Blade Runner
Alô, alô; daltônicos. Vou sair com luvas vermelhas. Optei ficar ou lembrar Sean “Rachael” Young em Blade Runner. Tenho uma balada hoje. Devo sair depressa, não tenho tempo para mais nada. Gosto de fazer tudo rapidamente.
Sou muito atrevida. Tenho vontade de dominar a situação. Não costumo esperar por nada. Avanço. Disfarço o tremendo medo que sinto, correndo, avançando, como se estivesse sendo empurrada por algo que não sei bem o que é, e para uma direção desconhecida. Antes de saber, ataco, termino, aprofundo, salto e sobrevivo dando a primeira pancada. Servindo ao meu vetor.
E agindo assim é justo concluir: os homens estão muito sensíveis. Como a mim tudo os assusta. Deve ser uma coisa do tempo, ou dos tempos. Mas eu vou em frente o ataque é a melhor defesa. Eles – os meus pelo menos – ficam tristes e saudosos. E a angústia me assalta, como se a morte estivesse muito próxima.
Tudo hoje é signo. Tudo é aparência. Estamos perdendo a capacidade de conversar. Cada um de nós conversa só, mesmo acompanhado de outras pessoas; as conversas são cortinas de água, verticais e paralelas, somente respingos se tocam.
Ouvi uma história sobre um carinha que solucionava questões de matemática antes mesmo que a calculadora o pudesse fazer. Rápido. Abissal. Abismal. Batia os olhos e o resultado, saltava como pipoca no micro-ondas. Como ele teve o infortúnio de nascer na Índia, foi levado para a matriz de então; lá depois de muito tempo de observação, foi liquidado. Nenhum de nós está – aparentemente - preparado para uma afronta dessa, muito menos um mistério desses.
Conversei com um mestre de xadrez. Aprendi que o talento natural para o jogo está naquele que vê o tabuleiro como um todo, e conforme a posição das peças sabe de imediato quem vai ganhar a partida, se tudo continuar naquela direção.
Assim procuro agir. Ouço bastante. Tento ver a paisagem completa, no menor tempo possível. E a nossa paisagem está caminhando para um mundo como o das formigas, especializado, lógico, inexorável como a globalização.
Percebo também que nós temos uma recordação viva do período anterior ao nascimento. A forma da orelha. O lóbulo figura a cabeça. O contorno e as quinas do ouvido são representações da espinha da nossa posição fetal. Sei como fui enquanto feto. E sei disso do meu homem também, se nasceu mirradinho ou não. Escolho pelo sinal. Pelos feromônios?
O lugar das relações monogâmicas é o museu, ou laboratório de análise psicológica, talvez o apropriado é um centro de estudos de paleontologia. Vivemos num período de mudança profunda. Caminhamos novamente para o matriarcado. Nessas rotineiras e constantes voltas que o universo dá.
Conversei com um entomologista, ouvi a sua admiração pelas formigas, pelas especializações que escolhem, pelo arranjo das cidades, mas fiquei impressionada com o fato do espécime macho da sociedade nascer apenas para fecundar a rainha, numa determinada época e depois morrer. Quando acordei a formiga em mim ainda estava lá. Eu sabia da história, mas ouvi-la agora prestes a sair, trouxe-me tudo de volta com muita força. Algo como gostar de um sapato de couro de crocodilo, não sabendo o porquê, colocar uma roupa de couro negra.
Sim, parece que é isso. Somos as mais fortes, temos mais senso prático, abominamos a violência, a não ser e verbal e eventual. E por isso mesmo. Depois do prazer mútuo, o macho vai deslizando suavemente rumo ao rio do esquecimento. Não o matamos mais, nem carece. Ele se suicida como presença na vida comum. É assim.
Esses meus pensamentos são, talvez, originais. Poderão causar a mesma repulsa que causa uma demonstração de mau humor. Uma resposta malcriada. Uma rejeição. Como algo feio, pernóstico ou doidivanas. Uma alucinação. Mas foi com esses pensamentos tirei do doutor “Hearsay” que pude concluir como se fosse uma jogadora talentosa; e, mais com esse pensamento pude entender a beleza dessa pequena maravilhosa, que se convencionou chamar de conto.
“Quando acordou,
o dinossauro ainda estava lá”.
Augusto Monterroso
Além dos explícitos, dou meus créditos: A fênix apoplética,
Alfred Schnittke,Bernard Werber, Cristina Sampaio, DaniCast, ElfenQueen, François Rabelais, Renata Miloni, Thorstein Klapsch
