Taturana

Hoje estava lendo um livro de um amigo que conta de suas andanças pela metrópole e lá fui convidado para entrar na Barnes&Noble, saber um pouco de sua história, saber como elas engolem as pequenas livrarias e os porquês de tudo. Preparem-se para um grande parêntese.O autor é muito bom, faz ligações gostosas e perigosas, se confessa um admirador do Gay Talese. E tanto o seu texto quanto o do americano podem ser resumidos assim: começa-se a ler e não se para mais. Vou tirar um período do escritor americano para dizer que o brasileiro é, no mínimo, da mesma estirpe. Lá vai: “Quando o cavalo da estátua eqüestre de um general está com ambas as patas dianteiras levantadas, isso significa que o general morreu no campo de batalha; quando uma das patas dianteiras está no chão, o general morreu de ferimentos recebidos em combate; quando todas as patas estão no chão, é provável que o general tenha morrido na cama.”in Fama&Anonimato de Gay Talese através de Luciano Vieira Machado.Ao ler da sua experiência na livraria com um vendedor, imediatamente me lembrei de um amigo íntimo de muitos anos: Taturana.Um dos melhores seres mais aconchegantes e amáveis com os quais esbarrei e conheci, sem jamais retribuir um centésimo dos milhares que aplicou em mim; ocasionalmente vendedor de livros, e me acompanhou por muito tempo. Conseguiu edições incríveis e inacessíveis de dicionários etimológicos, edições esgotadas sem conta, dicionários de latim, grego, russo e tupi. Bastava ter curiosidade por uma obra, pronto, ele me conseguia. Autografada muitas vezes. Sempre foi mágico. Sempre foi um grande leitor também. Fazia tudo acontecer, sem traumas, problemas e complicações.
Aventurou-se por vários lugares, para conseguir algum reconhecimento do seu trabalho. Um cigano, um andarilho. Com um físico de Dom Quixote, caso você o imagine baixinho. Considerava-se um descendente dos Van der Ley dos Países Baixos, e dos Cavalcanti na linhagem original da Florença. Foi ele que me trouxe a História de Florença do Maquiavel. Para que conhecesse um pouco mais de sua história.
Numa ocasião, ele foi procurado por um jornalista que buscava saber como eram os seus clientes, suas identidades, hábitos e coisas assim. Acabei aparecendo numa folha diária, com direito a entrevista, foto e todas as formalidades de estilo. Tive o meu minuto de fama. Essa era a idéia que ele tinha de mim, de um grande amigo que lia.Sonhava muito em ter uma editora, gostaria de publicar obras bilíngües - italiano e português - com traduções soberbas. Começaria com aquela história do grande Nicolo Machiavelli.
Um belo dia apareceu com uma edição em fac-símile.
- Uma antevisão do meu paraíso – disse-me, exibindo orgulhoso aquele volume ainda um pouco desconjuntado.E o melhor de tudo isso é que você será o meu homenageado. Fiz uma poesia para você. E mostrou-me seus versos cambaios.
Essa edição nunca viu a luz do dia.Algum tempo depois, veio me pedir conselhos a respeito do contrato de compra de uma casa. A sua casa, onde moraria com sua querida Dulcinéa. O contrato estipulava que ele pagaria uma vultosa soma, depois de certo tempo.
Arrisquei a pergunta:
- E de onde vem a grana, Tatu?
- Não há problema, falei com o Marco Maciel, que é meu amigo e aparentado lá de Olinda.
- Você nunca me falou dele como seu parente. Que ótimo. Você não acredita que seja melhor conseguir primeiro uma carta de crédito num banco qualquer, antes de você empenhar o seu dinheiro?
- Você acha que ele dará um balão assim num amigo e parente?
- Desculpe-me, falou a voz da razão, ou do medo, sei lá. Desculpe. Não quero atrapalhar. Boa Sorte.
Tempos depois recebi um telefonema de sua esposa, dizendo que o Taturana não estava bem, e que perdera o dinheiro que investira na casa. Agora posso voltar para terminar esse outro livro, com uma sensação estranha lá dentro de mim.