Saint Michel de Montaigne
“Qualquer ato nosso revela o que somos.”
Michel Eyquem, senhor de Montaigne.
“Do que é feito o vinho?” Foi a pergunta de um menino a um Diniz, o do Porto. A resposta não poderia ser mais objetiva e simples. “De uva.” Não era bem isso que ele queria saber. Era o impenetrável segredo da transformação do sabor doce da uva para o aquele outro indescritível. O interesse, talvez, tenha surgido pela admiração à valente adesão do ibérico ao líquido. Objeto de muita louvação. Algo que era formalmente proibido em sua família, onde beber era coisa de alcoólatra.
Aquele menino passou a maior parte de sua vida abstêmio. Até que um dia encontrou algumas palavras. Uma ordenada diante da outra, formando uma frase com esta reflexão: É o mesmo bêbado, tanto aquele que bebe quanto o que se abstém.
A partir de então passou a pensar na questão de uma outra forma. O embaraço e o deslocamento aumentaram quando pedia ao garçom para trocar os cálices. O de água para ele e o de vinho para a moça.
Como adulto passou, além de ler, a beber seu vinho. Nunca passou do aparecido limite que se impôs. Sutilmente, sem a sua interferência aparente. Talvez ele seja ainda uma subespécie do bêbado daquele pensamento. Bebe com medo da quantidade. E com ela controlada, exige do que bebe a embriaguez dos sentidos: o maior sabor. Daí a vontade de conhecer Bordéus.
Fez um roteiro olhando para um mapa. Escolheu Paris, por ser um destino obrigatório. Não se acomodou bem à cidade. A escassez de espaços privados, de pessoas disponíveis, de táxis, aliadas à compreensão deficiente do idioma, formavam a moldura de uma tela, ainda a ser pintada. A abundância dos preços, do tráfego, do barulho, das pessoas, das manifestações, das greves, das máquinas fotográficas e de irritação, completou a obra.
Estava perto de seus amigos escritores. Da memória deles. Porém, impedimentos do tempo, da topografia, do espaço impediram-no de visitar a casa do profícuo Balzac, do introspectivo Marcel Proust e do preciso Gustave Flaubert. Talvez escrevesse melhor por conhecer a mesa de um, a cortiça do quarto do outro ou a casa natal daquele terceiro. Ou ainda por respirar o mesmo ar. A casa de Honoré (47, rue Raynouard) estava sufocada por outras tantas. Não conseguiu entrar. Restava passear pelas mesmas ruas. O exilado Bernardo Soares o ajudou na tarefa: “Não sei quantos terão contemplado, com o olhar que merece, uma rua deserta com gente nela. … Uma rua deserta não é uma rua onde não passa ninguém, mas uma rua onde os que passam, passam nela como se fosse deserta.”
Ao sair de Paris, pensou em visitar Rouen e Gustave. Chegou um dia antes do previsto, não encontrou um lugar para ficar, a não ser a uns tantos quilômetros dali: Bezancourt. Tudo se transformava numa corrida de obstáculos inesperada e inevitável.
Partiu para Bordéus. Uma cidade tão grande quanto a Capital. Imaginou uma Burdígala, uma Aquitânia, encontrou uma metrópole. Acidentada. Agitada pelos estudantes, pelos bares, cafés, trens de superfície. Só queria conhecer os vinhedos e com eles o nascer do vinho.
Ainda não era ali. Ali aprenderia a beber exageradamente o vinho e aproveitar as delícias da vida moderna. Mas um verso o orientava de Francisco Quevedo: “humilde soledad verde y sonora”.
A paz veio com a paisagem, a vinha e uma nova lembrança da memória. A amizade inseparável de Montaigne com Étienne de La Boétie. Visitar a casa de um e do outro. Este legou a sua biblioteca para o outro. Lembrou-se que ele havia sido prefeito da cidade. Portanto não poderia estar muito longe dali. Encontrou a vila de Saint Michel de Montaigne, encontrou horários disponíveis, encontrou pessoas disponíveis.
Fez o trajeto com ansiedade e alegria. Foi recebido por uma alameda de cedros, dispostos simetricamente, depois perceberia que era a maneira mais comum na região de dar boas vindas aos visitantes e de fato, foi assim que ele se sentiu. Encontrou duas moças e trataram de conversar numa língua universal, mista de substantivos franceses, verbos ingleses ambos regidos pela sintaxe das mãos e seus sinais. Dali seguiu pelas vinhas até chegar ao coração do castelo.
É um espaço retangular. Entrou: à esquerda existe a residência dos senhores, queimada e reconstruída, com majestosa imponência dada pela seqüência de suas torres cônicas; à frente e à direita estão os estábulos. Deixou atrás de si o muro e a entrada principal. No ângulo entre o muro e os estábulos, existe uma outra entrada, isolada. Essa é a entrada para a torre do Montaigne. Ela conseguiu ser completamente preservada coberta por um telhado oitavado. Com uma capela, o dormitório e biblioteca.
Sentou num estrado de madeira, semi-destruído, que deveria ter servido para alguma instalação ou audição, e observou as onze árvores existentes diante das estrebarias que faziam uma proteção diante do castelo: um castanhedo (”marronniers”). Em seus troncos ele pode ver uma espécie de escara, com a mesma feição daquelas que cobrem os cetáceos, o que lhes dá força e dignidade de vencedoras; de soldados. Um gato cinzento, com os olhos azuis e desconfiados, passeia saindo do estábulo e passando ao lado do observador. Pisca intermitentemente e agita sua cauda. Parece perturbado com a intromissão.
Entrando naquela edícula se encontra todas as respostas para a fantasia material do homem; como viveu, como era sua cama, sua roupa, seus móveis, o arranjo e a disposição. Sabe-se de suas dores físicas decorrentes de cálculos renais. Dores que o acamavam por longos períodos. Nos quais não poderia presenciar a santa missa. Pediu que se fizessem aberturas nos cantos das paredes de seu quarto. De forma que pudesse, ao menos, ouvir a palavra do seu Senhor repetida pelo sacerdote. Soube também que ele andava à cavalo por longas distâncias, para refletir. Para conhecer-se. Para encontrar seu amigo, que residia na distante e ainda medieval Sarlat-La-Canéda.
A vida no castelo corria e deu tempo ao seu senhor para andar, pensar e escrever. Ele deixou algumas marcas nas madeiras que garantiam a solidez da construção, frases em latim e em grego. Para que não as esquecesse no seu uso diário, como um ensinamento?
A mesma vida ainda corre; até hoje a terra benfazeja produz as eternas uvas do vinho vendido no local. Convidado para ver a técnica de vinificação mantida intacta desde o século dezessete, o convidado prontamente recusou.
Voltou ao pátio e ficou pensativo em companhia do gato, que reviu com o mesmo olhar em outra janela, outro passeio e num último jardim, antes da volta.
Como narrador, peço desculpas pela inevitável e falha descrição do local e pelas agressões à História Natural; apropriado seria ler algumas obras sobre botânica, arquitetura, montaria, filosofia, arte e ética. Não tive o tempo de Bouvard e Pécuchet.
