Rejeito

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday March 19, 2008

ribeira-douro.jpg

O outono começou uma semana mais cedo. Voltei do jantar em família. Ultimamente rareio esses encontros. Eles jamais desistiram de me fazer um deles. Não o sou. Não quero ouvir conselhos de ninguém, não quero mudar a minha conduta para ser mais simpático, sou o que sou.Direto, franco, objetivo. Se não gosto de uma coisa, digo e pronto. Está acabado. Gostou? Que bom. Não gostou? Que bom. Dane-se.

Existem alguns compartimentos dentro de mim, um deles é o dos sonhos. O outro o da realidade. Um outro é do medo. Outro é o da raiva. Eles não conversam ou trocam idéias entre si. Cada um domina o cenário e dirige a cena. O meu cérebro parece uma entidade que fala por si, não é exatamente comandada por mim. Moro só. Uma peça dos anos quarenta. Uma quantidade de mármore inversamente proporcional à sua decadência. Os latões constantemente lustrados já mostram o alvorecer da ruína. Não dou importância para nenhum detalhe, tudo que é real não conta. Conta é apenas aquela que paga, de vez em quando a minha comida. Vivo com um sanduíche de queijo. Uma fatia de tomate. Um vinho de supermercado tomado na quantia exata para evitar a dor de cabeça. Dois copos. O terceiro é certeiro, o quarto quase mortal. Real é a falta de grana. Lord Dinheiro tem seu valor. Manda prender, manda soltar.

Fiz uma tentativa ontem de voltar para casa da mãe. Ela aconselhou-me a ficar onde estava, afinal de contas seria uma humilhação voltar para casa materna, após desfazer o meu casamento; o que não diria a minha ex-mulher? Essa tentativa desesperada se deu pela iminente ruptura de todos os barbantes que amarram a jangada também conhecida como minha vida. Trocaria minha autonomia por alguma infra. Luz, água, telefone e banda larga.

Estou enviando meus contos para o Vidiadhar. Ele vai fazer um concurso para escolher os melhores. Eles farão parte do seu site pessoal. Soube que seu assessor já leu. Mandei mais alguns, aliás, vários. Sei que logo, logo, milhares de outros chegarão e aí perderei a minha chance de ser lembrado.

Resumindo a minha velha me jogou pra fora. Sente-se mal, por aconselhar-me inutilmente. Acha que a minha falência é devida ao meu mau bofe. Se fosse simpático não teria tanto rolo. Em suma, se me prostituísse seria um grande homem. Um grande p u t o. Livraram-se de mim, agora sou um plástico como aqueles que ficam boiando no rio Pinheiros. Durarei milhares de anos. Estou em boa companhia.

Tenho também uma amiga que me sustenta, cada vez que o abismo aparece com aquela borda horrível de onde se mira o nada, ela aparece com um rolo de barbante novo.Amarro aqui, pago uma conta de luz, outra de condomínio, a que estiver mais atrasada, e consigo uma semana de paz para trabalhar nos meus escritos. Adoro a Hilda.

Hilda não interfere na minha conduta. Finjo que ouço seus conselhos e ela se dá por satisfeita. Não é de todo burra. Sabe que não sigo nada, que continuo trabalhando em meus escritos, mas ela também sabe que tenho valor, e que num determinado momento eu vou estourar no norte. Insiste que eu dê aulas de redação criativa. Imagine só; aturar um monte de idiotas, cretinos, p.c.’s, evangélicos e demais excluídos. Pra que? Bem, sei lá, talvez eu faça isso. Afinal sou outro deles.

Hoje falei com ela, desabafei, e ouvi:

- Eu faço um trabalho íntimo constante para afastar o ódio. Rio muito, de propósito, quando quero, quando não quero também; tudo p/ arrancá-lo dali. Por que não lê Kardec ? Ajuda. Eu prefiro os irmãos Marx. (Arthur Dapieve também serve.) A raiva congela o seu pensamento. A sua atitude fica amarrada, enredada naquela teia que parece ter sido jogada sobre você. Teia da conspiração dos outros. Bobagem, isso é uma ilusão, um delírio, ninguém se preocupa conosco, nós (deixa eu me incluir?) somos partes de um plano pardal e assim que conseguem o objeto ou o objetivo: tchau. O próximo! Rápido!

Romantizamos o mundo e por isso temos ódio quando ele se comporta diferente do nosso idílio. É uma pena, mas é a verdade. Ou mudamos isso ou mudamos o mundo. Escolha a opção viável e será feliz.

Senti que saia do controle. Ela leu Dr. Pangloss, não é possível.Fiquei quieto. A opção seria mandá-la tomar residência bem no meio do inferno. Lembrei do barbante, e da força superior que ele exerce sobre mim. Não consegui falar mais nada. Estou certo de que também a mandarei para o diabo que a carregue. Basta que eu ganhe a grana do concurso. Essa esperança me dá tédio.

A segunda vinda

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Wednesday March 19, 2008

claus-wickrath-vi.jpg

 

A rodar e a rodar no giro que se alarga,

O falcão já não pode ouvir o falcoeiro.

Desagrega-se tudo: o centro não segura;

Está solta no mundo a simples anarquia;

Está solta a maré escura do sangue, e em toda parte

A cerimônia da inocência se afogou;

Falta aos melhores convicção, enquanto os piores

 Estão cheios de ardor apaixonado.

 

Turning and turning in the widening gyre

The falcon cannot hear the falconer;

Things fall apart; the centre cannot hold;

Mere anarchy is loosed, and everywhere

The ceremony of innocence is drowned;

The best lack all conviction, while the worst

Are full of passionate intensity.

 

W.B.Yeats através de Péricles Eugênio da Silva Ramos.

22 queries. 0.352 seconds.
Powered by Wordpress
theme by evil.bert
modificado por DaniCast