Cafe San Marco, Trieste
Os queijos macios se desfazem;
os queijos firmes endurecem.
Todos emboloram.
Julian Barnes
Sou apaixonado e não gosto de você. A nossa conversa sobre o ponto G me perseguiu. Algo latejava dentro de mim e não me abandonou até agora. Como explicar o equivalente masculino do G? Só pela letra H. Não é um ponto, apenas, é a letra. Melhor, a ligação – vetor entre as suas paralelas.
Como somos frágeis. Como desconhecemos. Pensar sobre sexo é impróprio. Com ele sentimos. Ao pensar sentimos medo. Observei uma mulher vestida com uma saia longa, aberta, uma fenda central, frontal e oscilante com o caminhar. Ondulava e revelava as pernas, ora uma, ora outra. Uma revelação! Com o efeito de um raio, subia. Rápido. Certeiro. A nuvem de pensamentos ficou tão sólida a ponto da jovem não resistir, andava apenas com a mão prendendo as abas.
Lembrar da cena, da conversa. Decifrar é o verbo. Viagem onde a palavra assume o timão. Seu corpo é o passageiro. Essa massa com setenta e tantos por cento de água foi concebida como veículo.
Cena e conversa. G e H. Beijo trocado numa ocasião fortuita, inesperada – você me despediu -, fruto daquele achego de despedida, torna-se um abraço forte trocado, tocado e desesperado, transmitindo por entre nossas virilhas uma pulsação que pouco a pouco foi se tornando uníssona, única. Deste coração foi correndo para outro centro de gravidade. Desta cabeça tudo se tornou mais baixo, mais próximo, procurando profundos. Um rumor de voz e grunhido, respiração e resfôlego.
Depois daquele beijo, um senso explorador tomou conta de mim. Com minha língua, tentei conhecer seus sabores. Numa magia, carícias mútuas, duas pessoas saboreando através de um ímpeto terrível que a empurrava para fora e a minha surpresa – imensa insana - quando também fui empurrado e penetrado pela sua ousada, ágil e sibilante. De uma timidez que esconde tudo para todos, você passou com uma impetuosidade fascinante para dentro de mim, exigindo minha cumplicidade, ensinando o caminho das delícias de um jardim oculto e intocado.
Peguei sua mão. Ela conseguiu, com vida própria, achar o caminho do meu desejo, delicada e profunda. Como tudo em você uma conseqüência natural, sem pressa. Não calma. Sabe melhor que ninguém, o segredo faz a forma. O segredo é a base da conquista.
Argonauta delicada, comandou os meus atos, dona de si, até que eu ficasse absolutamente pedra. Um Pedro seixo, tornado sexo. Pedra, viva e terna. Porém pulsante, enfrentando cego, tudo à frente.
Momento de mãos enlouquecidas pela dificuldade de encontrar o caminho, dificuldade imposta pelos botões, zíperes e tecidos que teimavam em não ceder aos caprichos do comando, até que finalmente conseguem encontrar o atalho daqueles pomos. Delicados com suas auréolas rosadas, cálices abertos para mim. Abriram-se em botões maravilhosamente tensos, que saboreei com um prazer pagão, sem nome. De sentir em minha boca a tensão de um corpo parecido mais e mais com o arco dessa besta.
Envolvido neles, continuei me movendo para o nosso novo centro de gravidade. Cada vez mais quente cada vez mais parecido com o portal de um paraíso, que anunciava e repetia todos os segredos do mundo.
Assim que, descontroladamente, encontrei-o, não estava mais aqui. Estava viajando numa corrida alucinada em direção à Vênus, tentando descobrir quantas luas existiam por lá. Não sabia mais se me contentava com as duas encontradas e transformadas em seios, ou se me entregava ao calor morno e feliz que se emanava do encontro das suas pernas longas, firmes e delicadas ao toque. A exploração do centro fez-me esquecer temporariamente do demais. O céu estava ali mesmo, não precisava mais buscar o horizonte.
Sempre me mantendo atento aos seus menores movimentos, encontrei a fonte do seu segredo, tão defendido, tão demoradamente procurado. E, ao primeiro toque, descobri o quanto era correspondido. Tudo se liquefez. A fonte de nossa vida se mostrou naquele momento. Água de beber transformada em suco da vida.
Encontrei o que jamais vira. A minha vida de explorador foi recompensada pelo momento de êxtase. Descobrir que toda a minha tensão encontrava um correspondente em seu corpo foi a maior descoberta.
Imediatamente, em mim escorria o mesmo sumo que encontrei em você. Descontroladamente, tentei unir as nossas latências no que fui impedido, sem uma palavra sequer, apenas um pequeno toque de mão.
Mão que apertou a mim e ao meu pêhnihs com um carinho desmedido e me pediu que não terminasse a minha missão. “Não, agora não, espere”. Essas palavras foram ouvidas como um verso imperativo.
Tentei controlar-me, com uma dificuldade terrível consegui. Estava à beira de uma explosão de nervos, correndo para não cair, voando para levantar e esperar. Estava cego pelo desejo.
No tempo de aberturas, várias, amplas e diversas, sua boca desencontrou-se da minha e me abocanhou. Um bom-bocado rígido, vermelho, a verdadeira espata do antúrio, com nervuras grossas como dedo, dando-me a sensação de ter penetrado um mundo de cetim. Sua boca ficou acetinada e parecia uma luva para mim. Enquanto isso, eu explorava todo o seu íntimo, com um ímpeto que tinha que ser controlado, pois temia que algo se rompesse com a minha violência. Violência indicada pela pressa não chamada; pelo medo do tempo terminar. Jamais encontrei tanto desejo, tanta luxúria num simples toque, numa simulada síntese e fusão.
“Paciência”, você me pede. Tremendo em mim mesmo, tento entregar o pedido. Não consigo, não conseguirei, vou fracassar, sair do turbilhão, da fúria do mar, da névoa iridescente da água brava, para a calma do lagamar? Vou fracassar… Não.
Interrompo tudo, os nossos corpos estavam praticamente agarrados e confundidos num só, mostrando o que é a verdadeira entrega.
A entrega é a letra H.
Letra que sozinha não muda nada, não tem som algum. O seu som é fruto da associação com outra letra. Somente o conjunto faz uma diferença, é outro ser. Formávamos um agá. No início era um agá, vai se extinguindo, a ligação entre as paralelas, acabará por sumir. Fundir. Sumir, como?
Nesse frenesi de bocas, frutas, grutas e antúrio. Agora prestes a um estouro, retomamos aquela alegria primitiva aonde vejo pela primeira vez a fêmea em que você se transformou. Decisiva, deitou-se nua e longa, com pernas e flores convidativas, a saia jogada para cima, mostrando o caminho, pegou com suas mãos aquele êmbolo fervente e furioso e de cetim passei ao túnel de seda. Encontrei todos os sentidos do tato em dois caminhos, fiz a minha rota do cetim e da seda. E com movimentos impulsivos, rápidos, rígidos, cada vez mais violentos, encontrei numa resistência macia, numa profundidade jamais encontrada, o meu final. Encontrei-me perdido. Desfrutei para me perder, para jamais esquecer. Esperara anos e mais anos para fazer a rota das especiarias. Encontrado o caminho me perdi. O êxtase é uma queda. É um abismo que jamais encontrei igual. Voragem do nada.
- Gostou da minha descrição do ponto H?
- Não sei. Talvez esteja um pouco exagerada. Longa. Excessiva.
- Pois é, liguei pra compartilhar.
- É?
- Você está com sono?
- Mais ou menos.
- Pensei em deixar você ligadona.
- Já falei que você escreve bem. Mas não o suficiente, sei lá. … Preferiria que você catasse moedas em vez de palavras. As moedas são mais simples, com valores conhecidos e reconhecidos por todos. Algo mais universal.
- Não me dá prazer. É só obrigação de ganhar o pão.
- Você vive no mundo da lua. É um saco. É pouco prático. Nós sempre estamos por ai, rodando. Você no máximo chegará a gerente de banco, como eu. Que futuro é esse? É o que você quer?
- Meu tempo se distribui assim: um quarto pro trabalho, outro pra você. O resto é dormir, ler e escrever.
- Tá vendo?
- Bem, vou reler, ta? Ouça a música das palavras, e dê alguma sugestão.
- ….
Reinicia a leitura do texto, com toda calma e ênfase.
- Que tal?
-….
- Amor?
-….
- Você gosta de mim, e não é apaixonada …
