Urbano

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday April 10, 2008

Saiu do norte de Minas, daquela cidade que não constou do mapa quando falou para seu chefe do seu lugar de nascimento. Descobriu que era pequena e pobre. Pobre, desconfiava pela vontade de sair que o dominou a partir dos doze anos. Saiu gradativamente. Primeiro saiu da escola, tinha que ajudar a família na roça. Trabalhava apenas trabalhava. Jamais recebia. Depois da roça e passou a cavar valetas em São Paulo. Finalmente saiu deles todos; não mandava ajuda alguma. Cultivou o hábito de gostar do dinheiro. Não o gastava por nada. Só o necessário. E o necessário era muito pouco. Pouco mesmo.

Cavou durante a construção de uma avenida. Lavrando criou músculos e disposição, batia todos os colegas, apesar de ser miúdo. Era reconhecido pela resistência. Dotado de raras, mas grandes qualidades. Sorria. Sorria muito. Quando estava alegre, ou triste. A sua face era uma paisagem sorridente, em qualquer situação.

Deixou de cavar por uma fábrica. Dez anos. Trabalho fácil, para se cansar, fazia sexo, jogava bola e andava. Descobriu maneiras criativas e alegres de se cansar. A sua força e vitalidade impressionava.

Com o passar do tempo comprou uma bicicleta. Jogava futebol apenas no final de semana. Antes de partida, se aquecida dando voltas ao redor do campo. Era o seu condicionamento físico. E acabou se casando com uma mulher trabalhadora, cozinheira de mão cheia, deu-lhe muito prazer, liberdade de invenção na aeróbica da cama e, filhos. Muitos.

Graças ao seu sorriso passou a trabalhar como vendedor. Comprou um carro. Comprou uma roupa social, e tudo mudou. Tendo o carro, roupa como aliados do sorriso, não só vendia como recebia ofertas diárias de sorrisos femininos. E nunca os deixou desapontados. Namorava. Descobriu que podia namorar muitas mulheres, desde que elas não soubessem uma da outra.

Carro zero. Novas oportunidades. Inimagináveis. Trabalhava muito, só vendendo. Incansável. Não fazia esforço nenhum, o sucesso era do sorriso e da calma. Com as mulheres descobriu que a aeróbica era de principiantes; conheceu: Step, Body Fit, Localizada, Manutenção, Ginásio Musculação, Cardio Fitness, Cardio Vascular, Yôga, Funk e Street Dance. Cada professora com uma especialidade. Uma mais linda que a outra. Pagava para se cansar e se divertia como nunca.

Arrumou-se com uma professora de Tantra Yôga. Enroscou-se definitivamente. Apaixonou-se. Dividiu-se em dois. Para atender a instrutora de aeróbica e a yogini. Do segundo e simultâneo casamento teve também uma filha. A yogini sabia do todos os seus compromissos anteriores, e não exigiu a dissolução do primeiro casamento, exigiu desempenho, segurança e companhia.

Trabalhando, vendendo, comprou uma moto para os finais de semana, alemã, com muitas cilindradas e de muitos dólares. Levava a sua vida assim, feliz.

Um dia sentado no sofá de sua casa, de braços com a segunda mulher, atendeu a campainha da porta e deu de cara com a primeira. Tentou negar as evidências, para evitar o escândalo, fez com que entrassem: ela e os filhos. E ali parlamentaram. Conversaram sobre tudo. Em alto e bom som. Fúria. Raiva. Traição. Canalhices, covardias, eram as palavras que os vizinhos até cem metros podiam ouvir. Não se ouviu a voz dele. Calmo e sorridente. Esperou passar o tempo. Horas depois, a turma se separou e a primeira mulher saiu acompanhada dele.

Passado um tempo, foi chamado pelo chefe para assumir a gerência das vendas. Assumiu a melhor expressão e aceitou. Passaram a conversar a respeito do que deveria ser feito dali por diante. Subitamente, o chefe mostrou o jornal que dizia:

“BAZAR DOS BENS DE ABADIA ACABA EM CONFUSÃO.”

- Como é que pode; né?

O mineirinho leu em voz alta e titubeante aquela manchete em vermelho e negro. E as palavras bazar, bar, loja, abadia, igreja, acabar e confusão não faziam o menor sentido, juntas. Limitou-se a concordar, gesto acompanhado do seu melhor, quase uma risada.

Assumiu com sucesso a chefia, as duas famílias, duas casas, uma bem longe da outra, com escala de horários, e tabela anual de férias compartilhadas de quinze dias cada. Abriu uma empresa de comunicação para o filho mais velho, como sócio majoritário e colocou a mais nova na escola de dança da prefeitura de Osasco.

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