Cidade concreta

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday September 17, 2008

“Chove, e eu sinto subitamente a opressão imensa de ser um animal que não sabe o que é, sonhando o pensamento e a emoção, encolhido, como num tugúrio, numa região espacial do ser, contente de um pequeno calor como de uma verdade eterna.” Fernando Pessoa.

 

 

 

Pego uma carona com o amigo. Vou ao centro da cidade.

 

(Aquele apinhado de prédios. Lá onde mora o dinheiro grande. Existem três caminhos. O primeiro e mais antigo é composto de duas linhas retas, quebradas na metade do caminho num ângulo de quarenta e cinco graus.)

 

(Sinais por toda parte, retardam a chegada. A estrada que era de barro batido recebeu pedras e agora asfalto. Foi a primeira ligação entre a antiga cidade, hoje bairro, de Santo Amaro e a Capital do Estado. )

 

(Saímos da “Cabeça Chata”, uma mercearia. Num só lugar, apertado, encontramos arroz, réstias de alho e cebola, carne seca, rapadura, mandioca. Oferecidas e prontas para colecionadores saudosos. E chegamos ao Mercado Municipal, antigo paiol de armas, hoje templo do prazer. Uma enciclopédia exibindo seus verbetes vivos. Alimentos classificados por gêneros, qualidades e procedência. Chás da Taprobana. Queijos da Aquitânia. Cervejas da Boêmia. Vinhos do Principado de Balaton. Bacalhaus de Portugal. Geléias da Trácia. Cohibas de La Havana de Cubanacan.)

 

(A segunda rota, uma linha radial, que foi aberta cortando a cidade. Três pistas para ir, três para voltar. Um empreendedor inglês, falido, transformou o espaço numa auto-estrada de concreto com quilômetros de comprimento, estendendo-se até uma cidade satélite, Interlagos, passando por um aeroporto. (Saudades da Inglaterra.) A avenida sai da ‘Chácara Flora’. Um loteamento residencial mais exclusivo da cidade, cerca de trezentas moradias, construídas sobre uma área mínima de três mil metros quadrados. Ponto de chegada: O Fórum. Sessenta mil metros quadrados destinados a distribuir justiça e conservar a paz. Deve seu nome ao líder do partido conservador, nascido em Caxias no Maranhão, formado em Olinda.)

 

(Terceira via: já nasceu moderna. São duas marginais do rio (extinguindo-se na mesma proporção que recebia o lixo da cidade e os dejetos da indústria) chamadas memória. Perdeu a função original e hoje enfeita uma espécie de anel de betume em torno da cidade. Varia de três a seis pistas num sentido e noutro. Sustenta dezesseis complexos viários. Faz a ligação entre Jurubatuba (“pardo” ou “sujo” em língua Tupi.), um bairro industrial em decadência e a rodovia Ayrton Senna ou rodovia dos Trabalhadores, que nos dá acesso ao interior do país. Essa rodovia é a mais longa e a mais rápida. Entre os dois pontos, saindo na ponte das Bandeiras atingi-se o centro. Estima-se que setenta por cento dos moradores da cidade façam essa escolha para o trajeto.)

 

Qual caminho você quer fazer? – ouvi.

 

Avenida Santo Amaro. Seguir por ela é passear por um museu a céu aberto.  Em suas margens as construções são objetos aguardando sua catalogação.

 

 

(Escolho sempre o mais demorado: a estrada original. Cujo trânsito é mais intenso, os carros são mais velhos e têm mais vida. O anda e pára do tráfego mostra os rostos das pessoas. Uma espécie de sutil e indireta interação. Olhar o rosto das pessoas é suficiente. Passo por uma estátua, um clube de ex-funcionários, hoje aceitando sócios, pagando apenas a manutenção, diversas casas transformadas em clubes noturnos. Tenho tempo para contar: quinze. Viaduto. Saída para Santos. Ouço contos, aprendo a música das palavras. Uma decadência coerente.)

 

(Não é difícil entender o alcance da imaginação, basta olhar ao redor. Lembro da história do imperador dos tártaros recebendo Marco Polo. Mandou cortar as árvores de um bosque para construir um pavilhão de caça. Um poeta, quatrocentos anos depois, acompanhou num sonho essa mesma construção. Soube que a obra obedeceu a uma música. Publicou-a em forma de poesia, lida com risos de incredulidade. Ah, como sonham os poetas. Algum tempo depois de morto o poeta, o que leu todos os livros, foi publicada uma História Universal por um persa. Nela havia algo tão maravilhoso quanto seu poema.  O persa escrevera sobre o mesmo pavilhão e afirmava: ele havia sido inspirado inteiramente por um sonho do cã.)

 

(Para esse trajeto jamais escolho a radial. Ela é um atordoar de carros, em baixa velocidade, com vidros escuros, sem nenhum contato humano, exceto em caso de acidente, rodeada de grandes construções, quase nenhum espaço aberto. Você volta para dentro de si. Obrigatoriamente, e nem sempre é isso que você quer. Só o escolho quando – como o inglês – quero sair daqui voando. Para o norte, sul. Descubro que jamais fui para o oeste. Um dia talvez. Acre. Arre.)

 

(O caminho ao longo do rio é o nosso Saara cinzento. Sem outra cor. A linha máxima do horizonte fica a duzentos metros: a outra ribeira do rio, coberta de carros faiscantes ao sol. Imensa lagarta metálica. O calor intenso nubla a imagem, torna-a trêmula. Uma miragem. Não há oásis, só mais carros. Não há água, apenas o leito enfermo. Não há palmeiras, apenas tratores retirando lixo. Não há camelos, mas uma ou outra capivara sendo salva da sua ousadia mortal. Foi notícia de jornal a sobrevivência de um jacaré, saído sabe-se lá de onde. Toda vez que pretendo ir para o interior do Estado, essa é a minha escolha. A velocidade, salvo quando entramos nos gargalos, é alta, e a sinalização,  ruim. A escolha sempre errada. Fico indo e voltando para encontrar a minha direção. Encontro, depois de três ou quatro tentativas. Eu me perco nas ruas internas. É uma tristeza. Informação, velocidade, escolha não são os componentes mais adequados para uma decisão certa.)

 

(Devo adquirir um GPS para encontrar o melhor caminho entre dois pontos. Não gosto de ficar ao sabor do momento. Um substituto de bússola. Com ela me perderia nas mãos e contramãos do tráfego.)

 

- O que é viver, para você? – pergunta.

 

Minha vida é repetir. Minhas escolhas compõem o meu ser. Sou a soma delas, ao longo do tempo.

 

Viver não é só isso.  É pegar o caminho da marginal, passar admirando o presídio, parar na Estação Rodoviária, e ficar por ali, dissolvido na multidão, escolhendo meu itinerário, entre: Aiuruoca, Bonito, Jijoca de Jericoacoara, Holambra, Piracanjuba, Rio Claro, Xique-Xique, Caldas Novas, Buriti, Caculé ou Mar de Espanha. Descobrir essas camadas tão longínquas.

 

É descobrir que há alternativas. Existe o sul. O imenso, agreste sul. Caminhando nessa direção encontro a mata, encontro o Mar. Da Pedra à pluma e água. Kublai Kan ouve as histórias de Marco Polo e suas cidades invisíveis, sabendo existir nelas um tecido mais fino, inconsútil. Lembra de seus nomes: Diomira. Isidora. Dorotéia. Zaíra. Tamara. Anastácia. Pentesiléia. Icária. Tamoé. Oceana. Harmonia.

 

Viver é algo assim. Pedaços de textos, palavras, nomes, histórias, sentimentos, sabores, sonhos, ventos, todos desconectados. Uma espécie de caos,no qual procuro encontrar algum nexo, como se fora um brinquedo brilhante que dará muita alegria.

 

É descobrir que não houve tempo antes e não haverá depois.

 

 

 

 

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