando coragem para falar.

Hoje estou só. Tentando lidar com a escuridão que me envolve. Aquela força contida em mim, que iluminava tudo a minha volta, ora some, ora aparece. As coisas a minha volta me prendem, me puxam, para um lugar que não conheço.

Aprendi a gozar sozinha. Tenho um sonho de poder compartilhar isso com um companheiro, sem ser chamada de vagabunda.

Alguma coisa ficou estampada em mim, que não permite que eu saia do lugar. Preciso encontrar alguém que também não saia do seu lugar e seja feliz, alguém que não seja possuído pela ira.

Aos poucos percebo que a ira não é boa conselheira, ela me torna ainda mais medrosa. Com a raiva que sinto de mim, por não conseguir sair do lugar, consigo forças para ter raiva do outro que se aproveita de mim. E a raiva do outro volta com a força de um contato desfeito, de uma queda do pago, do sumiço do mercado.

Tocou o telefone. Esqueci de dizer que agora estou bem melhor, tenho um namorado virtual.

Viagem Fluvial

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday March 3, 2008

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Imaginai uma viagem fluvial. O barqueiro, da nascente ao estuário, segue o fluxo das águas. Esse percurso começa? Termina? O barqueiro acha que é e assim vê: e na verdade há uma face do percurso onde o começo e o fim existem, onde existe uma leitura ou execução da viagem. Há uma face da viagem onde o passado e futuro são reais; e outra, não menos real e mais esquiva, onde a viagem, o barco, o barqueiro, o rio e a extensão do rio se confundem. Os remos do barco ferem de uma vez todo o comprimento do rio; e o viajante, para sempre e desde sempre, inicia, realiza e conclui a viagem, de tal modo que a partida na cabeceira do rio não antecede a chegada no estuário.

Osman Lins in Avalovara

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