Yeziat

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Monday November 24, 2008

Afasto o véu. Sábado. Dia frio, invernal, o sol brilha entre as nuvens que teimam escondê-lo. Vento em golfadas desabando os raros chapéus. Um lugar descampado e frio, um cipreste ali, outro aqui, o campo foi subdivido em vários quadriláteros e esses foram subdivididos em lotes, cujo conjunto lembra na simetria o desenho das colônias de pingüins e albatrozes. Nestas, cada ninho de albatroz é cercado de quatro ninhos de pingüins, formando uma figura uniforme que se repete. Em nossa colônia os ninhos são apropriados ao repouso de uma ou mais pessoas deitadas. Os maiores fazem uso de mármores, ferro, tijolo, areia e cimento. Erigem mementos patéticos. A circulação dos vivos é feita por alamedas e comportam de três a quatro pessoas lado a lado.

Observo um visitante com um andar peculiar. Vem numa seqüência de passos rápidos, muito rápidos que parecem responder a um empurrão e pára de súbito. Como se o pé fosse, de repente, travado, depois o outro. A paralisação sobe pelas pernas, tronco e finalmente a cabeça. O corpo, preso ao chão, ainda balança para frente e para trás. O comando de parar foi muito rápido. Finalmente fica imóvel. A boca se abre para receber o contato da lata, que despeja seu líquido. Os olhos, detrás dos óculos, se erguem, elevam e arrastam a cabeça e ambos fazem uma prece, ofuscados pelo sol intermitente. Prece, cerveja, nova caminhada, mesmos movimentos. De costas, percebo ferramentas em seu bolso, deve ser funcionário do lugar, coveiro.

Sentados numa pedra retangular, cinza: Pérola e Ruud. Quietos, meditativos. No centro da laje um pacote aberto contendo doces formando pacotinhos quadrados, um maço de flores e um terço. Ela inicia uma conversa.

- Ele gostava tanto de paçoca. Trago toda semana. Ficamos conversando. Relembrando os nossos dias.

- Não sabia que você era católica.

- Eu não sou. Ele era. Nasceu no Rio Grande do Norte. Lá todos são. Querendo ou não. Mas quero fazer as vontades dele. Foi o homem da minha vida. Deixou-me o filho e a ternura de um tempo feliz que agora é passado. Toda semana relembro de tudo, da nossa história de amor. Não rezo, trago o terço para ele. Não gosto do ritual.

- E ele o que diz disso?

- Ele gosta tanto. Sente a proximidade de tudo, nada foi perdido. Apenas as flores restam aqui. Logo depois que eu saio, ele come os docinhos. Ele não gosta de comer na minha frente. Esfarela. Cai.

- O que você anda fazendo?

- Faculdade de ioga. Adoro a filosofia deles. Condiciono o corpo e a mente. O meu tempo vago estudo nutrição. Busco me alimentar melhor. Quero cuidar do corpo, viver mais. Freqüento a academia quatro vezes por semana. Domingo no parque pratico ginástica chinesa. Quando consigo férias, viajo. Gosto de ler para pegar no sono. Leio agora uma biografia de Alexandre. Ele tinha um namorado, sabia?

- Era comum esse costume entre os antigos. Nem sei se é certo, atribuir aos gregos. Parece ser um costume muito antigo, ter um menino de acompanhante.

- Que menino, nada, não era um menino. Ele, de fato, estava apaixonado, quase morreu ao perdê-lo. Eles tiveram uma briga. Ele gostava de ser rei e servo ao mesmo tempo. Digo, na intimidade, sei disso, sinto assim.

- Vamos?

- Sim, eu já terminei. Vamos almoçar? Conheço um lugar novo pra comermos um churrasco uruguaio. Carne de primeira. Não é necessário comer salada.

- Eu procuro não comer carne. Ela faz mal. Pra mim e pra eles, os animais.

- Bobagem, eles também servem peixes e aves. Ou você só come verde? Eles fazem saladas, por lá.

- Prefiro apenas salada.

- Eu havia combinado almoçar com Yeziat, você se importa de nos acompanhar?

- Não. Claro que não.

Ao se encaminhar para a saída, Ruud observou o rosto de Pérola. Algo estava errado e chamava sua atenção. Aquela pele muito branca estava com alguns hematomas no rosto e no colo. Apesar da tentativa de camuflá-los com maquiagem, os lobinhos eram visíveis. Deixavam o rosto disforme.

- O que aconteceu?

- Não é nada. Acidente. Nada demais.

(olhar inquisitivo) (olhos marejados) (olhar interrogador)

Yeziat saiu comigo ontem à noite. Jantamos, bebemos, nos beijamos. Ficamos. Ele é uma pessoa muito diferente. Não gosta de limites. Encantador, atroz, furioso, misterioso. Não se preocupa com mais nada que o seu próprio prazer. Violento. Rústico. Intenso. Isso tudo é muito estranho. Mas tive uma sensação - indescritível e inédita. No início fiquei apavorada. Resisti como pude. Medo. Percebi não ser esse o melhor comportamento e me entreguei. Ele é assim, exigente, franco, poucas palavras, conversa não falando. Faz. Encontrei um homem que não abdica da iniciativa. Naquela entrega o sentimento se formou em mim vindo de fora e me transformou. Modificou o mundo a partir daqui, e a partir de mim mesma; e, portanto, mesmo que isso contradiga todos os conceitos e vá ao encontro dos preconceitos, ele existe. Ao mesmo tempo aqui dentro e lá fora. Está tão entrelaçado conosco, que a questão do que é interior ou exterior perde todo o sentido. Eu me tornei naquele momento outra. Outras. Por um minuto dei uma chance ao novo e fui dominada por ele. Eu senti o mal e dele tirei o bem. Dor, amor, são idênticos no prazer.

- Acho melhor, Pérola, eu conversar com ele. Isso não se faz. Pelo menos não assim. Brutalidade. Não, não. Isso está muito errado. Bater em você desse jeito. Olhe pra você. Você se olhou no espelho?

- Não, por favor, não faça isso. Ontem, depois de me deixar em casa, eu liguei e pedi pra ele: Amanhã é a minha vez. Quero sair de novo. Hoje não; quero ficar quieta, aproveitando o momento. Quero bater também. Vou devolver cada uma dessas marcas.

- Você está preparada para negar essa individualidade – seu rótulo - e se tornar simultaneamente senhora e escrava?  Existirá alguém? Eu percorri muito da trilha e não encontrei. Encontrei apenas pessoas que gostam de posições fixas e irremovíveis. Elas variam e utilizam uma máscara de cada vez. Numa seqüência lógica e linear. Descobrir e ser duas pessoas ao mesmo tempo, abre as portas para o ser múltiplo, sem amarras. As pessoas daqui não vivem muito tempo numa cápsula espacial. A gravidade nos pregou uma peça. Ao ficarmos soltos um tempo, queremos voltar. Voltar ao centro. Ficamos tontos com essa troca constante e nos aferramos à lógica. Perdemos pouco a pouco a nossa leveza. Seremos brevemente aquele Napoleão de Hospício em busca do seu filho. Bem, posso acrescentar que sou neto de Josefina.

- Vivi um amor romântico e realizado em parte. Habituei-me a pegar sempre a primeira peça de roupa da gaveta pra meu marido. Todo o dia pegava a que estava em cima. Agora, a gaveta foi inteiramente mexida. Escolhi outra peça de roupa. Outra cor. Forma. Você me diz que existem outras gavetas, não havia percebido. Elas estão lá bem na minha frente. Não existe ordem? Pensava estar satisfeita, não estou. A partir de um momento, outro mundo de abriu diante de mim. Primeiro como ameaça e abismo e agora como atração e prazer. Quero ser uma espiã. Uma agente dupla. Escolher o melhor entre dois mundos. Se você me diz que existem outros. Quero vivê-los. Se conseguir ao mesmo tempo, melhor. Se for considerada traidora, serei morta. Eu já estava mesmo, não o sabia. Quero conversar comigo mesma.

Chegaram ao portão. As nuvens fugiram.

Do lado de fora: um sujeito emaciado, com cabelos compridos formando ondas sujas batendo no corpo margem, vestindo um paletó e calça escuros, de corte elegante, sapatos faiscantes. Sua camisa, muito folgada no colarinho, por sua vez abraçado por gravatas de nós largos e o todo colorido. O olhar obscurecia o que fitava. O semblante cinza e revolto como seus cabelos. Mãos muito longas e finas mostravam todos os tendões, um feixe deles finalizando em unhas compridas e afiadas. Abriu um sorriso amplo, simpático e calmo. Saudou:

- Vamos ter companhia para o almoço?

- Não, desculpem. Havia me esquecido de um compromisso. Não posso.

Cafe San Marco, Trieste

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Tuesday November 11, 2008

Os queijos macios se desfazem; 
os queijos firmes endurecem. 
Todos emboloram. 
Julian Barnes 



Sou apaixonado e não gosto de você. A nossa conversa sobre o ponto G me perseguiu. Algo latejava dentro de mim e não me abandonou até agora. Como explicar o equivalente masculino do G? Só pela letra H. Não é um ponto, apenas, é a letra. Melhor, a ligação – vetor entre as suas paralelas. 

Como somos frágeis. Como desconhecemos. Pensar sobre sexo é impróprio. Com ele sentimos. Ao pensar sentimos medo. Observei uma mulher vestida com uma saia longa, aberta, uma fenda central, frontal e oscilante com o caminhar. Ondulava e revelava as pernas, ora uma, ora outra. Uma revelação! Com o efeito de um raio, subia. Rápido. Certeiro. A nuvem de pensamentos ficou tão sólida a ponto da jovem não resistir, andava apenas com a mão prendendo as abas. 


Lembrar da cena, da conversa. Decifrar é o verbo. Viagem onde a palavra assume o timão. Seu corpo é o passageiro. Essa massa com setenta e tantos por cento de água foi concebida como veículo. 

Cena e conversa. G e H. Beijo trocado numa ocasião fortuita, inesperada – você me despediu -, fruto daquele achego de despedida, torna-se um abraço forte trocado, tocado e desesperado, transmitindo por entre nossas virilhas uma pulsação que pouco a pouco foi se tornando uníssona, única. Deste coração foi correndo para outro centro de gravidade. Desta cabeça tudo se tornou mais baixo, mais próximo, procurando profundos. Um rumor de voz e grunhido, respiração e resfôlego. 

Depois daquele beijo, um senso explorador tomou conta de mim. Com minha língua, tentei conhecer seus sabores. Numa magia, carícias mútuas, duas pessoas saboreando através de um ímpeto terrível que a empurrava para fora e a minha surpresa – imensa insana - quando também fui empurrado e penetrado pela sua ousada, ágil e sibilante. De uma timidez que esconde tudo para todos, você passou com uma impetuosidade fascinante para dentro de mim, exigindo minha cumplicidade, ensinando o caminho das delícias de um jardim oculto e intocado. 

Peguei sua mão. Ela conseguiu, com vida própria, achar o caminho do meu desejo, delicada e profunda. Como tudo em você uma conseqüência natural, sem pressa. Não calma. Sabe melhor que ninguém, o segredo faz a forma. O segredo é a base da conquista. 

Argonauta delicada, comandou os meus atos, dona de si, até que eu ficasse absolutamente pedra. Um Pedro seixo, tornado sexo. Pedra, viva e terna. Porém pulsante, enfrentando cego, tudo à frente. 


Momento de mãos enlouquecidas pela dificuldade de encontrar o caminho, dificuldade imposta pelos botões, zíperes e tecidos que teimavam em não ceder aos caprichos do comando, até que finalmente conseguem encontrar o atalho daqueles pomos. Delicados com suas auréolas rosadas, cálices abertos para mim. Abriram-se em botões maravilhosamente tensos, que saboreei com um prazer pagão, sem nome. De sentir em minha boca a tensão de um corpo parecido mais e mais com o arco dessa besta. 

Envolvido neles, continuei me movendo para o nosso novo centro de gravidade. Cada vez mais quente cada vez mais parecido com o portal de um paraíso, que anunciava e repetia todos os segredos do mundo. 

Assim que, descontroladamente, encontrei-o, não estava mais aqui. Estava viajando numa corrida alucinada em direção à Vênus, tentando descobrir quantas luas existiam por lá. Não sabia mais se me contentava com as duas encontradas e transformadas em seios, ou se me entregava ao calor morno e feliz que se emanava do encontro das suas pernas longas, firmes e delicadas ao toque. A exploração do centro fez-me esquecer temporariamente do demais. O céu estava ali mesmo, não precisava mais buscar o horizonte. 

Sempre me mantendo atento aos seus menores movimentos, encontrei a fonte do seu segredo, tão defendido, tão demoradamente procurado. E, ao primeiro toque, descobri o quanto era correspondido. Tudo se liquefez. A fonte de nossa vida se mostrou naquele momento. Água de beber transformada em suco da vida. 

Encontrei o que jamais vira. A minha vida de explorador foi recompensada pelo momento de êxtase. Descobrir que toda a minha tensão encontrava um correspondente em seu corpo foi a maior descoberta. 

Imediatamente, em mim escorria o mesmo sumo que encontrei em você. Descontroladamente, tentei unir as nossas latências no que fui impedido, sem uma palavra sequer, apenas um pequeno toque de mão. 

Mão que apertou a mim e ao meu pêhnihs com um carinho desmedido e me pediu que não terminasse a minha missão. “Não, agora não, espere”. Essas palavras foram ouvidas como um verso imperativo. 

Tentei controlar-me, com uma dificuldade terrível consegui. Estava à beira de uma explosão de nervos, correndo para não cair, voando para levantar e esperar. Estava cego pelo desejo. 

No tempo de aberturas, várias, amplas e diversas, sua boca desencontrou-se da minha e me abocanhou. Um bom-bocado rígido, vermelho, a verdadeira espata do antúrio, com nervuras grossas como dedo, dando-me a sensação de ter penetrado um mundo de cetim. Sua boca ficou acetinada e parecia uma luva para mim. Enquanto isso, eu explorava todo o seu íntimo, com um ímpeto que tinha que ser controlado, pois temia que algo se rompesse com a minha violência. Violência indicada pela pressa não chamada; pelo medo do tempo terminar. Jamais encontrei tanto desejo, tanta luxúria num simples toque, numa simulada síntese e fusão. 

“Paciência”, você me pede. Tremendo em mim mesmo, tento entregar o pedido. Não consigo, não conseguirei, vou fracassar, sair do turbilhão, da fúria do mar, da névoa iridescente da água brava, para a calma do lagamar? Vou fracassar… Não. 

Interrompo tudo, os nossos corpos estavam praticamente agarrados e confundidos num só, mostrando o que é a verdadeira entrega. 

A entrega é a letra H. 

Letra que sozinha não muda nada, não tem som algum. O seu som é fruto da associação com outra letra. Somente o conjunto faz uma diferença, é outro ser. Formávamos um agá. No início era um agá, vai se extinguindo, a ligação entre as paralelas, acabará por sumir. Fundir. Sumir, como? 

Nesse frenesi de bocas, frutas, grutas e antúrio. Agora prestes a um estouro, retomamos aquela alegria primitiva aonde vejo pela primeira vez a fêmea em que você se transformou. Decisiva, deitou-se nua e longa, com pernas e flores convidativas, a saia jogada para cima, mostrando o caminho, pegou com suas mãos aquele êmbolo fervente e furioso e de cetim passei ao túnel de seda. Encontrei todos os sentidos do tato em dois caminhos, fiz a minha rota do cetim e da seda. E com movimentos impulsivos, rápidos, rígidos, cada vez mais violentos, encontrei numa resistência macia, numa profundidade jamais encontrada, o meu final. Encontrei-me perdido. Desfrutei para me perder, para jamais esquecer. Esperara anos e mais anos para fazer a rota das especiarias. Encontrado o caminho me perdi. O êxtase é uma queda. É um abismo que jamais encontrei igual. Voragem do nada. 


- Gostou da minha descrição do ponto H? 
- Não sei. Talvez esteja um pouco exagerada. Longa. Excessiva. 
- Pois é, liguei pra compartilhar. 
- É? 
- Você está com sono? 
- Mais ou menos. 
- Pensei em deixar você ligadona. 
- Já falei que você escreve bem. Mas não o suficiente, sei lá. … Preferiria que você catasse moedas em vez de palavras. As moedas são mais simples, com valores conhecidos e reconhecidos por todos. Algo mais universal. 
- Não me dá prazer. É só obrigação de ganhar o pão. 
- Você vive no mundo da lua. É um saco. É pouco prático. Nós sempre estamos por ai, rodando. Você no máximo chegará a gerente de banco, como eu. Que futuro é esse? É o que você quer? 
- Meu tempo se distribui assim: um quarto pro trabalho, outro pra você. O resto é dormir, ler e escrever. 
- Tá vendo? 
- Bem, vou reler, ta? Ouça a música das palavras, e dê alguma sugestão.
- …. 

Reinicia a leitura do texto, com toda calma e ênfase. 
- Que tal? 
-…. 
- Amor? 
-…. 
- Você gosta de mim, e não é apaixonada … 


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