Walser
Não é comum escrever pedindo notícias suas. E não o faço agora. Escrevo para pedir-lhe que na próxima folga visite Berlim e investigue uma fortaleza remanescente da segunda grande guerra, na região norte, a antiga Berlim Oriental. Afinal de contas você está na Eslavônia, não tem nenhum problema com o idioma, e você, meu irmão, está infinitamente mais perto do que eu.
Ontem assisti um documentário mostrando as colinas da cidade. Aquela que costumava ser plana e com solo arenoso, agora tem várias colinas espalhadas. Fiquei intrigado com isso. Aos poucos fui informado que após o final da guerra os aliados após destruírem oitenta por cento da cidade, tiveram problemas com o entulho. Milhões de metros cúbicos de areia, cimento, argila, ferro em pequenos pedaços e blocos tinham que desaparecer. O que fazer com isso? Naquelas quantidades estratosféricas?
Tiveram uma idéia, a mesma que tínhamos quando pequenos, levar a sujeira para debaixo do tapete. Assim amontoaram os escombros em terrenos baldios e fizeram um monte; o cobriram de uma grande quantidade de terra. Sobre a terra plantaram árvores e plantas. Aí está, depois de algum tempo, tiveram uma belo cerro sobre a qual puderam contemplar a sua obra. A de reconstrução, quero dizer.
Entretanto na parte oriental da cidade existia uma fortaleza construída em local estratégico, para observar os movimentos dos inimigos quando viessem pelo oriente. Ela foi construída com tais requintes de arquitetura e engenharia para ser indestrutível. Possuía uma quantidade de ferro e cimento simplesmente inimaginável. Com capacidade para resistir a qualquer intempérie. Mesmo uma guerra.
Com o desenrolar dos acontecimentos, o forte foi também transformado em escombros?
Não. Esse não. Apenas em parte. Os aliados tentaram destruir de todas as maneiras possíveis a construção. Gastaram toneladas de TNT. Nada. Atingiram a parte sul, puseram-na no chão. Pararam para refletir e concluíram que o esforço para demolição não seria compatível com o resultado. E, para evitar problemas com desmoronamentos posteriores, deixaram o remanescente em pé, cobrindo o restante. O resultado foi um morro atrás de um portal de entrada, parcialmente arruinado.
Os repórteres conseguiram entrar, encontraram sapatos, cenouras em lata, passearam por alguns corredores, concluíram que estavam dentro de uma pequena cidade onde habitavam cerca de três mil habitantes. E prometeram voltar, para saber dos seus segredos. Previram que daqui dez anos, teríamos muito mais notícias sobre a construção e seus segredos.
Esta noite não consegui dormir. Fiquei angustiado com essa notícia. E com a imagem que não mais saiu da minha mente.
O pensamento de uma era - a arquitetura física e mental - foi completamente transformado em ruínas; em pequenos pedaços e enterrados? Cobertos para que aprendêssemos a lição.
A inteligência que construiu essa fortificação conseguiu transformá-la, pelo menos em parte, como idéia indestrutível? Não conseguiremos jamais destruí-la? Apesar dos avisos, indenizações, livros, filmes e novelas?
Verifique se isso tudo é verdade, por favor, ou se os fatos não estão deturpados.
Por aqui – o deserto de hábito. Não temos ruínas. Mas, tive duas boas, aliás, ótimas notícias. Foi publicado “De verdade” do Sándor Márai e amanhã pego “Austerlitz” do W.G.Sebald.
Abraços,
Robert.