Saint Emilion

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday July 30, 2008

Um lugar que desnorteia. Não se espera uma vila medieval, com um formato de pêra – como as peças de Satie – gruta de eremita, catacumbas, igreja monolítica, ruas estreitas, um interior moderno e equipamentos de última geração facilitando a vida de quem está vivo nesse momento. Vive-se ao mesmo tempo duas eras; a transição. Transição colorida, desde o ocre da uva sauternes, passando pelo cinza nítido, gótico e cinzelado dos campanários, e o indefinido e esmaecido, já comido pelo verde das ruínas do mundo galo romano. Restam muitas paredes, encimadas pela flâmula tricolor.

Um ciclista corado, esbaforido, com reserva de gordura para chegar até Perigueux, traja um agasalho preto e vermelho em tudo muito justo. Parece fazer questão de mostrar sua energia e valentia para todos; uma filmadora de última geração pendurada no pescoço suado e possante.  Mas algo revela que ele não é um esportista nato, é sim, um contador. Conta calorias ingeridas e tenta gastá-las, zerando uma conta impossível; quanto mais gasta mais fome têm. O seu cheque especial de calorias está sempre estourado.

É denunciado pelo seu animal de estimação. Tem piedade do seu cão. Poupa-o. Emprega nele toda a clemência que pede para si. Leva no bagageiro da sua bicicleta um cãozinho bege, sentado, olhando o mundo à sua volta, com olhar curioso e satisfeito por estar ao lado do dono. Não está com a língua de fora. Aspira e se delicia com o ar.

Cada lugar daqui tem o seu toque de horas. Diferente um do outro. O som do sino daqui é cavo sem reverberação e convoca para um coral que acontecerá mais tarde. O sol ilumina a água do rio não a tornando dourada, e sim verde. Mais amiga e evocativa. Também o barro da sua cor natural e foi invadido pelo verde.

Na praça principal defronte a Igreja e o Hotel, um pequeno ‘bistrot’. Estou em meio ao povo alemão. Eles andam sempre juntos, gabam-se de entender perfeitamente o francês, apesar de não conseguir pronunciá-lo. Atendendo ao sino, uma mesa repleta de espanhóis - educados, contidos - pedem apontando no cardápio uma quantidade pantagruélica de comida; a sua forma de homenagear a literatura francesa. Esqueço-me num olhar perdido.

O banheiro público é limpo e cobra trinta centavos para o necessitado e nada se você é despossuído, mas é obrigatória a volta de cento e oitenta graus e que se alivie protegido apenas por duas abas.

É um sinal do afeto dos franceses.

Um senhor pára na minha frente, com uma garrafa de ‘Château Ausone’ que ele carrega cuidadoso como um bebê, o rosto vermelho sob um chapéu todo grande e amarrotado denunciando seus cabelos escorridos e loiros, de bermuda. Furtivo, desconfiado. Olha para o lugar enquanto sua mão tateia, passeia pela garrafa como um cego imaginário lendo, não se resolve, está numa intensa atividade mental. Muitas opções. Acaba por entrar no café, conversar longamente e acaba por sentar-se. Pede seu almoço.

Resolvo entrar no hotel para almoçar.

Escolho pelo nome. Plaisance.

De fato, é um lugar imponente, com uma decoração clássica. Tonalidades de creme e carmim. Não quero nada em especial. Aproveitar o momento. Peço que o chefe faça a escolha.

Aprecio o lugar, os sabores e principalmente o cenário. Estou participando de uma missa solene. Muitos serviçais sacerdotes, poucos clientes ou fiéis. Uma divisão rígida das funções. Os movimentos de todos são calculados, as palavras são todas decoradas.

Tento descrever.

O sacerdote apresenta os pratos, com uma descrição breve da origem, do sabor e da intenção; assim como do molho, tudo adjetivado e com muitos advérbios, e é seguido por um auxiliar que em seguida o coloca à mesa; agora o escanção apresenta a uva, a safra e a vinícola, servindo o vinho indicado.

Abocanhado o primeiro pedaço, volta num passe de mágica, o sacerdote para saber da sua opinião. Se você se percebeu o sabor, se ele está inteiro dentro de você.

No primeiro prato ainda se é capaz de dar uma opinião, não isenta, mas se sabe se é verdade ou mentira o que sua boca denunciou. A partir do terceiro, prato e vinho, ninguém mais é são de consciência o suficiente pra dizer algo sensato.

Durante todo sacrifício ficam ao lado os efebos. Uma lembrança dos tempos clássicos. Mancebos assexuados, com roupa preta, colarinhos de padre, são magros, pequenos atletas de ginástica olímpica, trocando talheres, servindo água, buscando os pães, atentos ao menor sinal de satisfação ou necessidade. Terminada a refeição, trazem, descrevem e servem os queijos próprios; antegozando a sobremesa. A fala é titubeante, não aprendida integralmente. Ao serem interrogados por qualquer motivo, eles saem do ceráceo, passando pelo o rubro até o purpúreo, olhando desesperada e aflitamente ao sacerdote auxiliar num pedido de socorro.

Observo um casal de americanos, com seus dois filhos, em trajes esportivos, falando alto; um casal impassível de orientais, impossível de se perceber de onde, provavelmente do Japão, pelas máquinas fotográficas e pelo pedido da foto de cada prato; uma dupla francesa de calça e camisa, homens extremamente encabulados, barbas por fazer, rindo e olhando indiscretamente tudo, talvez fosse um riso nervoso; e uma trinca assim composta: Um casal de roupa muito nova, passada e empertigada, acompanhado de uma intérprete jovem, vestida como executiva, olhando muito para os lados. A mulher com um penteado muito alto e plastificado que tornaram seus cabelos louros como um algodão doce, foi muito bonita, hoje tem um cuidado exagerado de parar o tempo, plastificando o rosto e contendo a gravidade. O marido com uma gravata fina, tipo cadarço, como laço uma cabeça de touro e seus cornos, calça de brim, e um sapato de couro cru, tendo na pala uma rosa exagerada, em preocupante relevo. Tentei descobrir a nacionalidade ouvindo o som das palavras. Não consegui saber. Sabia apenas que eram europeus dos Bálcãs. Não resisti e perguntei ao auxiliar se eram franceses, disse-me que não, são russos, explicou condescendentemente.

Saímos simultaneamente o casal olhando para cima, enquanto a moça trocou um olhar vago comigo.

Termino minha expedição, visito a Igreja, aprecio o espaço iluminado tenuemente pelos vitrais: vazio. Aguardaria a apresentação da música do coral, mas não consegui; minha atenção foi chamada para um nicho iluminado. Poderia comprar uma história daquela igreja mediante pagamento de uma moeda. Não tinha a importância numa única, apenas trocados. Juntei quatro delas para completar o total indicado. Fiz a operação. … Nada. … Coloquei outras mais, e… .Nada, novamente. Li, no instante seguinte, o aviso que dizia. “Coloque somente uma moeda.  Equipamento programado”.

 

May return no more

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday July 28, 2008

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

And, as the Cock crew, those who stood before

The Tavern shouted - “Open then the Door.

You know how little while we have to stay,

And, once departed, may return no more.”

 

Omar Khayyám, in The Rubaiayát, by Edward FitzGeral

Blade Runner

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday July 23, 2008

 

 

Alô, alô; daltônicos. Vou sair com luvas vermelhas. Optei ficar ou lembrar Sean “Rachael” Young em Blade Runner.  Tenho uma balada hoje. Devo sair depressa, não tenho tempo para mais nada. Gosto de fazer tudo rapidamente.

 Sou muito atrevida. Tenho vontade de dominar a situação. Não costumo esperar por nada. Avanço. Disfarço o tremendo medo que sinto, correndo, avançando, como se estivesse sendo empurrada por algo que não sei bem o que é, e para uma direção desconhecida. Antes de saber, ataco, termino, aprofundo, salto e sobrevivo dando a primeira pancada. Servindo ao meu vetor.

E agindo assim é justo concluir: os homens estão muito sensíveis. Como a mim tudo os assusta. Deve ser uma coisa do tempo, ou dos tempos. Mas eu vou em frente o ataque é a melhor defesa. Eles – os meus pelo menos – ficam tristes e saudosos. E a angústia me assalta, como se a morte estivesse muito próxima.

Tudo hoje é signo. Tudo é aparência. Estamos perdendo a capacidade de conversar. Cada um de nós conversa só, mesmo acompanhado de outras pessoas; as conversas são cortinas de água, verticais e paralelas, somente respingos se tocam.

Ouvi uma história sobre um carinha que solucionava questões de matemática antes mesmo que a calculadora o pudesse fazer. Rápido. Abissal. Abismal. Batia os olhos e o resultado, saltava como pipoca no micro-ondas. Como ele teve o infortúnio de nascer na Índia, foi levado para a matriz de então; lá depois de muito tempo de observação, foi liquidado. Nenhum de nós está – aparentemente - preparado para uma afronta dessa, muito menos um mistério desses.

Conversei com um mestre de xadrez. Aprendi que o talento natural para o jogo está naquele que vê o tabuleiro como um todo, e conforme a posição das peças sabe de imediato quem vai ganhar a partida, se tudo continuar naquela direção.

Assim procuro agir. Ouço bastante. Tento ver a paisagem completa, no menor tempo possível. E a nossa paisagem está caminhando para um mundo como o das formigas, especializado, lógico, inexorável como a globalização.

Percebo também que nós temos uma recordação viva do período anterior ao nascimento. A forma da orelha.  O lóbulo figura a cabeça. O contorno e as quinas do ouvido são representações da espinha da nossa posição fetal. Sei como fui enquanto feto. E sei disso do meu homem também, se nasceu mirradinho ou não. Escolho pelo sinal. Pelos feromônios?

O lugar das relações monogâmicas é o museu, ou laboratório de análise psicológica, talvez o apropriado  é um centro de estudos de paleontologia. Vivemos num período de mudança profunda. Caminhamos novamente para o matriarcado. Nessas rotineiras e constantes voltas que o universo dá.

Conversei com um entomologista, ouvi a sua admiração pelas formigas, pelas especializações que escolhem, pelo arranjo das cidades, mas fiquei impressionada com o fato do espécime macho da sociedade nascer apenas para fecundar a rainha, numa determinada época e depois morrer. Quando acordei a formiga em mim ainda estava lá. Eu sabia da história, mas ouvi-la agora prestes a sair, trouxe-me tudo de volta com muita força. Algo como gostar de um sapato de couro de crocodilo, não sabendo o porquê, colocar uma roupa de couro negra.

Sim, parece que é isso. Somos as mais fortes, temos mais senso prático, abominamos a violência, a não ser e verbal e eventual. E por isso mesmo. Depois do prazer mútuo, o macho vai deslizando suavemente rumo ao rio do esquecimento. Não o matamos mais, nem carece. Ele se suicida como presença na vida comum. É assim.

Esses meus pensamentos são, talvez, originais. Poderão causar a mesma repulsa que causa uma demonstração de mau humor. Uma resposta malcriada. Uma rejeição. Como algo feio, pernóstico ou doidivanas. Uma alucinação. Mas foi com esses pensamentos tirei do doutor “Hearsay” que pude concluir como se fosse uma jogadora talentosa; e, mais com esse pensamento pude entender a beleza dessa pequena maravilhosa, que se convencionou chamar de conto.

“Quando acordou,
o dinossauro ainda estava lá”.

Augusto Monterroso

 

Além dos explícitos, dou meus créditos: A fênix apoplética,

Alfred Schnittke,Bernard WerberCristina Sampaio, DaniCast, ElfenQueen, François RabelaisRenata Miloni, Thorstein Klapsch

 

Mas eu cada vez me despreendo mais*.

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Friday July 18, 2008

 

 

“Senti-me, inquieto já. De repente, o silêncio deixara de respirar.

Súbito, de aço, um dia infinito estilhaçou-se.  Agachei-me, animal, sobre a mesa, com as mãos garras inúteis sobre a tábua lisa. Uma luz sem alma entrara nos recantos e nas almas, e um som de montanha próxima desabara do alto, rasgando num grito sedas do abismo. Meu coração parou. Bateu-me a garganta. A minha consciência viu só um borrão de tinta num papel”.

Fernando Pessoa

“Mas no momento em que minha imaginação chega ao êxtase com suas criações mais fantásticas, ocorre uma pausa, um divino intervalo, a meio caminho entre o nada e a ressurgência da vida…

É o silêncio único, impossível de se encontrar, no apogeu de sua história, no topo da sua fertilidade, de onde nascerá o ruído do mundo”.

Danilo Kis

 

 

* Carta de Clarice Lispector de 10,18,1956

Aflição

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Thursday July 17, 2008

 

“Por estranho que pareça, gosto das criaturas da mesma espécie que eu: gosto de gente, gosto das pessoas”.

 

Heinrich Böll in Pontos de Vista de um Palhaço, através de Paulo Soethe

“Pois eu sabia que, para sobreviver e prosperar, era importante não sentir nada por ninguém nem por coisa alguma, e eu sabia que queria sobreviver e prosperar”.

 

Richard Flanagan in O livro dos peixes de William Gould Romance em Doze Peixes, através de Paulo Henriques Britto

 

Dobras do tempo

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday July 11, 2008

 

 

 

Existe coisa mais intragável que festa de criança? Não conheço. Estou numa delas. Escondi-me ficando num canto. A casa, parece, puxa uma conversa comigo; sentamos nós três, eu, ela e o tempo. Esse último se apresenta como um tecido com várias dobras. E estas não permitem uma leitura completa.

 

Saí da estrada para encontrá-la; situa-se numa clareira de um bosque, construída com muitos, harmoniosos e recortados detalhes em nogueira formando um brusco contraste com o branco da alvenaria. Com telhados altos, mansardas, terraços com balcões, num estilo alpino.

 

Entramos numa sala de estar ampla e alta, o forro e o piso com tábuas agora de mogno, natural e sonoro, as colunas que separam os ambientes estão adornadas com gravuras, mostrando cada uma um casal. Os pisos e as paredes estão forrados com tapetes, de lã, com motivos variados, geométricos, abstratos, nenhuma forma humana. A decoração ficou acolhedora, aconchegante, despertando em mim uma emoção, uma reminiscência, uma vontade de lembrar.

 

Aos poucos fui chamado pelo tempo para um outro lugar. Como um toque suave e amistoso no ombro. Talvez a lembrança da antiga história contada pela minha avó, contando que éramos descendentes dos nórdicos – soube depois que houve uma invasão sueca nas terras alemãs – que saqueavam de sobejo a região. “Mas não, não; não eram bandidos comuns, eram ‘bons ladrões’, roubavam para si o necessário e distribuíam o excesso aos pobres”.

 

E dessa história estabeleci a conexão entre o lugar onde ela contava com este onde eu estava. Eram muito parecidos. Sim poderia ser isso.  As madeiras como lembranças da floresta sempre lembrada por ela, que abrigou meus antepassados por muitos anos, a nogueira, o mogno e o bosque de pinheiros restaram como um símbolo daquela era, que agora piscava sobre mim. Assim como a lã daqueles tapetes. Era o memento das ovelhas com sua pele de astracã atuando como coadjuvantes. Madeira e lã são lembranças de um tempo que não conheci, mas ficou em mim o mimo acolhedor de um lugar, escondido num canto que floresce agora com vigor e êxtase.  Esse mesmo que precisava de reparos para torná-lo mais claro e luminoso.  Foi dele que recebi a sensação de que pertencera ao rol dos meus sonhos também. Eu sabia de antemão quem o idealizou, conhecia a sua história e ela se entrelaçava com a minha.

Dentro da minha floresta e junto aos meus animais; soube então que havia sido um ovelheiro, guardando e cuidando para que não se perdessem ou fossem roubados; a prova ficou gravada como meu sobrenome. Estava já solidamente instalado na terra.

E fazia o que faço agora nas horas vagas, teço com o fio de lã o tapete com as imagens das minhas lembranças.

 

Detive-me para olhar as gravuras consegui ler: Macedônia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Croácia, Montenegro, Eslovênia. A descrição escrita no alfabeto latino indicava que provieram da Bósnia ou da Croácia, já que as demais regiões escreviam em cirílico. Casais em trajes típicos de cada país posando antes do início da dança.

 

Segui para a sala de refeições e encontrei como elemento decorativo duas gravatas com nós duplos presas à parede, com motivos quadriculados da mesma cor, em tons diferentes, e a minha dúvida se desfez. Estava numa casa de croatas.

 

Ao mesmo tempo ouvi uma conversa contando que o pai do dono da casa era iugoslavo. E assim o meu fio encontrou a sua agulha. E alguém de pais croatas, nascido na Bósnia, apareceu para contar uma história que também foi minha: Ivo Andric.

 

Ano Intranqüilo é o nome dela e narra a saga do patrão Ievrem que viveu numa cidade provincial da Bósnia, num tempo impreciso. Próspero agiota que dominava o comércio local, com poucas palavras, muitas informações, dinheiro e inteligência. Perdeu o movimento de metade de seu corpo e do andar superior de sua casa comandava seus múltiplos interesses, sentado sobre seu tapete. Entre os serviçais encontrou Gága. Uma ciganinha deixada para trás num êxodo provocado pela fome; recolhida, cuidada e treinada por sua mulher e por sua filha.

 

Encontrou nela a beleza. Desconhecida para ele até então. Passou a observar a mudança das cores da natureza, saber o nome dos pássaros, plantas e flores. Sabia que tudo se move e esvoaça para longe. Sabia também que tudo era passageiro. E apesar disso tudo, nutriu esperanças - jamais ditas - de retê-la consigo.

Esperanças desfeitas pela requisição do exército imperial, na pessoa do bei, de sua Gága para casamento. Pedido irrecusável, irreversível e imediato. Atrasou o quanto pode, o quanto permitia a sua reputação. Havia aprendido a lição na teoria e na prática; a entregou.

 

Esclareço: isso tudo se passou comigo, entretanto sem o ingrediente da sabedoria. Não entreguei a minha Gága, tentei prendê-la, sem perguntar da sua vontade. E ela fugiu. Aprendi sem a reflexão, com a experiência; e é esse o signo dos tempos atuais?

 

Restam pontos a esclarecer nessas dobras do tempo. Quanto mais fino o tecido mais ilegível a dobra. Saio da festa, vou a um barbeiro. Entrei no primeiro que encontro. Encontrei Pedro das Alagoas. Pergunto se é de Palmeira, lembrando de Graciliano, diz-me ser natural de Pão de Açúcar. Pergunto se tem notícias de Corisco. “Tenho” – diz – “mataram o filho dele a mando do Cel. Maria”. “Coisa de mulher”. Depois de tanto tempo, parece que nada mudou. Parece. Olho ao meu redor, um cafarnaum de objetos, dentre os quais uma fotografia com casal idoso sentado num banco, olhando os que passam. Reconheci a Aquitânia pelas suas torres oitavadas e pela flâmula com seu leão rompante. Perguntei de onde veio. “Ah! Um rapaz de Piracicaba passou vendendo. Bonito, né?”

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobretudo

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Monday July 7, 2008

Seu nome: Ecídio Jorge Butina; tem cinqüenta anos, trabalha em São Paulo há trinta anos fazendo exatos e mesmos negócios. Talvez a sua denominação mais eficaz seja a de um burocrata mercantil. Não encontra neles nada além do meio de sobrevivência. Faz os seus como se escrevesse uma carta, entretanto com a caligrafia mais elegante possível.

Desenha-os de antemão, como se quisesse que aqueles dessem algum tipo de alegria, beleza ou serenidade para aqueles que participassem. Passava ao largo do mundo empresarial.

Teve um amigo de escola que ocupou um cargo muito importante. Era agora, como se diz uma pessoa graúda. Como naquele momento atravessava dificuldades foi pedir ajuda. Quem sabe poderia melhorar o seu desempenho com alguns pedidos novos. Não queria claro, nada demais, nada de menos. Ou talvez quisesse, não é possível saber nesse momento, ou em outro qualquer, face à impossibilidade de se penetrar na alma alheia. O mais apropriado para descrever seu desejo é relatar a sua frase ensaiada: “Quando tiver um pedido lembre do meu nome”.

Mentalizando esse percurso iniciou sua busca.

- Sim, Butina, senhorita. Nem Bolina, nem Botina.

Foi recebido no gabinete privativo e convidado para participar do café da manhã. Aceitou prontamente, mesmo já tendo tomado o seu, jamais cometeria essa indelicadeza.

Tiveram uma conversa amena, compartilhou das suas agruras num determinado momento; ganhou um gesto afetuoso de mão do amigo, que pegou num telefone e pediu uma ligação, para um publicitário famoso. Recebeu o aviso da secretária, colocou o aparelho em viva voz, após as preliminares de praxe, soltou o verbo:

- Estou aqui com o Ecídio meu amigo de escola, que faliu. Quebrou. Precisa de sua ajuda. Veja o que você pode fazer por ele.

Teve vontade de parar a conversa para explicar melhor, não, não era bem isso; teve vontade de enfiar a cabeça no chão. Teve vontade imediata de sair. Encerrou delicadamente a conversa. Despediu-se e saiu; surpreso com tal poder de síntese.

Foi ouvir o que o destino lhe reservara. Marcou a entrevista com o amigo do amigo. Ouviu um plano mirabolante que envolvia o investimento em propaganda muito acima de qualquer número razoável que lhe poderia passar pela cabeça; esse lhe pareceu o esboço da rota da sua ruína.

Ao ganhar a rua tomou a decisão de se trajar de forma diferente. Aboliu o uso da gravata. Foi a sua carta de alforria. Depois de anos servindo a ela, abdicou por inútil.

Recebeu, dias depois, um pedido do exterior. Dos Estados Unidos da América. Dessa vez de um novo cliente, indicado por um outro costumeiro e há mais de trinta anos. Esse novo cliente tem todo interesse em surfar a onda responsável no Brasil. E fez uma gigantesca proposta de compra. Valores fabulosos.

Marcou compromissos com pessoas do setor. Todas suas conhecidas. Ele sempre foi designado como alguém com um perfil suave, não destacado da maioria. Era essa a sua reputação. Estava muito em moda dizer: “Low Profile”

Notou os olhares desconfiados em suas entrevistas. Será o traje? Será a postura? Será que o pedido envolvia mesmo aqueles valores? Não seria apenas um sonho, um mito daquele representante?

Não. Não. Agora era a vez do Butina. Sentia-se bem. Ele estava agasalhado contra o pior inverno. Havia chegado à sua hora.

Percebeu na última visita daquele dia um interesse inusual daquele fabricante. O olhar era desconfiado também. Mas fez questão de mandar seu valete acompanhá-lo até o estacionamento, para abrir-lhe a porta do auto. Tudo indicava que ele aceitaria o pedido, no preço e nas condições indicadas. Chegou até o seu carro, um Honda “Civic” Preto, aprendera com seu pai que carro deve ser discreto, ano 90.

Foi almoçar feliz e voltou ao escritório, mandou um email para o fabricante, agradecendo a atenção, o tempo e desejando abrir caminho para novos e eventuais pedidos.

Quase sem surpresa recebeu uma mensagem do servidor que aquele endereço havia sido bloqueado e que a mensagem foi excluída sem leitura. Imediatamente veio-lhe o desejo de reler Gogol.

“Paris é claramente Paris”.

scriptu em Penso? by Djabal Tuesday July 1, 2008

Lembrando dessa afirmação de Clarice, entre Montparnasse e Marais. Sentado. Olhando. Conversando com Rajen, possuidor de um sorriso luminoso, abundante e perfeito, míope, alegre, bilíngüe e falante; nascido nas Ilhas Maurício, descoberta pelos portugueses e palco de batalhas entre franceses e ingleses pela sua posse; País do tamanho de Ilha Bela; é através dele que ouço a descrição dessa cena, ocorrida por ocasião de sua chegada, sentados no mesmo lugar de antes.

“Um casal idoso, ela tem menos idade que ele, ou aparenta ter. Ele está curvado, a espinha não está mais ereta, os braços estão paralelos e juntos do corpo; o antebraço e a mão formam um ângulo de noventa graus. A mão dele está fechada, apontando à frente. Anda colado com a mulher. A cabeça está olhando para baixo, irremediavelmente. O trajeto do casal colide com outra mulher, amiga da esposa. Param os três, as duas trocam beijos e conversam, conversam sobre assuntos ignorados, pela distância. Mas observo que o homem esforça-se para levantar a cabeça em direção à recém chegada e põe adiante os dedos da mão, esboçando um comprimento e, talvez, esperando o beijo. Olha fixamente para a visitante, e não consegue ser visto. Os seus dedos ficam distendidos por um longo tempo, numa oferta ignorada e se recolhem após ter perdido suas últimas esperanças. Nota-se em seu olhar algo estranho, jovial.

Ao seu lado aproxima-se um outro casal jovem, saído de alguma estação próxima do metrô, creio estrangeiro, olhando para os lados, até encontrar um painel com o mapa do local. Isso é muito comum, por aqui. Não há pessoas disponíveis. Tudo está escrito. Enfrentam a batalha do idioma, fala inglesa – sim são estrangeiros – e conversam sobre o local do hotel, após tê-lo encontrado, aqui próximo, se é ou não adequado. Afinal de contas, parece que o local é despovoado, são poucos os que passam. Eles não têm segurança de ter feito uma boa escolha. Retiram-se, provavelmente, em busca de um outro, em local mais povoado.”

Somos atendidos depois de algum tempo por um garçom, peço e ofereço um cálice de vinho, observo o rótulo, para anotar seu nome: Domaine de La Solitude, 2004, Passac-Leognan.

Continua Rajen.

“Meu olhar vagueia pela rua dividida em duas por uma ilha arborizada, em um dos lados encontro uma moça loira com cabelos grossos, com olhos claros, rosto oval. Nova. Muito vestida. Com uma quantidade de roupas próprias para inverno; entretanto o dia está fresco, primaveril, sem vento. Tem uma pele um pouco escurecida. Um bronzeado sujo. Está sentada e brinca com as flores do canteiro. Olha para o outro lado, depois à direita e à esquerda, parece estar esperando alguém. E ele chega. Alto, com os cabelos longos, rastafári, com tranças grossas, com sapatos sendo usados como chinelos, dando uma instabilidade no andar, um grande cobertor lhe cobre o corpo, seu anoraque pós-moderno; acompanha o tipo seu cão, sem raça definida, com os ossos à mostra. Ele atravessa a rua dirigindo-se ao encontro daquela moça. Os dois trocam um beijo apaixonado, jovem e público. Caminham agarradinhos. No sentido oposto aos outros dois.

Passa uma africana com sua roupa orgulhosa, de um colorido intenso e variado, com excesso de panos, cobrindo o seu largo corpo, com a cabeça vestida por um ‘foulard’ e falando ruidosamente num celular; percebo um ar de reprovação no tom de sua fala, e não consigo distinguir o conteúdo, nem a origem do seu acento.

Sai da confeitaria uma hare krishna com sua túnica laranja, cabelos quase inteiramente raspado, magro e apressado, abocanhando um doce do tamanho da sua palma e levando sob os braços uma baguete. Noto o cíngulo atravessado em sua cintura e nele está pendurada a escudela.”

Assim termina a descrição da sua Paris, ao fim agradece a oferta, e precisa ir. Está de viagem marcada para sua terra natal. É casado com uma francesa e precisa colocar os presentes para seus familiares na bagagem dela. Explica que a alfândega mauriciana é muito rígida com os locais e vasculha inteiramente a bagagem em busca de tributos, mas são respeitosos com os franceses. Pisca o olho, matreiro.

Abraçamo-nos fraternalmente, continuo pensando nas histórias que ele me contou, abro o livro que carrego e encontro:

“Nicópolis. Perto desta cidade sobre o Danúbio, hoje reduzida a aldeia, o sultão Bajazé o Raio, aniquilou, em 1396, o exército cristão comandado pelo rei Sigismundo da Hungria; os cronistas da época e o testemunho do aventureiro Schiltberger, o Marco Pólo bávaro, sublinham sobretudo a displicente elegância com que a cavalaria francesa, indiferente aos planos estratégicos, se atirou de ponta-cabeça e em formação cerrada, na derrota.”

Creio não ser desnecessário esclarecer o nome do autor: Cláudio Magris.

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