Um banal pardal
Acompanhou o almoço, sentou-se como um cão e pediu de comer. Apesar de não estar habituado a essa forma de pedido, dei-lhe um pedaço minúsculo de miolo de pão, que foi recolhido; imediatamente o identifiquei como fêmea, por atravessar voando à meia altura no salão de refeições do hotel onde nós estávamos ir até o canto oposto e no chão, local do seu ninho e dividir o pedaço entre os filhos.
Enquanto escrevo, creio necessário defender-me das eventuais acusações de machismo; desculpo-me perante meus iguais, por não conhecer nada dos costumes desses pássaros e em minha mente existencialista, os que alimentam os filhotes são as fêmeas. Também devo mesmo desculpar-me com os próprios pássaros pela minha simplista visão antropomórfica.
Mas fiquei absolutamente feliz, sentia já falta do canto matinal do bem-te-vi que me acompanha em todos os meus dias; não sabia identificar o canto daquele pássaro francês, melodioso é verdade, mas que chamava tanto a minha atenção que não conseguia ler, a música me distraía. Cheguei à grande cidade – Paris - a presença daquele bichinho, me lembrou o canto do outro.
Por nossas bandas, ele não é bem cotado, sempre ouvi relatos pejorativos a respeito do pardejo, conta-se também que na China se promoveu um massacre deles, com varas flexíveis de bambu agitadas em conjunto pelos habitantes; sei também que são comidos tostadinhos no sudoeste de algum continente.
Ele, ali, me lembrou de coisas amigas e próximas. Principalmente porque consegui ver no olhar dele, um olhar pidão. De qualquer forma fiquei também desconfiado desse olhar, tudo poderia ser uma tremenda coincidência; e se tudo fosse obra da minha imaginação?
Fiz o gesto novamente de jogar algo no chão, ele pensou que fosse o pão, mas eu havia jogado uma semente do gergelim que acompanhava o pão. Ele procurou inutilmente, por vários lugares, até desistir e me interrogar novamente. Dei-lhe outro e mais outro.
Até que fui aconselhado a não fazer mais isso, pelos problemas que lhe causaria. De excesso de açúcar, dificuldades na digestão, e do desequilíbrio em sua dieta de frutas e sementes.
A argumentação de que ele não encontrara as sementes que eu tinha disponível, e colocado à disposição, não foi suficiente para serenar os ânimos. Ele foi embora durante essa distração. Imagino que tenha perdido a paciência.
Deixei de lado o amigo e pedi uma salada para comer. Mais do que nunca devo ser vegetariano. As emoções que possuímos são compartilhadas ou transmitidas também pelos animais. Cada espécie deles nos ensina alguma coisa.
A ordem que presumivelmente nos coloca numa posição central deveria ter morrido junto com Lineu. Um livro de História Natural é algo tão fora do comum para os urbanos, como ver uma simples e honesta mula excitada – admirada e cantada por Elias Canetti – ou um mísero passerídeo.
Dividi minhas dúvidas com o amigo. Longe de ficar atônito, surpreso, me disse que em Montmartre, perto da Basílica de ‘Sacré Cœur’, viu um senhor com um saquinho de pão numa mão e na outra um ‘moineau’. Por uma parte de um Euro ele fornecia o pão para que o turista o alimentasse. Se a fração fosse muito pequena, o pedaço de pão seria também proporcionalmente menor. Depois de uma reclamação de um turista, pelo pedaço recebido, não se acanhou de dizer:
- Pelo que você me deu, estou sendo muito generoso.
Parece que os sentimentos que me atravessaram não são originais. Os pardais estão domesticados na França. Talvez também o estejam no Brasil. Vou consultar e descubro o seu nome científico: “Passer domesticus”. E com isso o meu ânimo por ele, se revelou atrasado no tempo e no espaço.
Voltei à minha salada e expliquei à pessoa que sou vegetariano. Esperando que com essa definição tudo estivesse resolvido e poderia ficar em paz.
A resposta da dedicada e sorridente moça anotando o meu pedido foi a seguinte:
- Bem, o senhor é “Végétalien” ou “Végétarien?”
- Como assim?
- ‘Végetalien’ é aquele que não come produtos de origem animal, incluindo o mel; e ‘Végétarien’ é aquele que não come carne de animais de qualquer espécie, contudo consome produtos derivados.
- Ah, sim. Eu compreendi, quero apenas uma salada com folhas verdes.
- Tenho essa aqui: com cebolas, tomates, funcho e repolho.
Eu que pensava que as palavras facilitassem tudo. Acabei por me acomodar com a minha falta de folhas verdes naquele dia. Dei uma entrada errada numa conversa, aprendi a diferença entre os vegetarianos, e não consegui comer a salada que eu queria.




