Ganja

scriptu em Penso? by Djabal Friday October 31, 2008

A música, os estados de felicidade, a mitologia, os rostos trabalhados pelo tempo, certos crepúsculos e certos lugares querem nos dizer algo, ou algo disseram que não deveríamos ter perdido, ou estão a ponto de dizer algo; essa iminência de uma revelação que não se produz é, quem sabe, o fato estético.
Borges

 

Lâmpada: este é meu nome. Colocada num plinto de mármore.  A forma redonda, diferente das demais. Quando acesa, não consigo ver e tampouco ser vista. As possibilidades da memória e relato vêm quando desligada. A memória é transmitida pelo bocal. Ele arquiva a experiências das antecessoras. A visão é dada pelos filamentos.

Estou numa sala retangular. O recinto é uma célula de uma biblioteca. Uma das paredes é inteiramente de vidro, as demais repletas de livros dispostos numa ordem simétrica. Duas poltronas e um sofá sobre tapetes antigos completam a decoração. Entre os estofados uma mesa de apoio e sobre ela: eu e a campainha, colocada agora. Provavelmente chegará alguém para visitar o homem do Povo do Livro.

É calmo. Nove décadas de vida. A única indicação da idade é o cajado com castão que o acompanha. No mais é jovial. Viúvo. Os olhos expressivos, mansos, acompanham o sorriso permanente e enigmático. Prático e sábio. Começou a colecionar livros aos oito anos, e continua. Só os príncipes têm senso de medida; é rigoroso nos horários.

Diariamente, durante duas ou três horas, a moça lê em voz alta, uma obra escolhida. Posso dizer que a minha existência é longeva quanto a dele. Fico acesa por pouco tempo. Descanso a maior parte do tempo. Ele perdeu a visão, num azar do acaso, segundo ele mesmo sempre diz. A hipótese do excesso de uso, não poderia ser descartada. Hoje o tempo é de reflexão e calma. Ele já viu tudo que o homem foi destinado para ver.

Chega seu amigo. São duas e trinta horas. Conversam um pouco, perguntas recíprocas sobre a saúde. Cafés sem açúcar para ambos.

Durante a conversa escapa do amigo a visita à torre de Montaigne. “Ah, você esteve em Bordeaux?” “Sim, fui até lá e visitei também a casa de La Boétíe, em Sarlat”. “Esse é um dos meus autores prediletos, você sabe, não?” “Sei. Você escolheu uma frase dele para seu ‘ex-líbris’”. “Você tem uma boa memória. A minha está um tanto danificada, principalmente no departamento dos nomes próprios. A cada dia que passa, tenho mais dificuldades para lembrar-me deles. Nada que o tempo não resolva. Tenho a primeira edição dos Ensaios. Uma aquisição saborosa. O que traz aqui?” “Venho trazer-lhe um presente. Um livro de um amigo. Ele é  uma voz íntegra e original da literatura atual.” “Do que fala ele?” “Fala do amor, das formas que assume em geral; da família, das montagens e remontagens sucessivas pelas quais ela passa.” “Sim, sim, como ele se chama?” “É o ramo português da família ‘ Ponce de Leon’: André de Leones.” “Será mesmo?” “Nem sei. Mas a imagem de alguém procurando a fonte da juventude é bem sugestiva para mim.” Riram.

Descobriram amigos e professores em comum. Freqüentaram a mesma escola. Confessou que lia durante a aula. Conversaram sobre a premiação de escritores.
“O senhor conhece Le Clézio, o premiado com o Nobel desse ano?” “Não, não o conheço.” “Você o conhece?” “Li alguma coisa dele.” “E que tal?” “Eu, particularmente gosto. Ele fala, defende e mostra o ponto de vista dos excluídos. Uma literatura que estende a mão para o diálogo. Ilustra as diferenças. E justamente por esse motivo foi alvo de muitas críticas. Peixe Dourado conta a viagem de uma órfã pelo norte da África e Europa. Mistura as culturas diferentes. Quarentena não é uma leitura fácil, com tantas informações, exige um grande conhecimento do seu leitor, ou – no mínimo - curiosidade. Vai de Rimbaud à Botânica; das Ilhas Maurício à Plate, Gabriel, Pigeon House Rock, Gunner’s Quoin e Coin de Mire; do Almíscar ao massacre de Fourmies; de Aldebarã (Rohini) aos cães famintos de Aden; do Heliotrópio à rebelião dos Sepoys. Uma história narrada em várias camadas de tempo. Foi uma premiação justa.”

- “Meu amigo, hoje em dia os leitores querem sentimentos e emoções”, pontuou.

Tomaram seu segundo café, agora com leite.  

“Eu tive muita sorte. Minha mulher adorava ler. Ela foi um grande incentivo para formar a minha biblioteca. Às vezes, tínhamos problemas de dinheiro ao final do mês e ela sempre me apoiou. Iniciei minha coleção em vinte e três. São oitenta anos de leitura. Todas as dependências da casa estão tomadas, e quando terminou o espaço, aluguei um apartamento aqui na frente.”

Eles saíram para ver a primeira edição dos Ensaios de Montaigne; o manuscrito do Grande Sertão: Veredas; a primeira poesia concreta (impressa em forma de cálice) publicada em livro, na época de Gutenberg, e uma série de outras raridades. Ele apanha todas as obras, de memória, no lugar exato da estante. Abre o livro exatamente na página objeto da conversa.

Sentam-se.

 “Agora incentivo o Mário a ler. Ele me conduz para todos meus compromissos e, não raro, fica horas me esperando. Dei-lhe de presente Memórias Póstumas.” “E então, ele apreciou?” “Creio que não. Ele começou e não terminou.” “E se o senhor começasse pelas Memórias de um Sargento de Milícias, não teria mais sucesso?” “É verdade, não havia pensado nisso. Ele é mais divertido, mais próximo do nosso tempo. Farei isso.”

A conversa segue adiante até se extinguir. O visitante sai é acompanhado até a porta. O homem volta, senta, toca a campainha. Aparece uma moça e inicia a leitura. Pela sexta vez lê Proust.

Acompanho a cena. Perco-me em recordações. Vivo num paraíso. Um lugar calmo, cercado de todos os pensamentos deixados por escrito pelos homens. Ouvi uma boa parte deles. Gosto de ouvir o Quixote. Também ouço as histórias de outros, jamais as experimentarei. Experimentar é diferente de ver, é saber sem compreender. Mas estou livre de todas as infâmias que ouço existirem fora daqui. Apesar de fixa, a minha curiosidade tornou-me nômade.

Viajei por todos os continentes, conheci quase todas as nacionalidades, numa viagem a roda da minha sala. Essa viagem foi pouco aleatória, foi planejada e seguiu uma ordem. Escapou de mim o imprevisto. A conversa de agora há pouco, por exemplo. Ela foi mais vívida, mais tocante e possuidora de uma tinta diferente da que impregna a folha branca.

Há dúvidas que não consegui resolver. Buscas que resultaram infrutíferas. Saboreio um grande quebra cabeças, vejo cenas esparsas, compreensíveis em si mesmas. Entretanto, os vazios existentes, nublam o plano geral. Existem muitas perguntas sem respostas. Talvez as mais importantes. Qual o valor das coisas? Qual o valor das idéias?

As coisas são fascinantes. Todas tendem a permanecer. A permanência do homem se dá pela destruição das coisas. O fascínio do destruir, de apagar, do recomeçar.

Na coleção que habito encontrei a história de um príncipe chinês contemporâneo de Aníbal. Ele destruiu todas as bibliotecas existentes em seu reino. Livros acumulados desde há três mil anos. Raciocinou iniciar uma nova era e se denominou o Primeiro Imperador. Intentava iniciar uma dinastia infinita e fazer de todo aniquilador de bibliotecas um discípulo seu. A história não soube dizer qual sentimento assaltou o comandante cartaginês. Sabemos apenas que hesitou na destruição da capital do Império. Foi destruído por Roma.

A queima de livros é uma destruição muito particular. Mais desilusão que engenho. Auto-de-fé. Acompanhei a narrativa de um professor que viveu encerrado entre seus livros. Apenas recebia a luz do sol por uma clarabóia no teto. Acreditava que todos os espaços, deveriam ser utilizados para estantes. Considerava a leitura uma carícia. Uma forma de educação sentimental. Todas as pessoas letradas seriam bem educadas. Cansado de enfrentar os problemas práticos, resolveu casar-se. O casamento abriu a caixa de Pandora. Conheceu um lado desconhecido da vida e o descompasso entre a realidade literária e a prática. Resolveu imolar-se juntamente com sua paixão.

Por que o homem do Povo do Livro não queima a sua biblioteca?

 

 

Balandra

scriptu em Penso? by Djabal Thursday October 16, 2008

Por isso

O homem em plena maturidade…

Ocupa-se do denso e não do diluído

Ocupa-se do real e não da florescência

Portanto

Afasta o ali             agarra o aqui.

Dao De Jing

Laozi

Venho do Rio. Meu nome é Josué. Chego bem cedo. Estou com enfisema. O esforço para os menores percursos é grande. Tomei o hábito de sair muito cedo, chego antes e aguardo as pessoas. Ou saio por último, para não atrasar ninguém. Passo despercebido.  Estou de licença médica, trabalho numa empresa americana.

Trinta anos de formados, trinta e cinco anos desde o primeiro dia. Apesar dos jantares ocorridos nesse meio tempo. Esse é o primeiro encontro coletivo. Um reencontro de escola, de sala de aula.  Na qual convivemos cinco anos todos os dias juntos, durante, no mínimo, quatro horas. Os professores tentaram sem sucesso atrapalhar as conversas. Felizmente, não foram completamente bem sucedidos.

Combinamos de nos ver num local próximo à cidade de São Paulo, uma fazenda ocupando uma terra improdutiva, alugada para reuniões de empresas, de apreciadores de vinhos. Essa é a forma de os proprietários, derivados do mesmo tronco original, pagar os impostos.

O percurso é rápido, quarenta e cinco minutos desde a Capital.

O roteiro é preciso. Saio da estrada, entro numa estrada de terra. Após alguns minutos, o motorista encontra a placa indicativa: Fazenda Imperial.

O local é agradável, uma vaca ali, outra mais adiante. Entediadas. Raras pessoas atravessam o caminho. Uma senhora negra e bamboleante de lenço na cabeça, oferece a oportunidade para o motorista dizer:

- Já sabemos quem vai cozinhar.

Um telescópio à Janela Indiscreta nos recebe e espreita, sentados na varanda da sede num conjunto de cana da índia. Dali se descortina à frente, uma lagoa – espelho cinzento e liso - abraçando todo o horizonte, exceto numa das pontas, à direita. Ali, ruínas paralelas à sede estavam já cobertas pelo mato. Este, organizado, cobria cada resto de tijolo, com muito cuidado, querendo apagar todo e qualquer vestígio de construção.

Mais próximo, à esquerda, um paiol transformado num local de recreação, para eventuais hóspedes infantis. Ao lado do paiol, piscina, cadeiras de descanso, estofados, mesas e cadeiras formavam uma grande área servida por uma churrasqueira faminta. A piscina, solitária, foi medida e avaliada por um dos presentes: onze metros de largura e quinze de comprimento.

A sede branca com janelas e portas azuis lembrava séculos passados. Composta por dois segmentos retangulares: o primeiro com salas de estar e jantar, amplas, decoradas com esmero, e três quartos, ocupados pelos visitantes, segundo a democrática ordem de chegada; no prédio ao lado – separado por um pedaço de terra - vinha o cortição, transformado em mais sete quartos, um paralelo ao outro, e uma pequena biblioteca, conjugada com uma sala para a tevê.

Assim foram chegando, em fila indiana, um após o outro. Como peregrinos.

O primeiro casal. O melhor aluno da classe. O mais estudioso e aplicado. Hoje gestor do capital alheio. Fez poucas e boas sociedades.  Olhar indagador e submisso. Anseia a aprovação alheia. Restou jovem no olhar. Perdeu seus poucos cabelos, mas não seus tiques.

Chega o jogador de basquete. Casado com a mesma esposa, desde aquele tempo. Sorocaba pode se orgulhar de seu filho. Aberto, franco, sorridente e – de longe – demonstra mais inteiramente a satisfação de estar junto. Espalhafatoso e de largos gestos, cria uma área de atração a sua volta. É uma espécie de ímã.

De Brasília vem o professor. Rosto redondo, quieto, observador, esquivo. Trabalhou no Banco Central, agora dá aulas, estuda e escreve. A sua primeira reação é o sorriso, por simpatia, ou vergonha. Apresenta uma tese sobre o comportamento da Bolsa. Uma análise grafista. Foi recusado por vários orientadores, não desistiu até encontrar um. Conseguiu.

Uma visita inesperada. Desacompanhada. Cumprimenta alegremente a todos. Explica que deveria trabalhar, mas conseguiu alguém para substituí-lo, pelo menos por hoje. É auditor. Trabalha a favor da desconfiança e precisão alheia.  É funcionário registrado desses sentimentos. Revelou-se um cantor. Intrigou a todos com o repertório e o fôlego.

O Príncipe Valente, assim chamado pelo corte de cabelos, aparece em seguida, e é ofuscado pela inebriante mulher que o acompanha. Ela é descendente de árabes tem deles o sentido da hospitalidade, sem a seriedade das antigas tribos e clãs, ri muito. Talvez algum ódio. Humor fino, às vezes, corrosivo. Viveu um bom tempo na Alemanha. Hamburgo e adora St. Pauli. Tinha muitas saudades do Brasil. Quando estava triste e insegura, procurava obras, para saber da sua audiência junto aos pedreiros. Decepcionou-se com o lugar e os homens, esses não assobiavam ou faziam qualquer tentativa de elogiar sua bunda. Uma legítima bunda libanesa.

Chegou Bartolomeu Malthus acompanhado de Catarina. Aquele parece o mentor da reunião. Uma criança adulta. Cultiva, incentiva e promove a convivência ao longo de todo esse tempo. Acabou me encontrando aqui no Rio. Eu, na época, era militar. E isso causava um mal estar tremendo. Ditadura, perseguições, prisões, SNI supervisionando tudo e todos. Não era confiável para eles. Catarina veio de Curitiba. Grandão. Chamava atenção pelo tamanho de sua mão. Parecia uma maleta executiva prendendo outra. Com todo aquele tamanho era freqüente sua presença junto às meninas orientais, pequenas e tímidas. Número total de mulheres na classe. Cinco. Orientais: três.

Estamos numa espécie de oásis gramado. A um canto, duas palmeiras imperiais nos guardam como sentinelas. A terra destinada à lavoura apresenta um aspecto desolado e nu. Esgotada pelo excesso de produção ou falta de incentivo. Os administradores não sabiam distinguir. Nenhum deles de fazenda, aliás, apenas o gestor, executivo de uma usina de álcool. E foi ele que pontuou: A terra é ruim, veja como as árvores crescem tortas, se fosse boa elas cresceriam em ângulo reto. Eu não entendi, apesar da extensa explicação.

Por não haver mais espaço, caminhamos até a churrasqueira.  Imediatamente se formam dois grupos. Homens e mulheres. Acomodo-me no meio da roda feminina. Conto alguns causos, todas se riem, parecem estar à vontade, Mais tarde, chega um, logo depois, outro, até que o grupo feminino se transforma num exclusivamente masculino.

Percebo que todos estão dando voltas na churrasqueira, supervisionando os trabalhos. Matando a fome e a curiosidade. O proprietário nos deixou algumas pessoas para organizar o almoço e nos deixar despreocupados. Davam voltas para cá e para lá. Uma ciranda.

Homens num grupo, o meu. Mulheres em outro. Alguns casais permanecem juntos e não se fixam em nenhum lugar. Mais tarde se cria um local para os casais, deitados em redes, sentados em cadeiras largas, juntos, namorando. Relembrando. Não compartilham suas confidências.

Chega o poeta. O maior sucesso entre nós. Namorou a menina mais linda da classe, que acabou deixando a escola pra freqüentar aulas de dança. Ele a conquistou com sua poesia e sua música. Tive a impressão que naquele momento todos queríamos ser artistas. Continua magro e alto. Perdeu alguns cabelos, continua um homem com um olhar de quem ouviu um grande segredo e almeja convencer alguém.

Também revejo o político. Calça alparcatas, calças largas de ginástica, miúdo, leve, cabeça totalmente branca. Os cabelos continuam indomáveis apesar de cansados. Foi bem sucedido na carreira política. Manejou milhões de moedas e pessoas. Hoje está fora do poder. Talvez percebesse tudo mudando para restar na mesma. Concluiu que a sua luta não resultaram em nada. Só matéria. Restou o valor que dá a um copo de vinho, a uma cigarrilha? Adotou a Fé Bahá-í, originária na antiga Pérsia. Pelo que me explica a esposa dele, não existe templos, sacerdotes, dogmas, ritos. Acreditam que fomos criados para levar adiante uma civilização em constante evolução.

O poeta e o auditor pegam seus violões, aproximam-se do microfone, afinam seus instrumentos e atacam de Álbum Branco. Fazem uma espécie de dupla. Separam-se aos poucos, aquele atacando também bossa nova, tropicalismo e este música popular brasileira e arriscando um sertanejo aqui e ali.

Todos param. Ouvem. Uma catarse. A busca das raízes e razões que nos fizeram sair cada um de lugar para nos encontrar numa sala de aula. Quantas coisas estão por detrás disso? Tudo se convertendo numa letra de música (Honey Pie, Savoy Truffle, Cry Baby Cry, Good Night)

 

” Your inside is out, and your outside is in
Your outside is in, and you inside is out”

Pausa. Tomar um fôlego. Oferecem o microfone para alguém que deseje falar dos motivos da escolha do curso de administração de empresas.

Um executivo dos mais procurados e bem pagos na cidade e antigo “contato publicitário”, hoje comanda uma imensa fábrica. Começa a balbuciar alguma coisa e não consegue, emocionado. É a vez de um nordestino de Mossoró, apelidado carinhosamente de Zélão, hoje possui um curso de treinamento de executivos voltados à área de finanças. Galhardo e próspero. Casou com uma gaúcha. Comenta que o pai não conseguiu pagar a sua mensalidade de cursinho. A primeira foi paga com uma ‘vaquinha’, após isso não precisou mais. A mesma sensação que batera no executivo bateu nele. Deixou de falar, teve a voz truncada e a visão nublada.

Um professor de Lian Gong assumiu a posição. Calmo, oriental na atitude e visão de vida, conseguiu explicar com uma tranqüilidade plácida coisas que procurávamos sem o saber. A beleza das coisas simples da vida. O nascer, o comer, o viver e o morrer. Da inexistência dos problemas e da existência de fatos. Fatos encarados como problemas. Como se fôssemos algo de relevante no mundo.

Pegou o microfone Malthus, era corretor, e é até hoje. Tem cara de pau, para falar como se fosse o Ministro do Trabalho. Horas sem dizer nada de memorável. Apenas situações elaboradas com musicalidade nas palavras destinadas a acalmar ou anestesiar o ouvinte como se ele fosse um cliente em potencial de alguma coisa. E tonto ou cansado de ouvir, acedesse ao seu desejo.

Ficamos até tarde da noite. Duas da manhã. Fiquei parado na varanda, ouvindo e esperando para entrar na sede. Lembrei de uma ocasião que viajamos para Ubatuba. Um pequeno grupo. Alugamos uma casa para o final de semana. Muita gente, pouco espaço. Fui com minha namorada, colega de classe. Eu e o gestor fomos destinados a dormir na sala. Nós fizemos um arranjo para não acordar ninguém e poder namorar. Fomos bem sucedidos. O gestor que estava no canto oposto ao nosso, ressonou e não ouviu nada. Com essa cena em mente, caminhei em direção ao seu quarto. Do lado de fora não ouvi nada além do exercício natural que o casal pratica em noites de amor e tesão. Hoje eu estou só. Ele está com sua nova esposa. Há nove anos. Adotou como suas, as duas meninas do primeiro casamento dela, enquanto o seu – do primeiro casamento - está na Itália.

(Black bird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
all your life
you were only waiting for this moment to be free)

Todos foram dormir. Tudo está calmo, silencioso. Penso numa tropa de soldados da razão, saída das trevas para iluminar o mundo. Passamos anos aprendendo suas explicações. Doutrinamo-nos. E cada um seguiu o seu caminho. Enfrentou a batalha no campo da cidade, lutou contra a paralisia do medo.  Agíamos como candidatos a uma posição que não sabíamos qual, numa empresa que não conhecíamos e com uma característica singular; todos são selecionados. Assim, aos poucos, alguns atenuaram a aquela fé original. E, hoje, encontramos músicos, cantores, políticos, professores, crentes e escritores. 

Em “Navegação da Casa” Rubem Braga me indica que devo procurar o fogo. Encontro-o fenecido no forno de pizza, avivo-o, assopro-o, para afastar o frio da madrugada, aquele homicida involuntário de tantas ternuras, a labareda engorda como uma flor da cor da laranja que ruge e sussurra. Minhas mãos se dirigem a ele, procurando conforto e abrigo. Vejo-me agora como um animal, simples, descubro em meus amigos presentes e passados, diversos “eus”, sucessivos e solitários, unidos num momento único para festejar o vinho e o pão, repartido e comido por todos. Volto no tempo, vôo para o futuro, olho por sobre os ombros e os encontro com as mãos estendidas em direção àquela eterna e universal flor cálida.

Debuxo

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday October 1, 2008

O coração do homem é um abismo!

Giácomo Casanova

A casa se lança sobre mim. Construída num bloco único de concreto, lembra uma casamata, mas não é feia. Transmite uma impressão de leveza contrabalançando o cinza pretérito e presente no concreto.

Sou atendido prontamente e conduzido à presença dele: homem de estatura média, extraordinariamente comum, exceto pelo olhar. Manso. Pacífico. Penetrante. Não sei dizer. Sentamos para conversar. Percebo-o manco.

Apresento-me: Sou Felipe Alcofibras, estudo jornalismo na Faculdade da Zona Oeste há sete anos, estou no final do curso, filho do seu funcionário, o Freitas (lembra dele?), me perdi para chegar aqui, desculpe-me, o ônibus parou longe, faço meu trabalho de conclusão de curso, imaginei-o como uma entrevista com o senhor, afinal, segundo meu pai, o senhor é uma personalidade e tanto.

- O que eu posso dizer a meu respeito que seja do seu interesse de mais alguém?

- Bem, o senhor foi empresário de êxito na região. Teve fama de um grande conquistador, um Casanova. Isso chama a atenção do leitor em geral.

- Tudo isso é bobagem. Seu pai divulgou essa história. Empresário? Tive um negócio para ganhar a vida. Casanova? Não, você está enganado. Espere um pouco, lembro-me de um episódio ocorrido entre nós. Em tempos diferentes, namoramos a mesma moça. Ele deve ter concluído e espalhado muitas coisas por aí, eu não sei. Que posso declarar? Construí esta casa para morar. Planejei tudo, desde o local do terreno, o tamanho das dependências, tudo conforme as minhas necessidades. Fiz o projeto, desenhei a fachada. Levei uma vida para isso.

Dizendo isso, levantou-se e me levou para sua biblioteca. Uma grande sala, forrada com livros em todas as paredes. Não havia espaço para mais nada, além da janela dando para um jardim, um tapete vermelho e o teto azul celeste com dissimuladas nuvens.

- O senhor quer falar sobre a sua carreira?

- Não, obrigado. Não existe nada que eu possa ensinar a ninguém nesse assunto. Peço a você que converse com algumas pessoas amigas e conhecidas. Depois disso, conversaremos para esclareceu suas dúvidas e terminar o seu trabalho. Que tal?

Percebi que não tinha alternativa, apesar do tom e da expressão gentis. Concordei.

-Agradeço sua visita e seu interesse. Encaminharei alguns nomes e endereços. Dê o seu endereço, por favor.

- Claro: felipe.alcofibras@gmail.com.

E encerramos a entrevista.

Quando saíamos, perguntei-lhe:

- E seus livros? Tantos assim, o senhor já leu tudo?

- Os livros são a razão de ser da casa. Tudo foi construído e projetado em torno deles.

Olhou para os lados com orgulho.

-Agradeço sua visita e seu interesse. Um abraço.

Recebi alguns nomes com telefones e endereços e fui à luta. Bolei o seguinte questionário para poupar tempo e trabalho:

“Sou jornalista-estagiário do Popular da Tarde. Escrevo uma matéria sobre o Sr. Seingalt. Como ando sem grana, pretendo entrevistá-lo (a), por e-mail. É possível? O senhor (a) foi-me indicado (a) pelo próprio Sr. Seingalt.

A questão é simples: como o senhor (a) vê o entrevistado? Uma fonte segura (meu pai) me confidenciou que ele é um garanhão. É verdade?

Aqui estão as respostas:

A amiga.

Caro Felipe,

O trabalho de jornalista deveria ser um trabalho sério. Infelizmente, no nosso país, não é. Só num país como o Brasil um estudante de jornalismo resolve fazer seu trabalho de conclusão de curso, que supostamente deveria ser um trabalho de grande relevância em seu curriculum universitário, por email, enviando perguntas para um completo estranho (no caso, eu).

Mas isso condiz com o contexto cultural do país. O brasileiro tem por hábito fazer tudo do jeito mais fácil, menos trabalhoso, mesmo que isso comprometa o resultado. Ninguém no Brasil se preocupa com qualidade. E eu sei que isso não vai fazer diferença na sua nota final porque as faculdades pagas não estão preocupadas com a qualidade do ensino e, sim, em receber o dinheiro dos alunos.

Mas eu digresso.

Eu já dei entrevistas por email, uma delas bastante agradável, sobre chá, que é uma das minhas paixões, assim como gatos. Mas, no caso da sua entrevista, isso não vai acontecer.

Sabe por quê? Porque eu não falo sobre meus amigos a estranhos.  Amizade é uma relação que eu valorizo. Eu sou uma pessoa que não se dá a conhecer facilmente. Eu reservo isso para poucos e considero um privilégio quando uma pessoa resolve me conceder sua amizade.

Eu não vou falar do meu amigo para você porque eu não lhe conheço.

E, com relação ao comentário do senhor seu pai, ao invés de se preocupar tanto com a vida sexual alheia (outro péssimo hábito do contexto cultural brasileiro), ele deveria estar preocupado com o nível de educação que o filho dele está recebendo na faculdade. Porque, em minha opinião, um candidato a jornalista que faz o que você está fazendo está na carreira errada.

Uma ex-namorada.

Ah, parece meio maluco, estranho, ausente, muito dedicado ao próprio mundo. Vivia me trocando pelo trabalho. Ele queria uma relação tranqüila, com uma mulher calma e paciente. Passou um conto para eu ler, acho que de um húngaro (sei lá de onde, daquelas bandas), descrevendo uma cena doméstica de amor. A protagonista, uma mulher de rosto branco, que sempre dizia sim. Concordava e apoiava o seu homem em tudo. Acabei me enchendo e perguntei: É isso que você quer de mim? Sabe o que ele respondeu? Sim; é isso. Que cara de pau. Saí, batendo a porta. Ah, quer saber? Não é isso que eu queria para mim. Escolhi entre dois pretendentes e me casei com o melhor. E fui viver na Alsácia.

A ex-mulher:

Fomos casados por quinze anos, dez dos quais sem filhos. O nosso casamento se deteriorou depois do nosso filho. Ele ficou distante. Cada vez mais. Fizemos terapia de casal. A silente, muda e surda. Consultamos médicos. Um dia descobri uma nota fiscal de um hotel do interior. Perguntei-lhe o que significava isso. Ele não resistiu muito e acabou por me contar que havia estado lá com outra mulher. Brigamos. Ele prometeu que a deixaria e voltaria para mim, desde que eu nunca mais tocasse nesse assunto. Fiz o trato. Depois de alguns meses, não resisti e perguntei chorando, numa noite, se ele continuava com outra pessoa. Ele simplesmente se levantou, trocou de roupa, saiu e nunca mais voltou. Creio que ele sempre me traiu, desde o início do casamento. Definitivamente, ele é um lobo em pele de cordeiro. Não presta.

O amigo:

Cara, nem te conto. É um “galinha”. Sempre com uma mulher diferente. Dizem que é muito bem dotado. Tem um apetite insaciável. Quando conversamos, percebo que seu olhar sempre se dirige para uma mulher bonita. O pessoal do escritório conta que ele comia todas as mulheres que conhecia: funcionárias, clientes, amigas. Não deu moleza para nenhuma. A mulherada me consultava muitas vezes sobre ele, queriam dicas, informações, detalhes. Eu sempre avisei. “Cuidado, o cara é foda. Te cuida! O jogo dele só tem um vencedor: ele.” Mas não adiantava nada.

A primeira namorada

Ele me deixou curiosa e excitada. Mistura de anjo com lobo mau Metrossexual. O gostosão que comia todas. Poderoso, simpático, inteligente, admirável, sutil, meigo, apaixonante, lindo. Causa admiração, devoção, respeito, adoração, paixão, amor. Creio que ele também me admira pelos traços deixados pelo nosso tempo juntos. Sou diferente das pessoas com quem ele convive. Ele gosta de uma maneira segura, sem amarras ou comprometimentos, e tem muita confiança. Ama o suficiente para jamais perder o controle. Não consigo conquistar algo nele o suficiente pra esperar mais do que já tenho dele.

O amigo íntimo.

Estudamos juntos. No meio do curso, viajei para a Suécia, fui trabalhar e conhecer o mundo. Fiquei dois anos fora. Deixei minha namorada para ele tomar conta. Tinha muitos ciúmes dela. Depois de quatro meses, ela me deixou. Eu me senti traído na minha confiança. Achei que ela tinha me deixado para ficar com ele. Fiquei um tempo sem falar com ele. Hoje, somos novamente muito amigos. É confiável e manipulador. Conversa muito. Tem um bico muito fino, muito doce.

O funcionário.

Ele é mais que patrão, é meu amigo. Trabalhei muito tempo com ele. Trabalhador, de poucas palavras. Começava a trabalhar muito cedo e terminava muito tarde. Sério. As pessoas tinham medo dele. Uma vez, estávamos conversando e percebi que ele estava muito preocupado. Pediu uma carona, para ir até a periferia da cidade. Tomei coragem e perguntei que diabo (desculpe a palavra) ele faria lá naquela hora da noite. Ele iria conversar com uma amiga que ameaçava se matar. Respondi-lhe: Que nada, doutor, é bobeira, não existe ameaça de suicídio, existe suicídio. Ele foi mesmo assim. Quando voltou, me deu razão.

Com esse emaranhado de respostas na mão, voltei a fazer contato e marquei data e hora para uma conversa.

Ele não se dignou a ler. Observei – durante o papo e com o rabo do olho – numa mesa redonda ao lado da sua poltrona um volume das Memórias de Giacomo Casanova, um pequeno livro do Cortázar, outro do Peter Handke e três grossos volumes, dois com o nome de Octavio Paz e outro de Musil.

- O senhor não vai ler as respostas?

- Não preciso, meu caro. Nós, quando sob o efeito da cólera ou do amor, não deveríamos dar opiniões. Mas, infelizmente, é exatamente quando submetidos a ambos que ficamos mais predispostos a raciocinar e falar. Mas eu gostaria de lhe mostrar uns versos que estou a ler agora e encerrar nossa entrevista. Persone, Ezra Pound.

“Meditatio

When I carefully consider the curious habits of dogs.

I am compelled to conclude

That man is the superior animal.

When I consider the curious habits of man

I confess, my friend, I am puzzled.”

Fiquei num mato sem cachorro. Ainda bem que existe a internet. E segui, forçando um pouco a mão.

- Posso pedir uma pequena biografia sua para o término do meu TCC?

- Fui namorador, na mesma medida de todo homem, ou da maioria deles. Bastante tímido. Minha aparência canhota contribuiu para isso. Acima de tudo, um apaixonado pela beleza. Atraído pelas mulheres. Um amante da ordem natural das coisas. Acima de tudo, um anarquista com uma natureza de esponja. Ao me aproximar de cada pessoa, ocorria uma fusão. Por osmose. Conseguia tirar dela tudo que encontrava apoio em mim mesmo. Sentimentos. Reações. Respostas. Experiências. Conhecida e desconhecidas. Eu a vivia a pessoa como ela mesma, como se fôssemos uma única pessoa, minha personalidade se fundia na dela. Perdia-me. Eu não precisava mais ser uma pessoa. Não precisava defender minhas próprias qualidades. Ansioso por conhecer o mundo, para extrair dele uma palavra resultante dessa fusão, iluminadora e fundadora de uma ordem anárquica e contraditória. Queria realmente ser poeta. Para cantar em palavras essa experiência. Infelizmente, a natureza não me criou com talento para o ofício. O anelo de nomear realizado unicamente na poesia. Uma poesia sem compromisso com autor, só com o som. Compromissada apenas com o humano. A minha singular experiência não me bastou para fazer-me poeta. E isso é indispensável. Apenas consegui um prazer nas palavras, algumas belas, num estertor romântico ultrapassado. Apenas incentivei a vaidade alheia. Cedendo em todos os pontos, entreguei tudo que tinha. Quando me foi pedido o terceiro braço, recusei. Perdi ou decepcionei aquele que se acostumara com as “concessões”. Encontrado o primeiro sentimento sem correspondência, ocorria uma fissura. O um se transformara em dois, isolados. Sós. Ficavam apenas os corpos e o hábito. Escrevo as minhas memórias, esparsas, soltas. Não encontrei uma resposta duradoura de alguém que se fundisse ou se complementasse naturalmente. Apenas esboços momentâneos. Sendo assim, relato a minha única. Uma experiência fadada e fanada.

- Mas o senhor sempre esteve acompanhado de mulheres diferentes, foi isso que ouvi?

- É verdade, é isso que eu acabei de dizer. Conheci muitas delas. Conversava e nunca me relacionei com nenhuma com profundidade. Tudo se passava num mundo absolutamente material. Trocas de carinhos. Desejo. Todas as palavras que vinham, voltavam refeitas e lustradas por mim. Enquanto havia matéria, a troca durou, a relação perdurou. Depois, a desconfiança. Depois, o silêncio. Falência, afinal. Fim: abandono.

Tomei o ônibus para casa. Passei defronte ao MacDonald’s. Em meio ao mar de pessoas, desci. Observei um homem caminhando pelo estacionamento, o andar trôpego. Foi caindo, caindo, fazendo uma espécie de estrela fanada ou cambalhota falha, resultando num tombo. Costas no chão. Duas meninas – no máximo com dezesseis ou dezessete anos, cada – pararam, tentaram inutilmente levantá-lo do chão. Compraram um café. Sentaram na guia da calçada e deram para que ele tomasse aos poucos, até se levantar.

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