“Paris é claramente Paris”.
Lembrando dessa afirmação de Clarice, entre Montparnasse e Marais. Sentado. Olhando. Conversando com Rajen, possuidor de um sorriso luminoso, abundante e perfeito, míope, alegre, bilíngüe e falante; nascido nas Ilhas Maurício, descoberta pelos portugueses e palco de batalhas entre franceses e ingleses pela sua posse; País do tamanho de Ilha Bela; é através dele que ouço a descrição dessa cena, ocorrida por ocasião de sua chegada, sentados no mesmo lugar de antes.
“Um casal idoso, ela tem menos idade que ele, ou aparenta ter. Ele está curvado, a espinha não está mais ereta, os braços estão paralelos e juntos do corpo; o antebraço e a mão formam um ângulo de noventa graus. A mão dele está fechada, apontando à frente. Anda colado com a mulher. A cabeça está olhando para baixo, irremediavelmente. O trajeto do casal colide com outra mulher, amiga da esposa. Param os três, as duas trocam beijos e conversam, conversam sobre assuntos ignorados, pela distância. Mas observo que o homem esforça-se para levantar a cabeça em direção à recém chegada e põe adiante os dedos da mão, esboçando um comprimento e, talvez, esperando o beijo. Olha fixamente para a visitante, e não consegue ser visto. Os seus dedos ficam distendidos por um longo tempo, numa oferta ignorada e se recolhem após ter perdido suas últimas esperanças. Nota-se em seu olhar algo estranho, jovial.
Ao seu lado aproxima-se um outro casal jovem, saído de alguma estação próxima do metrô, creio estrangeiro, olhando para os lados, até encontrar um painel com o mapa do local. Isso é muito comum, por aqui. Não há pessoas disponíveis. Tudo está escrito. Enfrentam a batalha do idioma, fala inglesa – sim são estrangeiros – e conversam sobre o local do hotel, após tê-lo encontrado, aqui próximo, se é ou não adequado. Afinal de contas, parece que o local é despovoado, são poucos os que passam. Eles não têm segurança de ter feito uma boa escolha. Retiram-se, provavelmente, em busca de um outro, em local mais povoado.”
Somos atendidos depois de algum tempo por um garçom, peço e ofereço um cálice de vinho, observo o rótulo, para anotar seu nome: Domaine de La Solitude, 2004, Passac-Leognan.
Continua Rajen.
“Meu olhar vagueia pela rua dividida em duas por uma ilha arborizada, em um dos lados encontro uma moça loira com cabelos grossos, com olhos claros, rosto oval. Nova. Muito vestida. Com uma quantidade de roupas próprias para inverno; entretanto o dia está fresco, primaveril, sem vento. Tem uma pele um pouco escurecida. Um bronzeado sujo. Está sentada e brinca com as flores do canteiro. Olha para o outro lado, depois à direita e à esquerda, parece estar esperando alguém. E ele chega. Alto, com os cabelos longos, rastafári, com tranças grossas, com sapatos sendo usados como chinelos, dando uma instabilidade no andar, um grande cobertor lhe cobre o corpo, seu anoraque pós-moderno; acompanha o tipo seu cão, sem raça definida, com os ossos à mostra. Ele atravessa a rua dirigindo-se ao encontro daquela moça. Os dois trocam um beijo apaixonado, jovem e público. Caminham agarradinhos. No sentido oposto aos outros dois.
Passa uma africana com sua roupa orgulhosa, de um colorido intenso e variado, com excesso de panos, cobrindo o seu largo corpo, com a cabeça vestida por um ‘foulard’ e falando ruidosamente num celular; percebo um ar de reprovação no tom de sua fala, e não consigo distinguir o conteúdo, nem a origem do seu acento.
Sai da confeitaria uma hare krishna com sua túnica laranja, cabelos quase inteiramente raspado, magro e apressado, abocanhando um doce do tamanho da sua palma e levando sob os braços uma baguete. Noto o cíngulo atravessado em sua cintura e nele está pendurada a escudela.”
Assim termina a descrição da sua Paris, ao fim agradece a oferta, e precisa ir. Está de viagem marcada para sua terra natal. É casado com uma francesa e precisa colocar os presentes para seus familiares na bagagem dela. Explica que a alfândega mauriciana é muito rígida com os locais e vasculha inteiramente a bagagem em busca de tributos, mas são respeitosos com os franceses. Pisca o olho, matreiro.
Abraçamo-nos fraternalmente, continuo pensando nas histórias que ele me contou, abro o livro que carrego e encontro:
“Nicópolis. Perto desta cidade sobre o Danúbio, hoje reduzida a aldeia, o sultão Bajazé o Raio, aniquilou, em 1396, o exército cristão comandado pelo rei Sigismundo da Hungria; os cronistas da época e o testemunho do aventureiro Schiltberger, o Marco Pólo bávaro, sublinham sobretudo a displicente elegância com que a cavalaria francesa, indiferente aos planos estratégicos, se atirou de ponta-cabeça e em formação cerrada, na derrota.”
Creio não ser desnecessário esclarecer o nome do autor: Cláudio Magris.
