O moderno José

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Tuesday March 25, 2008

 

 

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José não sabia decifrar os sinais enviados pelos sonhos, nem era belo o suficiente para atrair a atenção de alguém; mesmo assim foi vendido pelos irmãos. Exilado; restou empregar-se como cobrador de impostos, serviu-se deles para a melhor das finalidades: a própria e a do seu chefe; não resistiu às tentações da carne. Foi materialista demais para resistir aos apelos sensuais. Ter é poder. Tendo a tenda vale aprender a lenda?

 

Após seu sucesso inicial em terra estranha, chamou seus irmãos que vieram acompanhados por sua mãe. Deu-lhes uma oportunidade de fazer a sua vida também. Empregou-os. Deles continuou recebendo injúrias e desentendimentos. Não queriam oportunidades, queriam somente viver bem e sem problemas. Gostavam de aromas finos e de ar puro para encher os pneus de seus autos.

José - ah! José - após várias leituras equivocadas de sonhos e sucessivos fracassos em missões estatais, relegou-se ao convívio com os seus. Foi o que restou: as glórias imaginadas de um passado.

Cada vez mais compensava a distância do poder com as roupas caras e na moda. Precisava dos sinais exteriores de prestígio. Coninuou com companhia de feminina, uma após a outra.

Sintomaticamente passou a conviver com três simultaneamente. Sua vida transcorria nessa agitada acrobacia feminina. Uma trabalhava numa casa bancária; outra uma médica; e finalmente, uma que havia sido reservada para um futuro marido. Desde que ele tivesse poder e majestade suficiente. O futuro marido se revelou muito futuro. Num remoto e longínqüo lugar.

Assim que José soube que essa última houvera sido noiva de um ministro de Estado, ficou perdidamente apaixonado pela advogada.(Ela estudou por ser de bom tom.) Falava como se declamasse um acórdão de Tribunal. Rococó como Góngora. Cada frase poderia figurar numa Ordenação Manuelina.

Acabaram marcando o casamento, em dia e hora de conhecimento apenas dos parentes mais próximos. Temiam profundamente um escândalo das demais interessadas quando soubessem. Escândalo público eles não suportariam. Apesar dele não ter conversado com nenhuma delas a respeito do assunto. Deve-se mencionar: ao saber do ocorrido não se viu nenhuma lágrima vertida.

Os parentes ficaram em polvorosa, queriam saber do regime do casamento, afinal de contas, ele ao casar estava lidando com o seu patrimônio. Patrimônio que um dia seria deles. Ficaram desconsolados ao saber da comunhão total de bens e haveres. Foram deserdados. Tudo, tudo seria transferido para ela, a esposa. A lei.

Durante a breve vida de casado, adquiriu alguma paz de espírito. Deixou as roupas de lado, não comprou mais o carro novo todo ano. Não freqüentou mais os lugares da moda. Não queria ver, nem ser visto. E viveu em paz, sem filhos, até a que morte o encontrou. Lutou, mas já em agonia, não teve muita força. Parecia desanimado e feliz.

Após as cerimônias fúnebres, a família se reuniu para saber qual atitude tomar. Se havia alguma.

Um irmão lembrou de um fruto de aventura como solteiro. E todos correndo, foram buscar o filho, até então não reconhecido, para que abocanhasse o que lhe era devido. Encontraram um rapaz alto e bonito, formado engenheiro, e finalmente, com uma semelhança física impressionante.

 

Ele, o novo protagonista, após tomar conhecimento de todos os fatos, acompanhar atentamente o desenrolar dos dados e valores. Olhou bem para todos, um por um e disse, ao fim:

- Muito obrigado. Não tenho nenhum interesse em agir. Ele viveu o suficiente para me reconhecer. Não o fez. Ele não foi meu pai. Vocês estão enganados.

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