Saint Emilion

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday July 30, 2008

Um lugar que desnorteia. Não se espera uma vila medieval, com um formato de pêra – como as peças de Satie – gruta de eremita, catacumbas, igreja monolítica, ruas estreitas, um interior moderno e equipamentos de última geração facilitando a vida de quem está vivo nesse momento. Vive-se ao mesmo tempo duas eras; a transição. Transição colorida, desde o ocre da uva sauternes, passando pelo cinza nítido, gótico e cinzelado dos campanários, e o indefinido e esmaecido, já comido pelo verde das ruínas do mundo galo romano. Restam muitas paredes, encimadas pela flâmula tricolor.

Um ciclista corado, esbaforido, com reserva de gordura para chegar até Perigueux, traja um agasalho preto e vermelho em tudo muito justo. Parece fazer questão de mostrar sua energia e valentia para todos; uma filmadora de última geração pendurada no pescoço suado e possante.  Mas algo revela que ele não é um esportista nato, é sim, um contador. Conta calorias ingeridas e tenta gastá-las, zerando uma conta impossível; quanto mais gasta mais fome têm. O seu cheque especial de calorias está sempre estourado.

É denunciado pelo seu animal de estimação. Tem piedade do seu cão. Poupa-o. Emprega nele toda a clemência que pede para si. Leva no bagageiro da sua bicicleta um cãozinho bege, sentado, olhando o mundo à sua volta, com olhar curioso e satisfeito por estar ao lado do dono. Não está com a língua de fora. Aspira e se delicia com o ar.

Cada lugar daqui tem o seu toque de horas. Diferente um do outro. O som do sino daqui é cavo sem reverberação e convoca para um coral que acontecerá mais tarde. O sol ilumina a água do rio não a tornando dourada, e sim verde. Mais amiga e evocativa. Também o barro da sua cor natural e foi invadido pelo verde.

Na praça principal defronte a Igreja e o Hotel, um pequeno ‘bistrot’. Estou em meio ao povo alemão. Eles andam sempre juntos, gabam-se de entender perfeitamente o francês, apesar de não conseguir pronunciá-lo. Atendendo ao sino, uma mesa repleta de espanhóis - educados, contidos - pedem apontando no cardápio uma quantidade pantagruélica de comida; a sua forma de homenagear a literatura francesa. Esqueço-me num olhar perdido.

O banheiro público é limpo e cobra trinta centavos para o necessitado e nada se você é despossuído, mas é obrigatória a volta de cento e oitenta graus e que se alivie protegido apenas por duas abas.

É um sinal do afeto dos franceses.

Um senhor pára na minha frente, com uma garrafa de ‘Château Ausone’ que ele carrega cuidadoso como um bebê, o rosto vermelho sob um chapéu todo grande e amarrotado denunciando seus cabelos escorridos e loiros, de bermuda. Furtivo, desconfiado. Olha para o lugar enquanto sua mão tateia, passeia pela garrafa como um cego imaginário lendo, não se resolve, está numa intensa atividade mental. Muitas opções. Acaba por entrar no café, conversar longamente e acaba por sentar-se. Pede seu almoço.

Resolvo entrar no hotel para almoçar.

Escolho pelo nome. Plaisance.

De fato, é um lugar imponente, com uma decoração clássica. Tonalidades de creme e carmim. Não quero nada em especial. Aproveitar o momento. Peço que o chefe faça a escolha.

Aprecio o lugar, os sabores e principalmente o cenário. Estou participando de uma missa solene. Muitos serviçais sacerdotes, poucos clientes ou fiéis. Uma divisão rígida das funções. Os movimentos de todos são calculados, as palavras são todas decoradas.

Tento descrever.

O sacerdote apresenta os pratos, com uma descrição breve da origem, do sabor e da intenção; assim como do molho, tudo adjetivado e com muitos advérbios, e é seguido por um auxiliar que em seguida o coloca à mesa; agora o escanção apresenta a uva, a safra e a vinícola, servindo o vinho indicado.

Abocanhado o primeiro pedaço, volta num passe de mágica, o sacerdote para saber da sua opinião. Se você se percebeu o sabor, se ele está inteiro dentro de você.

No primeiro prato ainda se é capaz de dar uma opinião, não isenta, mas se sabe se é verdade ou mentira o que sua boca denunciou. A partir do terceiro, prato e vinho, ninguém mais é são de consciência o suficiente pra dizer algo sensato.

Durante todo sacrifício ficam ao lado os efebos. Uma lembrança dos tempos clássicos. Mancebos assexuados, com roupa preta, colarinhos de padre, são magros, pequenos atletas de ginástica olímpica, trocando talheres, servindo água, buscando os pães, atentos ao menor sinal de satisfação ou necessidade. Terminada a refeição, trazem, descrevem e servem os queijos próprios; antegozando a sobremesa. A fala é titubeante, não aprendida integralmente. Ao serem interrogados por qualquer motivo, eles saem do ceráceo, passando pelo o rubro até o purpúreo, olhando desesperada e aflitamente ao sacerdote auxiliar num pedido de socorro.

Observo um casal de americanos, com seus dois filhos, em trajes esportivos, falando alto; um casal impassível de orientais, impossível de se perceber de onde, provavelmente do Japão, pelas máquinas fotográficas e pelo pedido da foto de cada prato; uma dupla francesa de calça e camisa, homens extremamente encabulados, barbas por fazer, rindo e olhando indiscretamente tudo, talvez fosse um riso nervoso; e uma trinca assim composta: Um casal de roupa muito nova, passada e empertigada, acompanhado de uma intérprete jovem, vestida como executiva, olhando muito para os lados. A mulher com um penteado muito alto e plastificado que tornaram seus cabelos louros como um algodão doce, foi muito bonita, hoje tem um cuidado exagerado de parar o tempo, plastificando o rosto e contendo a gravidade. O marido com uma gravata fina, tipo cadarço, como laço uma cabeça de touro e seus cornos, calça de brim, e um sapato de couro cru, tendo na pala uma rosa exagerada, em preocupante relevo. Tentei descobrir a nacionalidade ouvindo o som das palavras. Não consegui saber. Sabia apenas que eram europeus dos Bálcãs. Não resisti e perguntei ao auxiliar se eram franceses, disse-me que não, são russos, explicou condescendentemente.

Saímos simultaneamente o casal olhando para cima, enquanto a moça trocou um olhar vago comigo.

Termino minha expedição, visito a Igreja, aprecio o espaço iluminado tenuemente pelos vitrais: vazio. Aguardaria a apresentação da música do coral, mas não consegui; minha atenção foi chamada para um nicho iluminado. Poderia comprar uma história daquela igreja mediante pagamento de uma moeda. Não tinha a importância numa única, apenas trocados. Juntei quatro delas para completar o total indicado. Fiz a operação. … Nada. … Coloquei outras mais, e… .Nada, novamente. Li, no instante seguinte, o aviso que dizia. “Coloque somente uma moeda.  Equipamento programado”.

 

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