Mulher dividida

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Monday August 25, 2008

Velhos e desiludidos, os meus pais. A mãe ainda acredita que pode parar o tempo. Não toma os remédios, embora consulte um médico sempre que uma novidade chegue ao mercado. Faz as listas de compras como se fosse partir para uma viagem. Meu pai contempla tudo como se estivesse à margem de um rio. Câncer na próstata. Está melhor que ela.

Tenho uma filha linda, estudiosa. Ginasta nas horas livres. Por ser minha amiga segue todos os meus conselhos. Agora, ao escrever, percebo o quanto ela se parece comigo. Sinto-me responsável por não lhe ter oferecido muitas alternativas.

Trabalho muito e ganho cada vez menos fazendo sempre o mesmo. Descasei-me após um longo suplício. Namoro virtualmente. Simples, prático, limpo, eficiente, sem possibilidades de mágoas físicas. As emocionais quando surgem fazem o computador desligar “automaticamente”.

Meu namorado é um conhecido da minha juventude. Foi o meu primeiro. Liguei por estar só. Folheando a minha memória encontrei seu nome no catálogo. Liguei. Fui bem atendida.

Conversamos e logo de cara ele me perguntou se ainda gostava de ler. “Claro. E você não perdeu esse hábito?” “Não, ainda não. E você o que está lendo?” “Leio Allan Kardec. Todo dia uma página.” “Eu também.”

Tenho aproximadamente mil e seiscentas mensagens trocadas. Tudo o que encontro no dia-a-dia, compartilho. No começo, as respostas eram muito longas, textos que eu lia várias vezes. Para compreender, para alcançar as sutilezas. Hoje ele responde cada vez menos. O mínimo. Deveria extrair preciosidades de cada pedregulho que recebo. Não vejo nem uma coisa, nem outra. Vejo algo vazio.

Mas estou bem. Nenhum interesse de conhecer quem quer que seja. Nada de trocas, nada de convivência. É tão gostoso viver com a minha filha. Nós nos entendemos muito bem. Fazemos nossos programas, rimos muito. Brigamos outro tanto, choramos juntas. Tenho um canário (herança do ex), um cão chihuahua chamado Guy e a Brigite, uma gatinha vira-latas - cria de uma siamesa e um gato galbo. De todas as relações afetivas que conheci, a melhor de todas é a que tem a Brigite e o Guy. Comando o casal e converso com o canário, brinco com a filha.

Gradualmente a troca de palavras escritas se tornou troca de palavras faladas. Conversamos ao telefone. Como a imagem dele é aquela antiga, ele não envelheceu. É moço, bonito, fala o que eu gosto de ouvir. Está sempre pronto para um conselho, e dos bons. Uma espécie de adivinho que, em vez de ler a borra do café ou as próprias vísceras, lê meus pensamentos. E conclui exatamente aquilo que quero ouvir. Existem momentos em que nos confundimos ao telefone, a voz dele entra em mim, penetra meus ouvidos e passeia lá pelo meio do meu miolo, relembrando coisas e loucuras da juventude, e parece que me transformo nele, e ele em mim. Nós nos embriagamos e nos amamos assim, a quilômetros de distância. Tudo com muita assepsia, fusão e furor. Um sexo alegre, novo, sádico, sadio e sem ameaças. Devo confessar que só assim consegui me libertar da vergonha na qual eu fui criada. Consegui extravasar e gozar em conjunto. Coisa que anos do casamento não conseguiram fazer. Anos de namoro real, tampouco. Consegui conversar sobre tudo. Não existe nenhum tabu, nenhuma chance de tocar em algo proibido. Assunto? Todo e qualquer assunto. Existe nele uma facilidade impressionante para discorrer sobre qualquer um deles. Não existe prática desconhecida, proibida, escondida. Consegui, finalmente, compreender o que ele sempre diz. Que não existe diferença entre a vida real e a vida sonhada. Sonho quase todos os dias com ele e faço amor. Não há nenhuma diferença. No telefone é uma voz que tem presença. Presença carnal. Ele consegue usar um tom de voz que desperta – exato e instantâneo - um mecanismo do desejo, algo penetrante, aciona todo o meu corpo. E o coloca em predisposto para o amor. Uma, duas, três vezes ao dia. Basta ligar.

Talvez isso tudo seja uma forma de desequilíbrio. (Esse pensamento me assalta durante as horas de folga, ou intervalos do trabalho.)

Esqueci de dizer. Trabalho ao telefone. Faço vendas por meio do telefone para clientes selecionados. Não sou aquela pessoa que repete o mesmo discurso milhares de vezes a um cliente desconhecido. Não, apenas telefono para clientes indicados. A minha conversa não é ensaiada. É real.

Ele deu alguns palpites na minha vida profissional. Alertou-me para uma série de fatos que, apesar de compreender não consegui seguir. Creio que ele ficou triste, sumiu por uns tempos. Dizendo que precisava viajar. Fiquei triste. Uma terrível sensação de abandono terrível, como eu nunca sentira antes. Incomparável. Para ajudar o meu trabalho aumentou, a renda caiu (como o desgraçado havia previsto) e fiquei sem dinheiro. Não faltava mais nada. Fiz aniversário sem ele. Comemoraríamos um ano de namoro. As duas datas coincidiriam. Nada. Só. Novamente.

Bem que ele me avisou. Disse exatamente quando voltaria. Precisava estar só. Sem ninguém. Não queria conversar. Pensei, é a mesma conversa de sempre. Relembrei momentos anteriores. A mesma coisa. Estou farta dessa falta. Falta do quê? Senti uma rejeição muito grande. Será isso mesmo? Afinal de contas tudo foi tão civilizado. Eu não represento nenhum perigo. Por que uma mentira?

Ele voltou. Agora conversa menos. Bem menos. Menos próximo. Mas com a mesma segurança, carinho e voz de antigamente. Consegui seguir seus conselhos. Troquei de empresa, troquei de ramo, troquei minha vida profissional. Ele estava certo. Estou começando tudo de novo. Parece ser a minha sina.

Agora estou pronta para recomeçar. Estou pronta para uma vida a dois. Quero muito mais de uma relação. Preciso dele fisicamente. Estamos conversando a respeito.

Ferreirinho-de-cara-canela

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Monday August 18, 2008

 

‘Mei que’ de paciência estourada. Saúde debilitada. Física e mental. Procuro abrigo nos sonhos. Junto meus pedaços, tento fazer um roteiro compreensível dos meus dias. Para tanto, deixo suavemente o meu corpo e, assim, relato o presenciado por ele em alguns momentos em que se pensava acordado:

“Fiquei tão feliz ao saber que a sua raiva passou. Agora as coisas vão caminhar. Você verá. Eu não tenho raiva, tenho angústia. Quero ficar mirando o nada. Olhando pro céu. Impossível. Impassível.”

(Não consigo. Não há céu, não há  brigadeiro em Sampa. Há cinza. Escuro. Burro. E humanos.

O máximo que a razão conseguiu: Guerra. Morte. Liberalismo. Nomes. Conseguiu denominar.

Homens tornando-se mulheres para ganhar competições e vice-versa. Desde que não seja vice. Banho de gelo para nadar mais rápido. Urrando feito urso para pendurar uma caçoleta no peito nu e sem pêlos. Ou atirá-la no chão por bronze. Tudo tão banal. Triste, repetitivo. Eterno outono melancólico do Rubem Braga.

No Brasil, as estações se instalam no interior do ser. Exteriormente, nunca sabemos quando começa e quando termina uma estação. É sempre verão. As estações estão em nossas almas.)

Ouve uma palestra de um escritor tomado pelo espírito de Kafka. Oitenta anos após a morte de Kafka, sentiu como se fosse ele, encontrou-se inteiro em suas narrativas de deslocado integral, genuíno. Acordou Kafka.  Na audiência, alguém disse: “Você é a cara do Donald Sutherland em 1900”. Franz olhou totalmente desconcertado (desconfortável), mas encontrou um resto de fôlego para responder: “Já me disseram que pareço mesmo é com o Kiefer, filho dele”.

Recusou uma aguardente húngara feita de ameixa, oferecida como sinal de boas vindas. “Estou sob efeito de medicamentos”, explicou.

Agora, pediu ao anfitrião que o servisse de um cálice. “O medicamento que se dane, afinal”, disse, embaraçado. Confessou-se atônito. Receber um rótulo assim de pronto. Ele não estava preparado para isso.  Foi brutalmente catalogado, incluído num escaninho desconhecido.

Humano, ah, o humano.

Abandono o recinto após ouvir, de forma indisciplinada (mas atenta), o espírito recidivo do infeliz boêmio. Recolho-me. Lembro da história contada, dos momentos em que o espírito de Omar ben Ibrahim, nascido na Pérsia, volta em outro, sete séculos depois, alguém nascido na Inglaterra e chamado Edward Fitzgerald. E faço os meus votos para que isso tenha, novamente, acontecido com estes dois: Joseph K. e o professor Viroso.

Acordo. Procuro pelo meu melhor amigo. Ele não veio hoje. Dei por ele no estrangeiro, ao ouvir um canto diferente. Algo me incomodou durante toda a viagem. Não sabia o que ou quem era. Descobri agora ao voltar à rotina.

Estou enamorado pelo som, voz, canto de um pássaro. Não consigo saber o nome desse meu companheiro diário. Todas as manhãs, desde as quatro. Sempre acorda uma hora depois de mim. Ele vem à mata aqui ao lado e canta. Alto, estentóreo, ritmado. Sei que não é grande. O som é forte, mas agudo, e os meus sentidos indicam um ser miúdo e livre.

Ritmado sem ser monótono. O fragor da araponga, por exemplo, é conhecido como um martelo na bigorna. Mas esse tem melodia, é fulgurante. A seqüência das notas tem esplendor e beleza, liberdade e autonomia.

Sei que não é sabiá, sei que não é bem-te-vi. Tem uma melodia composta por algumas notas, pontual. Não é, tampouco, um João-teneném. Ele não diz  ‘bemtereré’. Não é uma maitaca com sua voz coletiva. Ele é único, solo, soprano.

Estou cismado: é um cuco. Folheio um livro das aves que habitam a nossa grande pequena capital. Fotos de todos. Descrições. Separações entre os machos e as fêmeas. Tamanhos. Mas nem todos têm o seu canto gravado ou descrito. Será que com eles acontece como os humanos? A sua voz não importa. Não é suficientemente diferente, autêntica, bela para ser reproduzida ou mencionada. Não tenho chance de ser um ‘pavó’ e seu ‘buuuuu-buuuu’ característico. Talvez um parvo cujo canto seja ouvido só de muito perto?

 A leitura me anima. Tenho uma palmeira próxima, e cuco se alimenta do buriti. Não. Infelizmente, o último registro data de noventa e três, no extremo nordeste do estado. Está ameaçado de extinção. Destruíram seu ambiente. Vive em grupos no Bacurizal.

(Lembro de ter ouvido do médico o seguinte: “Afinal de contas, a motilidade e o sexo não são tudo na vida”.)

Se eu fosse um pássaro, estaria reduzido a recolher insetos que passam por perto, como o arapaçu. Sentiria o sabor da vida escoando e, com alguma emoção, presenciaria o momento. Viveria de colecioná-los.

Achei.

“Ferreirinho-de-cara-canela – Poecilotriccus plumbeiceps ou Todirostrum plumbeiceps. Ao contrário do Relógio (Todirostrum cinereum), esta espécie está restrita às áreas de mata, sendo mais abundante em florestas perturbadas. Vive escondida no meio da ramaria, a pouca altura do solo. É de difícil observação. No entanto, sua presença na área é facilmente detectada por meio de sua vocalização, constituída de chamadas curtas e rápidas ‘prru, pruu’. Pode criar filhote de Peixe-frito-voador, uma ave da mesma família dos chupins e que pesa, quando adulto, oito vezes mais do que ele.”

É isso aí. Segura a onda. Estou surfando. Ouvindo Channels and Winds com Philip Glass e Ravi Shankar. Deitado numa banheira olhando detidamente para a imagem da luz sobre a água quente que balança no mesmo ritmo da música.

Desperto cansado de carregar o meu anu preto com oito vezes mais problemas que eu. Confesso que meu amigo poderá ser outro. Fiquei encantado e dominado pela descrição vívida. Não tenho mais tempo disponível para nada. A não ser para encontrá-lo.

Sangue Negro

scriptu em Penso? by Djabal Tuesday August 5, 2008

 

 

 

 

Um grande filme. Uma grande atuação, cercada de muitas-todas outras. Conta a história de um homem obstinado. Obcecado. Que confessa: odiar todos os seus semelhantes; saber deles - de cara - qual é sua intenção; ser um viciado em competição.

 

Não é muito diferente das demais obras que cuidam da vida e obra dos grandes “tycoons” americanos. Assistimos já muitos deles. Mas existe uma diferença, e essa diferença está no autor do roteiro e diretor Paul T. Anderson.

 

Ele já havia criado um personagem inesquecível em “Embriagados de Amor” e agora repete a dose.

 

Uma história dura, de um sucesso buscado a qualquer preço, com um esforço quase sobre humano, que nunca abandona o seu objeto. A primeira frase demora-se muito para se mostrar. São mostrados apenas – sem explicações - os atos formadores da educação sentimental do protagonista. Ao longo de todo filme acompanhamos, com interesse, surpresa, asco, todas as suas opções.

 

Podemos discordar de algumas delas, mas são indispensáveis ao seu sucesso. De um mineiro miserável e alquebrado a um magnata do petróleo. Sua história se confunde com a história da América. Uma como alegoria da outra. Tive a impressão de Mr. Plainview como uma das nascentes daquele Danúbio que foi a exploração do petróleo. A nascente da espoliação, da cobiça incomensurável, apenas sem o retoque do bom - mocismo. A visão é crua, não há um Tonto, um Sargento Garcia, para acompanhar o Zorro. A iluminação do filme é sombria e magnífica. “A treva e a luz sempre haviam coexistido, ignorando-se, e quando finalmente se viram a luz só olhou de relance e se desviou, mas a escuridão enamorada se apoderou do seu reflexo ou lembrança e esse foi o princípio do homem”.

 

Existe uma luta entre irmãos, entre a fé e o negócio, ambos visando o dinheiro.  São duas faces da mesma moeda da ambição, da vontade de poder.

 

O que dá um toque de beleza extraordinária ao filme é a habilidade com que o diretor dosa a complexidade do personagem, por um lado com um ódio inaudito e um amor filial incompreendido por todos, inclusive pelo filho e que fica escondido. Aparece de uma forma vacilante, envergonhada ou doida e embriagada.

 

Uma das cenas marcantes é a da explosão. Naquele local se encontra seu filho “H.W.” (Dillon Freasier). Imediatamente o pai sai em sua busca, encontra-o, aconchega-o no peito e corre com ele para uma distância segura. Constata que o filho está relativamente bem, e o deixa chorando, com os braços estendidos pedindo: fique. Não, ele vai tentar salvar algo do que resta. Volta para o seu negócio. O negócio, sempre o negócio.

 

Não há dúvida que Daniel é um apaixonado. Tanto de amor quanto de ódio. E essas manifestações são parecidas em seu antagonismo. A abjuração da fé do pastor, seu carrasco e agora vítima, é um grande clímax e desmascara qualquer poder religioso.

Enfim, é uma das histórias da América revisitada por um homem de grande talento. Ele resiste a comparações com qualquer filme. É único, diferente, cruel e sensível. Explica ao nosso tempo – o nascimento da força do petróleo; se trocarmos o protagonista por um país restará uma explanação didática do que é necessário se fazer para sair vencedor dessa competição.

 

Esta obra continua o diálogo iniciado com Cidadão Kane, Era uma vez na América, O Poderoso Chefão, com competência, dignidade e emoção.

 

 

 

 

 

 

 

 

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