Num dia assim nada pode haver que pese sobre não haver senão suavidade.
Dentro de um ambiente lotado com livros, numa aparente mixórdia que se espalhava nas três dimensões existentes, até o ponto onde restasse um único vácuo preenchido por ele e uma poltrona, sob um facho de luz. Luz que fortalecia a penumbra do ambiente. Ruud estava manuseando um grande volume com – imagino – três mil páginas de papel bíblia, e parecia muito contrariado.
Eu que estava para fazer uma matéria não achava o fio daquela meada. Resolvi falar um lugar comum: “O que o senhor está lendo?” “Um livro de história natural” foi a sua resposta. Depois de um tempo, ele começou a falar: “A mariposa não se alimenta durante a sua vida, apenas se preocupa com a procriação. Quando ela entra num ambiente e fica pousada imóvel numa parede, sabe que está irremediavelmente perdida. Não conseguirá mais sair de lá; ficará ali até o final dos seus dias, auxiliada por minúsculas garras, presa naquele canto, até que um espanador ou um vento qualquer jogue o seu cadáver numa lata qualquer. São animais belíssimos, com cores e desenhos surpreendentes.”
Enquanto contava essa história percebi que separou o volume encadernado com uma textura peculiar, parecida com linho, de um amarelo sulfúreo, com letras negras gravadas em relevo, com marcas nos lugares onde uso era constante. Apontando para ele disse, contrariado: “Tenho esse dicionário há muitos anos, e hoje, ao procurar uma palavra, quis abri-lo já na letra S. Deveria fazer como sempre, deitá-lo no meu colo, e pegando pequenos maços de páginas atingiria o vocábulo paulatinamente; primeiro C, depois o F, mais adiante o M, até atingir o lugar e daí encontrar minha palavra. Entretanto hoje o peso do volume parecia maior e colocando a lombada sobre as minhas pernas, calculei onde estaria o S e num único golpe abri o volume. Perdi o equilíbrio, o livro ameaçou cair e, instintivamente, tentei segurá-lo pela única folha que me restou e acabou rasgada.”
E me mostrou a folha rasgada onde pude ler uma palavra rapidamente: ‘solitário’. Pensei comigo, bem até que ele acertou, tem boa mira.
Assim continuou falando: “Lendo sobre as mariposas, aprendi que eu também me comporto como elas; e com esse lamentável acidente, percebi mais, que o conhecimento do nosso semelhante deve ser como a leitura de um dicionário; nunca o conheceremos inteiramente é uma tarefa impossível e quando é necessário encontrar um ponto em especial, devemos ir de pouco a pouco; ao queremos acertar imediatamente com base em nossa experiência, eventualmente acertaremos, mas ficamos com a página na mão e com o livro estragado.”
Mencionei que não havia entendido direito o que ele estava falando e pedi que abrisse o dicionário na letra certa, de uma vez por todas.
E ouvi o seguinte: “Tenho um amigo por muitos anos, ambos somos solteiros, conhecemo-nos muito bem, ele também é professor; outro dia ele me disse que encontrou um outro homem, quinze anos mais novo; e – mais - que ele não saia de sua cabeça. Havia ficado muito impressionado e emocionado com sua beleza física, com a conversa envolvente e mais do que tudo, com o interesse que ele demonstrou em conversar, trocar idéias, expandir horizontes. Tanto é que conversaram todo o tempo da festa. Ao terminar a narrativa me perguntou se por tudo isso ele é um homossexual? Depois disso, nunca mais falamos.”
Esqueci a entrevista e perguntei com curiosidade mórbida: “Mas afinal de contas, qual foi a sua resposta, professor.”
“É.”