Deserto

scriptu em Penso? by Djabal Thursday May 15, 2008

Talvez se eu pudesse colaborar, eu colaboraria para aumentar as dúvidas, em seu Momento Reflexivo. As suas e as minhas. Não as certezas, pois entre umas e outras existe o movimento. Acredito que nele nos assemelharíamos aos bêbados. Apesar de não nos darmos conta disso.

Quando estamos parados, estamos como alguém numa poça d’água e água parada gera a peste. Já que temos que nos movimentar. Descreveria o movimento assim:

Quando escrevemos dizemos o que pensamos a respeito de alguma coisa, fato ou questão; de tal maneira que aquele que lê, tira as sua impressão decorrente daquela nossa, e esta por sua vez será fruto de ambas, nem uma, nem outra. Numa espécie de movimento circular inesgotável.

Em resumo, quando eu escrevo descrevo a mim mesmo. Você quando lê, lê a si própria. Entre essa rachadura ficamos nós, os de bom senso, curiosos, aborrascados, aflitos, para encontrar pontos nas bordas daquele rio que é uma miragem.

Um rio que brotasse miraculosamente desse deserto e que nos conduziria até um lugar onde recebêssemos como troco de uma bebida comprada, aquela moeda de vinte centavos, (el zahir). Ela de tanto ser manuseada perderia a diferença entre as diferentes faces e quem sabe nos revelaria o que não pode ser revelado.

Meme

scriptu em Penso? by Djabal Tuesday May 13, 2008

Meu amigo Julio do Digestivo Cultural fez essas perguntas e sugeriu um meme. É uma ótima oportunidade para que todos façam o mesmo em seus blogs. Será uma forma agradável e sugestiva de conhecer melhor a nós próprios e aos nossos semelhantes.

1 - Qual o seu começo de livro inesquecível?

“O vermelho e o negro” de Stendhal


2 - Qual foi o livro da sua infância?

Infância: Irmãos Grimm, Monteiro Lobato; Adolescência: Giselle, a espiã nua que abalou Paris (escrita sob pseudônimo por David Nasser), Aluízio Azevedo: Comecei com “O Cortiço”

3 - Qual o livro que mais o perturbou?
Livro do Desassossego do Fernando Pessoa, através do Bernardo Soares

4 - Qual o livro que você mais releu?

Auto-de-Fé de Elias Canetti e Vidas Imaginárias de Marcel Schwob

5 - Que livro considerado clássico você abandonou antes do fim?

Mínima Moralia de Theodor W. Adorno (tecnicamente não abandonei, estou lendo desde 92- [!!?]). Por princípio, não abandono a leitura de nada que começo.

6 - Que livro você acredita que deveria ser conhecido por um maior número
de leitores e não é?

Paisagem Pintada com Chá de Milorad Pávitch; “A neve do Almirante” de Álvaro Mutis; “A linguagem dos Pássaros” de Farid ud-Din Attar; “O Partido das Coisas” de Francis Ponge.

7 - Cite um título de livro inesquecível*
“Viagem ao redor do meu quarto” de Xavier de Maistre e “Cabra Vadia” de Nelson Rodrigues

8 - Que livro prometia uma coisa pelo título e, ao ler, você percebeu que era outra coisa?

“A Sangue Frio” de Truman Capote e O Livro dos Peixes de William Gould

9- Que livro você gostaria de ter escrito?

“Austerlitz” de W.G.Sebald ou “José e seus irmãos” de Thomas Mann

10 - Que livro você está lendo agora?

Mímesis de Erich Auerbach


Num dia assim nada pode haver que pese sobre não haver senão suavidade.

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday May 9, 2008

Dentro de um ambiente lotado com livros, numa aparente mixórdia que se espalhava nas três dimensões existentes, até o ponto onde restasse um único vácuo preenchido por ele e uma poltrona, sob um facho de luz. Luz que fortalecia a penumbra do ambiente. Ruud estava manuseando um grande volume com – imagino – três mil páginas de papel bíblia, e parecia muito contrariado.

Eu que estava para fazer uma matéria não achava o fio daquela meada. Resolvi falar um lugar comum: “O que o senhor está lendo?” “Um livro de história natural” foi a sua resposta. Depois de um tempo, ele começou a falar: “A mariposa não se alimenta durante a sua vida, apenas se preocupa com a procriação. Quando ela entra num ambiente e fica pousada imóvel numa parede, sabe que está irremediavelmente perdida. Não conseguirá mais sair de lá; ficará ali até o final dos seus dias, auxiliada por minúsculas garras, presa naquele canto, até que um espanador ou um vento qualquer jogue o seu cadáver numa lata qualquer. São animais belíssimos, com cores e desenhos surpreendentes.”

Enquanto contava essa história percebi que separou o volume encadernado com uma textura peculiar, parecida com linho, de um amarelo sulfúreo, com letras negras gravadas em relevo, com marcas nos lugares onde uso era constante. Apontando para ele disse, contrariado: “Tenho esse dicionário há muitos anos, e hoje, ao procurar uma palavra, quis abri-lo já na letra S. Deveria fazer como sempre, deitá-lo no meu colo, e pegando pequenos maços de páginas atingiria o vocábulo paulatinamente; primeiro C, depois o F, mais adiante o M, até atingir o lugar e daí encontrar minha palavra. Entretanto hoje o peso do volume parecia maior e colocando a lombada sobre as minhas pernas, calculei onde estaria o S e num único golpe abri o volume. Perdi o equilíbrio, o livro ameaçou cair e, instintivamente, tentei segurá-lo pela única folha que me restou e acabou rasgada.”

E me mostrou a folha rasgada onde pude ler uma palavra rapidamente: ‘solitário’. Pensei comigo, bem até que ele acertou, tem boa mira.

Assim continuou falando: “Lendo sobre as mariposas, aprendi que eu também me comporto como elas; e com esse lamentável acidente, percebi mais, que o conhecimento do nosso semelhante deve ser como a leitura de um dicionário; nunca o conheceremos inteiramente é uma tarefa impossível e quando é necessário encontrar um ponto em especial, devemos ir de pouco a pouco; ao queremos acertar imediatamente com base em nossa experiência, eventualmente acertaremos, mas ficamos com a página na mão e com o livro estragado.”

Mencionei que não havia entendido direito o que ele estava falando e pedi que abrisse o dicionário na letra certa, de uma vez por todas.

E ouvi o seguinte: “Tenho um amigo por muitos anos, ambos somos solteiros, conhecemo-nos muito bem, ele também é professor; outro dia ele me disse que encontrou um outro homem, quinze anos mais novo; e – mais - que ele não saia de sua cabeça. Havia ficado muito impressionado e emocionado com sua beleza física, com a conversa envolvente e mais do que tudo, com o interesse que ele demonstrou em conversar, trocar idéias, expandir horizontes. Tanto é que conversaram todo o tempo da festa. Ao terminar a narrativa me perguntou se por tudo isso ele é um homossexual? Depois disso, nunca mais falamos.”

Esqueci a entrevista e perguntei com curiosidade mórbida: “Mas afinal de contas, qual foi a sua resposta, professor.”

“É.”

Quem tem medo dos blogues, Mr. Albee?

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday May 7, 2008

O blog é uma abertura imensa para o diálogo. Diálogo pertinente, impertinente, culto, inculto, sobre coisas sérias ou nem tanto. Mas diálogo. Ainda se cultiva muito a ofensa pessoal, a irreflexão, o elogio puro e simples e imerecido, a vingança na forma de um texto de resposta ou comentário. Porém, acredito tudo isso é um grande e inovador exercício que se aprenderá praticando, lendo e ouvindo o que o outro tem a dizer. Tentar responder com argumentos, moderados pela possibilidade latente de bloqueio puro e simples, é uma questão relevante cujo mecanismo incentiva esse exercício. Aquela resposta como desabafo, como uma reação veterinária e passional ainda continuará, mas acabará perdendo a força. Em suma é inútil. E o argumento tentará convencer até o limite de sua tolerância, que pouco a pouco será expandida. Não que eu espere que ela tenha a dimensão da nebulosa da Águia na constelação da Serpente, mas a simples dimensão humana paulatina ainda que errática já será divina.

É evidente que a possibilidade de se colocar no ar, a um custo acessível qualquer texto, também ajudará a aumentar a confusão de fontes, de dados, e de pseudos. Mas não precisamos dar importância ao que é irrelevante. Uma pesquisa consistente elimina todas as impurezas. Ler e desconfiar são atos siameses.

De outro lado não espero nenhuma modificação no fator humano, não é isso que estou tentando argumentar ou prever. É apenas uma nova possibilidade diante da qual teremos que tomar uma decisão. E é inteiramente nova.

No começo da literatura, chamando de literatura tudo que se relaciona com a palavra; sabíamos da história de um ou outro príncipe, nobre ou assemelhado, contada por algum maluco para que servisse de lição, de paradigma. Hoje temos a possibilidade de saber a história de tudo e de todos, contada por uma série imensamente maior de pessoas, que por sua vez a abordará dos mais diversificados, inesperados e obsessivos ângulos. E esse aspecto é determinante.

Se a imensa maioria das histórias e pontos de vista são repetitivas ou tediosas; - pena, assim é que nós somos vistos da janela de um foguete. Mas quem garimpar e tiver paciência para se aproximar do planeta e escolher, não será frustrado. Terá uma ótima oportunidade de alargar o seu horizonte.

Escrevi sobre tolerância e paciência e não sei se isso adiantará, pois os modernos têm pressa. Mas essa é uma janela, grande, imensa, com mais de cento e vinte duas vidraças emolduradas por chumbo – como existe no Observatório de Greenwich – janela, que ajudará a diminuir a imensa zona de sombra que nos avassala.

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