Pasticho

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday April 18, 2008

- Amar duas pessoas ao mesmo tempo seria moralmente inaceitável? -

Virginia desligou o telefone; “o seu pedido de aumento foi negado, estamos estudando a sua transferência, nada foi decidido”; colocou o Ipod, cruzou os pés sobre a mesa, ajeitou os óculos de lentes grossas; “recusaremos sua matrícula por atraso nos pagamentos”; afastou o seu obituário cotidiano, e passou os olhos no texto com esse título estranho, e leu:

“Não existe nenhum problema em amar duas pessoas ao mesmo tempo. Conhecemos o amor através de várias perspectivas, hoje em dia falamos do amor urbano, moderno. Essa linha do tempo foi libertando o sentimento das suas amarras, ele foi ficando mais livre, mais aceito, entre parceiros diferentes, um ou vários, do mesmo sexo, do mesmo grupo.

Creio, entretanto, que o amor requer tempo. O amor filial abrange uma vida, no tempo; é além dela. Dura a vida do homem. Não amo hoje, amo para sempre. Amamos para quando não estivermos mais aqui. Talvez tenhamos atitudes aparentemente contraditórias hoje; mas elas valem para o eterno.

O amor pelo outro, é muito mais complexo. O homem se partiu, despregou-se daquele iceberg que é a humanidade e descobriu-se: uno, indivisível, imerso. Deixou de olhar apenas em torno e passou a olhar para si mesmo. Voltou sua mira para o interior, e dentro de si encontrou outra multidão nas bordas de um rio interior. De quando em quando, convida uma delas e a incorpora. Esgota as possibilidades daquele momento e a devolve. Logo mais adiante, pega uma outra. E, não raro, elas são muito diferentes entre si. Mas todas elas têm o mesmo rosto e o mesmo corpo. É uma contradição dramática.

Essa viagem feita a dois é o resultado dessa imagem para o amor. Cada um dos ocupantes escolheu alguém para fazer parte daquele passeio. Ambos dedicam seu tempo para descobrir. E esse tempo não mira o infinito, mira o presente. O tempo cronológico não bate com o tempo de cada um. Cada um tem o seu. E é nele que os personagens têm que encaixar. Encaixe que significa prazer e felicidade.

Vários personagens, vários tempos, um único bote, um passeio que começa no interior de cada um e busca o interior do outro. A paisagem pode atrapalhar. Outros botes. São muitos os fatores que conspiram contra. Se deixarmos que o tempo resolva somos assaltados pelo tédio que um longo passeio dá. Se fizermos as contas diariamente, somos aterrorizados pela solidão de um barco vazio deixado à deriva.

Esse roteiro é uma bobagem simples. Tente você abrir as outras potencialidades dele. A questão de uma outra pessoa nos interessar simultaneamente; significará um simples passeio num outro barco; esse barco se revelará miúdo, o rio em que corre é raso, ou grande e confortável e o leito suporta o calado? Quem escolhe primeiro o barco? Ninguém sabe a resposta. Não é a moral – perdemos a imortalidade -, nem a religião, muito menos a ciência que têm a resposta. A resposta está em você, na sua viagem, no seu leito de rio. Tudo deve desaguar no oceano da felicidade. Mesmo que essa foz se revele, no mais das vezes, lodosa e ansiosa para agarrar no fundo do barco e deixá-la estagnada. Por muito tempo, tempo que, descuidadamente, não temos mais. O que posso é desejar: boa viagem.”

Parou por um instante para pensar como posso catalogar isso? “quando terei o meu próprio carro?” E jogou o papel pra lá. Vou colocar como horóscopo. É isso. A pergunta exige apenas uma resposta: O seu homem não está correspondendo? Troque; escolha outro. Ele não comparece? Troque. Isso acontece, “Cartola” simplesmente acontece. Ninguém manda no seu próprio coração. Se houver necessidade de vários, não hesite. Faça. Não sei por que as pessoas complicam tanto. Esse texto parece escrito por mulher. Vou checar.

Vi o papel assentar-se sobre um livro aberto, encadernado em couro marrom, página duzentos e noventa e quatro, sublinhada à lápis; aproximei-me para ler o texto:

levo comigo,….; a condenação de ser vizinho igual, perante o senhorio e o sítio, dos outros inquilinos do aglomerado, espreitando com nojo, por entre as grades traseiras do armazém da loja, o lixo alheio que se entulha à chuva no saguão que é a minha vida.”

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