Morlock

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday April 30, 2008

 

Sol queimando sobre a Califórnia. O bar estava no topo de uma ladeira em cujo final se avistava a faixa de praia como um colar para o mar azul e majestoso; mais ao longe uma baleia saltava e se exibia circense para os banhistas que se apinhavam no local. Um salva-vidas que havia feito uma ponta num seriado de tevê e reinava sobre os jovens, contando suas peripécias.

No bar a claridade não penetrava foi deixada lá fora; talvez obstruída pelas persianas ou por sua dimensão exagerada. Um odor azedo pairava no ambiente. Bem no centro uma mesa com quatro pessoas, que formavam dois pares. Um homem aparentando vinte anos mais da mulher loira, de pele muito branca e sardenta que o acompanhava. Um rapaz de seus vinte anos, magro, tatuado, com cabelo azul; e, finalmente, outro menino com cabelo vermelho, piercing na língua, um boné de lã, meio mole, largado no topo da cabeça, desafiando a gravidade; no máximo dezoito.

“Acho uma tremenda sacanagem perder o emprego por isso”, disse o azul “afinal de contas qual o problema das pessoas com o sexo, com transa, com ele?”

“Essa história é muito complicada”, disse a moça, “todos nós temos algum problema com o exibir pura e simples, eu mesma, só consigo tirar a minha roupa com ele – apontando, com o queixo, o homem– no escuro. Nele vale tudo”.

Retrucou o azul: “Mas ele não faz parte do corpo? Ele é tão bonito quanto um braço, um baço, um queixo, pinta ou uma bu…da, não há nada demais. O perigo vem da cabeça e do pensamento”.

“Olha aí, gente”, falou agora o vermelho, “não adianta nada ficar falando dessa me..da, o bonitinho aí, perdeu o emprego. Pra carreira, isso não conta nada, era um trabalho de boy, num lugar vagabundo, cheio de gente chata e burra, tudo, periferia -  tá sabendo?”

“É, e todas as meninas me ajudaram. Pensei que elas estavam gostando da brincadeira. Tiramos um monte de fotos dele, bem durinho, exibido,de todos os ângulos e pusemos num arquivo, na rede, com o nome “Histórias do Zézinho”. Todos viam e gostavam. Riram um monte, me incentivaram. Aproveitei para colocar uma foto do nosso – olhou apaixonado para o vermelho – beijo, e outras dando um rolê. Aquelas que tiramos aqui, olhando na direção do banheiro.”

“Como é que a coisa estourou?” perguntou a loira.

“O carinha que cuida da tecnologia, pegou e mostrou pro chefe. E aí, já viu né? Fui chamado pra explicar. E prometi não publicar mais isso. Meu acesso aos computadores foi cortado. E tudo bem. Aí, sem que eu soubesse … direito, meio na moita, alguém republicou com o nome Príapro, o regresso; foi a conta. Reincidência.”

“Já te falei que isso não é nada. Deixa de onda, consegui um teste num estúdio pra você. É na marra que você vai virar modelo ou ator, qualquer um dos dois. Ou ambos. É bonito, musculoso, se cuida, e sabe cuidar como ninguém. A receita é de sucesso. Eu, vermelho, você azul, a Giovana branca, juntos formamos a bandeira da América, e todos adoram, beijam e lambem, por aqui, a bandeira.”

O homem, que assistia a conversa serenamente, foi interrogado com os olhares para dar uma opinião. E o fez assim:

“Tenho temperamento feminino e preciso ser amado. Sofreria muito com isso. Vocês são masculinos gostam do hostil. A pulsão do sexo em mim também é forte demais, mas felizmente ela se manifestou como na maioria. Não creio que seja pornografia o que você fez, também não tenho nenhuma atração por corpo masculino, vejo beleza nele, mas se alguém mais estiver olhando comigo, passo rapidamente pelas imagens e me concentro naquelas que além de belas, me atraem, despertam em mim o desejo. O corpo da mulher. E assim você deverá proceder. Faça o que manda seu coração, e não compartilhe com ninguém mais, até ter a certeza de que ele é igual a você, ou respeita as opiniões alheias. Aqui, ou mesmo, de onde viemos, o respeito a opinião alheia não é muito a moda. Quem sabe isso muda.”

Abriu o livro, grosso, capa dura, papel acetinado,  que tinha consigo e mostrou uma página.

Regra dos quatro padres – séc. V: Se alguém for descoberto rindo ou fazendo piadas (…) ordenamos que, por duas semanas, este homem, em nome do Senhor, seja reprimido, de todos os modos com o látego da humildade.”

Fechou-o. Levantou-se; e convidando Giovana:

“Vamos para o Hotel, meu amor?”

Recebeu como resposta uma piscada de olhos.

 

 

Walser

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Monday April 28, 2008

Não é comum escrever pedindo notícias suas. E não o faço agora. Escrevo para pedir-lhe que na próxima folga visite Berlim e investigue uma fortaleza remanescente da segunda grande guerra, na região norte, a antiga Berlim Oriental. Afinal de contas você está na Eslavônia, não tem nenhum problema com o idioma, e você, meu irmão, está infinitamente mais perto do que eu.

Ontem assisti um documentário mostrando as colinas da cidade. Aquela que costumava ser plana e com solo arenoso, agora tem várias colinas espalhadas. Fiquei intrigado com isso. Aos poucos fui informado que após o final da guerra os aliados após destruírem oitenta por cento da cidade, tiveram problemas com o entulho. Milhões de metros cúbicos de areia, cimento, argila, ferro em pequenos pedaços e blocos tinham que desaparecer. O que fazer com isso? Naquelas quantidades estratosféricas?

Tiveram uma idéia, a mesma que tínhamos quando pequenos, levar a sujeira para debaixo do tapete. Assim amontoaram os escombros em terrenos baldios e fizeram um monte; o cobriram de uma grande quantidade de terra. Sobre a terra plantaram árvores e plantas. Aí está, depois de algum tempo, tiveram uma belo cerro sobre a qual puderam contemplar a sua obra. A de reconstrução, quero dizer.

Entretanto na parte oriental da cidade existia uma fortaleza construída em local estratégico, para observar os movimentos dos inimigos quando viessem pelo oriente. Ela foi construída com tais requintes de arquitetura e engenharia para ser indestrutível. Possuía uma quantidade de ferro e cimento simplesmente inimaginável. Com capacidade para resistir a qualquer intempérie. Mesmo uma guerra.

Com o desenrolar dos acontecimentos, o forte foi também transformado em escombros?

Não. Esse não. Apenas em parte. Os aliados tentaram destruir de todas as maneiras possíveis a construção. Gastaram toneladas de TNT. Nada. Atingiram a parte sul, puseram-na no chão. Pararam para refletir e concluíram que o esforço para demolição não seria compatível com o resultado. E, para evitar problemas com desmoronamentos posteriores, deixaram o remanescente em pé, cobrindo o restante. O resultado foi um morro atrás de um portal de entrada, parcialmente arruinado.

Os repórteres conseguiram entrar, encontraram sapatos, cenouras em lata, passearam por alguns corredores, concluíram que estavam dentro de uma pequena cidade onde habitavam cerca de três mil habitantes. E prometeram voltar, para saber dos seus segredos. Previram que daqui dez anos, teríamos muito mais notícias sobre a construção e seus segredos.

Esta noite não consegui dormir. Fiquei angustiado com essa notícia. E com a imagem que não mais saiu da minha mente.

O pensamento de uma era - a arquitetura física e mental - foi completamente transformado em ruínas; em pequenos pedaços e enterrados? Cobertos para que aprendêssemos a lição.

A inteligência que construiu essa fortificação conseguiu transformá-la, pelo menos em parte, como idéia indestrutível? Não conseguiremos jamais destruí-la? Apesar dos avisos, indenizações, livros, filmes e novelas?

Verifique se isso tudo é verdade, por favor, ou se os fatos não estão deturpados.

Por aqui – o deserto de hábito. Não temos ruínas. Mas, tive duas boas, aliás, ótimas notícias. Foi publicado “De verdade” do Sándor Márai e amanhã pego “Austerlitz” do W.G.Sebald.

Abraços,

Robert.

Ada

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday April 24, 2008

Numa península, um passeio pelas alamedas. Condomínio onde mora meu irmão. Estou com minha mãe, (estudar enfermagem aos setenta; tô boba, colega) minha filha e o mar.

- Olha uma alquemila; essas folhas são sanícula-dos-montes, conhecida como quebra-pedra. Chegaram num jardim com vinhas virgens, madressilvas, clematite e hera. Essa aí perto da fonte é uma saxífraga-dourada. Que cor, né? Parece ouro e só aparece perto das fontes d’água.

(Troquei minha liberdade por um emprego mecânico, bração, poucas horas, deixa a cabeça livre pra sonhar com o vento. A oferta de pagar bem por seis horas, me raptou. Arranjei um lugar onde não se trabalha aos domingos e dobro o meu horário na sexta, para folgar no sábado; dessa forma estou livre no final de semana para velejar. Essa é a minha verdadeira paixão.)

- Mãe, como você sabe tanto nome de planta?

(Estudar? Estudei. Mais do que o suficiente. Nada que fiz me deu algo de útil para aplicar na vida. Alguma dica de psicologia. Uns truques de educação física. Nunca me importei com a imagem. Aliás, me preocupei um pouco com o físico, tenho medo quando a idade me tirar de cima da prancha.)

(Se eu fosse enfermeira quem sabe ele não teria morrido. Também pudera; como um advogado tão bem sucedido poderia subir numa Ducati Desmosedici RR, e fazer trezentos e vinte oito quilômetros por hora em linha reta? É vício em adrenalina. A filha dele é igual. Que destino, o meu. Resta-me compreender.)

- Gosto de natureza não sirvo para viver na cidade.

(Sirvo pessoas e me carimbei disso. Posso ter me impressionado com a educação das pessoas, sorridentes e afáveis. Senti; o sorriso era para que a comida chegasse logo, para que talvez eu esquecesse de anotar o pedido, e durava até chegar a conta, e o raro que vencesse a barreira do terceiro fosso, para esse o prêmio deveria ser a cama, a minha, claro. Na maior parte do tempo atendi pessoas, aparentemente ricas, com dinheiro, mas sem educação e respeito. Com uma dose de prepotência que mexeu comigo como a onda do mar, não adianta ir contra ela, se subir, subo. Se descer, desço. Faço uma tarefa como o ponteiro do relógio. E isso não basta para o cliente. Ele sempre quer mais. Devo procurar alguma coisa que não existe. O talco até que é simples. Pedir um analgésico também. Porém, não pára por aqui. Agora devo comprar cigarros, sempre mais, saber nome daquele cliente, daquela mulher. Que saco! Tentei recusar educadamente. Sorrindo. Deu certo! Só até o pagamento da conta. Ela passou a voltar sem o serviço. Trabalhava por dez por cento. Era só por isso. E perdi. Diante desse dilema tive que optar. Antes, falei com o chefe. Expliquei a situação. Ele, felizmente, concordou comigo. E disse: “Assim é o nosso ramo. Não posso fazer nada. Por isso te ensinei a venda. Você é vendedora nata, nada além; trazer e levar é disfarce. Venda. Venda. Quem diz a verdade, merece castigo. Não fui eu que inventei a roda. O público pede, se não tem: minta. Em Roma, faça como os romanos”. Putz, virei do avesso. Fiquei p u t a da vida. Saí de lá. Na hora. Fui para um lugar melhor, mais chique, cismei de tratar com a nata. Não, com a nata da nata. Investi um pouco da minha economia em novas roupas, novo fiquei confiante. Só durante os primeiros meses. Logo depois percebi que mosca mudou, a m e r d a era a mesma. De tanto lidar com nata, aumentou o meu colesterol. E, perdi meu sábado tão querido. Ao trabalhar e ouvir o vento rugindo, sentia uma dor de estômago terrível; maior do que a causada pelo ambiente servil, abjeto. Sempre dez por cento. Se quisesse mais, teria que trabalhar mais. Eu quero uma vida decente. Não quero ganhar mais.)

- Ada, você é muito egoísta, deveria pensar na menina e ficar em São Paulo, a educação e as amizades são melhores.

(Namorei um cliente. Não consegui ultrapassar a barreira do preconceito. Lá servir é pecado. Não falou do meu ofício. Era velejadora, amiga de um campeão olímpico, cujo irmão é chamado de macarrão, e caía na risada. Sem roupa somos iguais. Com roupa, não. Prefiro os meninos da praia. Todos são meninos, em qualquer idade. Incrível.)

- Mãe, depois falamos, tá? ‘Tou conversando com ela.

Disse a filha:

- E o mar - mãe - é natureza? Ou natureza é só floresta?

- Mar é liberdade. No mar cada um vive só para si. A gente só compete consigo mesma.

(Voltei ao meu emprego. Olho de fora para a minha vida. De todas que eu sou descobri e identifiquei duas. Uma que é atriz durante seis horas. Sorriso plástico. Seja lá o que aconteça, ele aparece. Corro fisicamente para pegar alguma coisa, o espírito não sai do lugar. Só o necessário para receber meu pagamento. Não consegui nenhuma experiência realmente humana nisso tudo.)

De repente, minha filha se abaixa e pega um copo plástico que um menino deixou cair – propositalmente - no chão e grita:
- Pode deixar que eu jogo no lixo…

E saiu correndo, dizendo:
- Óh mãe, não gosto daqui não, aqui é bom pra passear. É gostoso nas férias.

O irmão vestido de branco, apareceu lá em cima, emoldurado por um portal de mogno, e acenou, chamando as três para o almoço.

Pasticho

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday April 18, 2008

- Amar duas pessoas ao mesmo tempo seria moralmente inaceitável? -

Virginia desligou o telefone; “o seu pedido de aumento foi negado, estamos estudando a sua transferência, nada foi decidido”; colocou o Ipod, cruzou os pés sobre a mesa, ajeitou os óculos de lentes grossas; “recusaremos sua matrícula por atraso nos pagamentos”; afastou o seu obituário cotidiano, e passou os olhos no texto com esse título estranho, e leu:

“Não existe nenhum problema em amar duas pessoas ao mesmo tempo. Conhecemos o amor através de várias perspectivas, hoje em dia falamos do amor urbano, moderno. Essa linha do tempo foi libertando o sentimento das suas amarras, ele foi ficando mais livre, mais aceito, entre parceiros diferentes, um ou vários, do mesmo sexo, do mesmo grupo.

Creio, entretanto, que o amor requer tempo. O amor filial abrange uma vida, no tempo; é além dela. Dura a vida do homem. Não amo hoje, amo para sempre. Amamos para quando não estivermos mais aqui. Talvez tenhamos atitudes aparentemente contraditórias hoje; mas elas valem para o eterno.

O amor pelo outro, é muito mais complexo. O homem se partiu, despregou-se daquele iceberg que é a humanidade e descobriu-se: uno, indivisível, imerso. Deixou de olhar apenas em torno e passou a olhar para si mesmo. Voltou sua mira para o interior, e dentro de si encontrou outra multidão nas bordas de um rio interior. De quando em quando, convida uma delas e a incorpora. Esgota as possibilidades daquele momento e a devolve. Logo mais adiante, pega uma outra. E, não raro, elas são muito diferentes entre si. Mas todas elas têm o mesmo rosto e o mesmo corpo. É uma contradição dramática.

Essa viagem feita a dois é o resultado dessa imagem para o amor. Cada um dos ocupantes escolheu alguém para fazer parte daquele passeio. Ambos dedicam seu tempo para descobrir. E esse tempo não mira o infinito, mira o presente. O tempo cronológico não bate com o tempo de cada um. Cada um tem o seu. E é nele que os personagens têm que encaixar. Encaixe que significa prazer e felicidade.

Vários personagens, vários tempos, um único bote, um passeio que começa no interior de cada um e busca o interior do outro. A paisagem pode atrapalhar. Outros botes. São muitos os fatores que conspiram contra. Se deixarmos que o tempo resolva somos assaltados pelo tédio que um longo passeio dá. Se fizermos as contas diariamente, somos aterrorizados pela solidão de um barco vazio deixado à deriva.

Esse roteiro é uma bobagem simples. Tente você abrir as outras potencialidades dele. A questão de uma outra pessoa nos interessar simultaneamente; significará um simples passeio num outro barco; esse barco se revelará miúdo, o rio em que corre é raso, ou grande e confortável e o leito suporta o calado? Quem escolhe primeiro o barco? Ninguém sabe a resposta. Não é a moral – perdemos a imortalidade -, nem a religião, muito menos a ciência que têm a resposta. A resposta está em você, na sua viagem, no seu leito de rio. Tudo deve desaguar no oceano da felicidade. Mesmo que essa foz se revele, no mais das vezes, lodosa e ansiosa para agarrar no fundo do barco e deixá-la estagnada. Por muito tempo, tempo que, descuidadamente, não temos mais. O que posso é desejar: boa viagem.”

Parou por um instante para pensar como posso catalogar isso? “quando terei o meu próprio carro?” E jogou o papel pra lá. Vou colocar como horóscopo. É isso. A pergunta exige apenas uma resposta: O seu homem não está correspondendo? Troque; escolha outro. Ele não comparece? Troque. Isso acontece, “Cartola” simplesmente acontece. Ninguém manda no seu próprio coração. Se houver necessidade de vários, não hesite. Faça. Não sei por que as pessoas complicam tanto. Esse texto parece escrito por mulher. Vou checar.

Vi o papel assentar-se sobre um livro aberto, encadernado em couro marrom, página duzentos e noventa e quatro, sublinhada à lápis; aproximei-me para ler o texto:

levo comigo,….; a condenação de ser vizinho igual, perante o senhorio e o sítio, dos outros inquilinos do aglomerado, espreitando com nojo, por entre as grades traseiras do armazém da loja, o lixo alheio que se entulha à chuva no saguão que é a minha vida.”

Suburbano

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday April 16, 2008

Subúrbio. Rua Rosa e Silva. Grajaú. Rio de Janeiro. Essa é a melhor introdução para apresentar essa pessoa. Distante do centro, filho de um Rosa e de uma Silva, com influências indígenas, morando numa cidade com o nome de rio que não era rio, parecia um. Assim era ele. Emergiu de uma peste com algumas seqüelas, saiu dali para São Paulo. Cresceu. E nunca mais saiu.

Sancho foi seu primeiro amigo. Trabalhador; incansavelmente atrapalhado em tudo que fazia. Pronto em todas as horas. Trabalhavam juntos. Uma liberdade integral, em tempo integral. Conheceram as primeiras namoradas. Sancho foi traído pelo amigo. O suburbano não resistiu à tentação, ao mel do sexo, à luxúria. Caiu sem trinta dinheiros.

Voltou ao estudo. E na faculdade encontrou seu segundo amigo. Nascido em Caxambu, filho de família dona de muitas terras que despachou seu filho para estudar na capital do seu mundo. Sempre com sua maleta de executivo, possuía uma expressão desconfiada que não o abandonava, em nenhuma circunstância. Conheceram as segundas e outras namoradas, agora mais reservadamente. Cada um no eu canto. Os encontros conjuntos escassearam. Tinham mais o que fazer. Conheceram todos os motéis da barra.

Estudavam e trabalhavam quando necessário. Passeavam todo o tempo disponível. Voltaram ao Rio. O suburbano conheceu uma cidade desconhecida. Encantou-se com Copacabana. Túnel dois irmãos.

Repentinamente lembrou de Sancho e prometeu-se jamais cometer outra traição. Talvez motivado pelos olhares femininos, ou pelo olhar do enviesado do amigo. Ou ambos.

O segundo amigo conseguiu trancar a matrícula e se mudou para a Suécia. Foi trabalhar. Numa fábrica de papel em Göteborg. Deixou a namorada da ocasião, para o suburbano cuidar; ficaria apenas alguns meses e, estava profundamente apaixonado.

Assim fizeram e combinaram. Suburbano pediu ajuda ao Sancho e viveram alguns meses passeando pelos teatros da cidade. Conviveram sempre em três. E, ainda assim, na correspondência trocada tiveram uma briga tremenda. Essa situação de passeio era suspeita. O amigo sabia da vida, essa balela de amizade e passeio em três era conversa pra boi dormir.

Terminou o compromisso por carta assim como deu um basta na amizade.

Voltou depois de tempos, após passear pelo interior da França, gastar todas as economias num cassino clandestino em Londres; procurou seu amigo do subúrbio e o convidou para sua casa e apresentou sua primeira mulher. Uma paraense que encontrou na vindima.

Brigou com ela também, ruidosamente, atabalhoadamente. Saiu para estudar na América; durante sete anos, licenciado, mestre, doutor na filosofia da coisa. Casou novamente. Precisou de dinheiro para isso tudo e pediu ao amigo. Quando voltasse tudo iria se arranjar. Como de fato se arranjou.

Agora de volta, retomaram a amizade de antigamente. Acertaram os ponteiros, ouviu e concordou com a versão do amigo suburbano. Não se sentiu mais traído. Aquiesceu.

Assim que tivesse uma folga nas finanças devolveria todo o dinheiro que emprestou. Estava tudo anotado. Não havia motivo de preocupação, afinal de contas a dívida era em dólares, não desmancharia com o tempo.

Encontraram-se para conhecer as mulheres. Trocar impressões familiares. Afinal de contas, agora eram homens. Conseguiu um emprego de professor doutor numa universidade, aliás, em várias, para poder manter um padrão digno de vida. Demitiu-se de uma quando se viu obrigado a aprovar um aluno autista. Trocou por outra no interior.

Passou a ser um taxista do ensino, levava o conhecimento para os mais distantes pontos e recebia por isso.

Retomaram o ritmo de anos atrás, mas conversavam sozinhos; contou toda a sua aventura em Nova York, das amizades que fez, dos lugares que estudou, das dificuldades que enfrentou. Ao final de cada conversa, retomava a questão da dívida, e o amigo dizia que não se preocupasse com isso.

Falou do seu frágil inglês, apropriado para aulas em sindicatos, nunca em escolas. Contou da beleza das mulheres no verão norte-americano. Na quinta avenida, por exemplo, ele se lembrava de Ipanema. As roupas eram apenas um detalhe esvoaçante cobrindo os corpos semidespidos. E, como de regra, a dívida era retomada e o assunto afastado pelo amigo.

Conseguiu participar e depois promover congressos ao redor do mundo, Inglaterra, Índia, Estados Unidos; e almoçava com o amigo. Trazia o vinho e conversavam, trocavam reminiscências, do clima entre professores. Das disputas. Dos concursos feitos para que um só ganhasse.

Os vinhos que tomavam vinham das vinhas da África do Sul, local do seu último congresso. Aquele ar de desconfiança aos poucos desapareceu.

Nunca mais falaram do assunto da dívida.

Urbano

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday April 10, 2008

Saiu do norte de Minas, daquela cidade que não constou do mapa quando falou para seu chefe do seu lugar de nascimento. Descobriu que era pequena e pobre. Pobre, desconfiava pela vontade de sair que o dominou a partir dos doze anos. Saiu gradativamente. Primeiro saiu da escola, tinha que ajudar a família na roça. Trabalhava apenas trabalhava. Jamais recebia. Depois da roça e passou a cavar valetas em São Paulo. Finalmente saiu deles todos; não mandava ajuda alguma. Cultivou o hábito de gostar do dinheiro. Não o gastava por nada. Só o necessário. E o necessário era muito pouco. Pouco mesmo.

Cavou durante a construção de uma avenida. Lavrando criou músculos e disposição, batia todos os colegas, apesar de ser miúdo. Era reconhecido pela resistência. Dotado de raras, mas grandes qualidades. Sorria. Sorria muito. Quando estava alegre, ou triste. A sua face era uma paisagem sorridente, em qualquer situação.

Deixou de cavar por uma fábrica. Dez anos. Trabalho fácil, para se cansar, fazia sexo, jogava bola e andava. Descobriu maneiras criativas e alegres de se cansar. A sua força e vitalidade impressionava.

Com o passar do tempo comprou uma bicicleta. Jogava futebol apenas no final de semana. Antes de partida, se aquecida dando voltas ao redor do campo. Era o seu condicionamento físico. E acabou se casando com uma mulher trabalhadora, cozinheira de mão cheia, deu-lhe muito prazer, liberdade de invenção na aeróbica da cama e, filhos. Muitos.

Graças ao seu sorriso passou a trabalhar como vendedor. Comprou um carro. Comprou uma roupa social, e tudo mudou. Tendo o carro, roupa como aliados do sorriso, não só vendia como recebia ofertas diárias de sorrisos femininos. E nunca os deixou desapontados. Namorava. Descobriu que podia namorar muitas mulheres, desde que elas não soubessem uma da outra.

Carro zero. Novas oportunidades. Inimagináveis. Trabalhava muito, só vendendo. Incansável. Não fazia esforço nenhum, o sucesso era do sorriso e da calma. Com as mulheres descobriu que a aeróbica era de principiantes; conheceu: Step, Body Fit, Localizada, Manutenção, Ginásio Musculação, Cardio Fitness, Cardio Vascular, Yôga, Funk e Street Dance. Cada professora com uma especialidade. Uma mais linda que a outra. Pagava para se cansar e se divertia como nunca.

Arrumou-se com uma professora de Tantra Yôga. Enroscou-se definitivamente. Apaixonou-se. Dividiu-se em dois. Para atender a instrutora de aeróbica e a yogini. Do segundo e simultâneo casamento teve também uma filha. A yogini sabia do todos os seus compromissos anteriores, e não exigiu a dissolução do primeiro casamento, exigiu desempenho, segurança e companhia.

Trabalhando, vendendo, comprou uma moto para os finais de semana, alemã, com muitas cilindradas e de muitos dólares. Levava a sua vida assim, feliz.

Um dia sentado no sofá de sua casa, de braços com a segunda mulher, atendeu a campainha da porta e deu de cara com a primeira. Tentou negar as evidências, para evitar o escândalo, fez com que entrassem: ela e os filhos. E ali parlamentaram. Conversaram sobre tudo. Em alto e bom som. Fúria. Raiva. Traição. Canalhices, covardias, eram as palavras que os vizinhos até cem metros podiam ouvir. Não se ouviu a voz dele. Calmo e sorridente. Esperou passar o tempo. Horas depois, a turma se separou e a primeira mulher saiu acompanhada dele.

Passado um tempo, foi chamado pelo chefe para assumir a gerência das vendas. Assumiu a melhor expressão e aceitou. Passaram a conversar a respeito do que deveria ser feito dali por diante. Subitamente, o chefe mostrou o jornal que dizia:

“BAZAR DOS BENS DE ABADIA ACABA EM CONFUSÃO.”

- Como é que pode; né?

O mineirinho leu em voz alta e titubeante aquela manchete em vermelho e negro. E as palavras bazar, bar, loja, abadia, igreja, acabar e confusão não faziam o menor sentido, juntas. Limitou-se a concordar, gesto acompanhado do seu melhor, quase uma risada.

Assumiu com sucesso a chefia, as duas famílias, duas casas, uma bem longe da outra, com escala de horários, e tabela anual de férias compartilhadas de quinze dias cada. Abriu uma empresa de comunicação para o filho mais velho, como sócio majoritário e colocou a mais nova na escola de dança da prefeitura de Osasco.

Cobrador

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Monday April 7, 2008

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Solitário, constantemente passeava com Jéssica, que conhecera na entrada de um salão de beleza. Loura com algumas raízes, busto empinado e vulgarmente agressivo, alta, pernas longas, rosto simétrico, estudante de direito. As conversas eram sempre de coisas sem importância. Ela querendo saber mais, ele querendo saber menos. Quando ela insistia em sair do carro e passear um pouco a pé, ele escolhia um shopping distante e pouco freqüentado. O que ele gostava mesmo era da segurança do carro, passeavam pelas ruas do bairro onde ela morava. Faziam ou fazia um sexo oral e seguia para casa dormir. Feliz, satisfeito por encontrar uma competência silenciosa como essa, resumida num par de lábios cheios, gulosos e mendazes.

Como solitário e herdeiro, passava os dias contando seus interesses, procurando melhores oportunidades de investimento. Nessas andanças conheceu um rapaz ruivo, cabelo curto e espetado; vestido sempre com calça de brim e camisa xadrez, botas com bicos extremamente finos e prateados denunciado sua chegada, uma síntese: vaqueiro urbano. Barba sempre por fazer, dava um aspecto enevoado ao seu rosto fino comprido, os seus traços pareciam espremidos dentro daquele espaço. Cobrava. Fazia cobrança de faturas para seus clientes, e apresentou seus serviços. Máicon.

Recebeu um telefonema de Zuleika, pedindo ajuda. Um imóvel de seu tio – um tio muito querido, no fim da vida, e sem outros herdeiros - estava ocupado por estranhos. Ela não sabia como resolver, e preocupada com isso, lembrou-se de ligar.  Ficara viúva muito cedo, mãe de único filho, sem nenhuma prática comercial. Gabava-se de ter boas relações e de não ter jamais jogado nenhum tostão no lixo. Fazia todas as suas viagens, gastando um mínimo e aproveitando o máximo. Conhecia cinqüenta e seis países do mundo, só fazia compras no exterior, onde houvesse magazine com itens XG no estoque; em síntese, era impossível comprar mais barato do que ela fazia. E, mesmo com todas essas habilidades, não tinha a menor idéia de como fazer para evacuar um imóvel ocupado por alienígenas.

(Que saco. - Pensou. Apenas pensou. E se lembrou do Máicon. )

- Vou tentar resolver, falarei com um conhecido. Quem sabe ele resolve a questão. Me dá o endereço.

Conversou com o vaqueiro. E combinaram de passar no local para ver o que poderia ser feito. Assim foi feito. Encontraram o imóvel com a aparência absolutamente normal, precisando de uma pintura. Com suas colunas e mansardas, lembrava tempos de opulência. Desceram e caminharam, deram uma volta, não ouviram nada. Pegaram a chave e entraram. Uma arma entrou na história. Foi empunhada, fosca, assustadora. Ao entrarem, encontraram alguns mendigos deitados no chão, naquela mistura de cobertores, roupas, trapos e odores que lembravam um ninho de ratos.

- Vamu sainu!! Agora, já!! – disse o vaqueiro, colocando a arma no cós da calça.

Ouviu-se um resmungo qualquer. Não chegava a ser uma resistência. Espanto? Medo? Sonolência? 

Identificando-se como policial; imediatamente aplicou uma surra memorável em todos os que estavam lá. Chutou e bateu; um deles não conseguindo se levantar a contento, apanhava, caia no chão e lá ia ele novamente, batia de novo até que ficasse de pé. Afinal, todos em pé, foram conduzidos para fora aos pontapés. Enquanto não os jogou a todos no olho da rua, não sossegou. O fato de não haver resistência deveria acalmá-lo, entretanto, a fúria redobrou, procurava um clima de desvario, descontrole, loucura.

Com todos do lado de fora rodou a chave na fechadura, colocou tábuas com pregos sem cabeça, em todas as portas externas, tiradas do porta-malas e deu por encerrado o seu trabalho.

Entraram no carro, ele e o seu acompanhante, e ouviu dele, entre feliz e assustado.

-Escute. Tenho alguns débitos vencidos, e quero saber quanto você cobra para recebê-los para mim?

- Trinta por cento e despesas. - respondeu - Esse serviço, fica como demo e não vou te cobrar nada - amizade.

Memistória - “Perseguindo Nisus”

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday April 4, 2008

Episódio 8 

 

 

(Tolo romântico…..)

 

(Talvez ela tivesse razão. Imaginar que um segredo dessa natureza poderia ser vendido. E se fosse vendido que eu pudesse tirar proveito disso. E seu tirasse proveito disso, seria junto com ela).

 

- “De agora em diante meu amor, sou um romântico banguela.”

 

- “Esse tipo de humor não ajudará você em nada. Deixe de enrolação e entregue logo o que você nos roubou.”

 

- “Romântico e burro são sinônimos?  Creio que é isso que está atrás do seu pensamento. Pego uma muamba dessa e fico aqui marcando bobeira, esperando a morte que nem a Severina?”

 

- “Não estou entendendo nada.”

 

- “Inteligência nunca foi o seu forte, a pressa, a agitação e a ansiedade, em compensação é da hora. Meu amor.”

 

O patrão interrompeu e disse:

 

- “Olha aí, não estou a fim de encenar filme de James Bond, não quero perder tempo, não pretendo nada além daquilo que é meu. Essa punhetação não vai safar ninguém. Me entrega essa merda e pronto. Vão embora, juntos, separados, não me interessa. Aliás, essa sua esperteza besta já me encheu. Onde está o bagulho? – perguntou rosto colado no rosto.”

 

- “Já disse, - respondeu Nisus, seguro e frio -  não vou entregar nada se não tirar proveito disso. Pouco me importa se você ou outro. No próximo, distante ou remoto. Se oriente rapaz.”

 

- “Seu jogo de palavras enche meu saco. Sabe o que vou fazer? Largar você aí. Até que a sua fome decida por você. Espero uns dez dias. Tenho exatamente esse tempo. Vamos ver se você é macho mesmo. Fecho a porta agora, veja que ela tem um buraco na altura da sua boca. É pra você falar enquanto puder ficar de pé. Quando não puder falar alto, ou não puder colocar a boca no buraco. Está acabado pra você. Filme americano tem segundos para resolver. Você tem dez dias. Se muito.”

 

Ninguém naquela sala, ou buraco frio e gelado, falou nada. Uma borboleta borboleteando faria um ruído insuportável.

 

Passo a bola para a escritora DaniCast

Acompanhe desde o início:

Leia antes:
Episódio 1, por Alex Primo
Episódio 2, por Gabriela Zago
Episódio 3, por Marcos Donizetti
Episódio 4, por Olivia Maia
Episódio 5, por André Gazola 

Episódio 6, por Daniel Lopes

Episódio 7, por Daisy

O avesso

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Thursday April 3, 2008

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Depois de haver lido uma, duas ou três vezes a folha desamassada, papel com um título “François Villon”, percebi que no verso existia um manuscrito à lápis, e creio – a letra é horrível – que diz: 

“ Saquei uma foto de uma cena na vida da minha cidade. Estamos marcados pelo desamor. Uma cena de amor é, geralmente, desprezada. Presenciei uma dessa, mas ela foi vivida por um casal pobre, numa rua da cidade. Uma cena imprevista hoje em dia; uma mulher que escolhe um catador de papel para seu marido, e não se importa de ser carregada por ele e deixada num ponto de ônibus.

Os pobres são esquecidos e desprezados por viverem ainda na Idade Média. E vivem mesmo, se considerarmos que não sabem nada, quase nada, o suficiente para comer, às vezes. Mas sentem. Algo que nós outros – os que sabem - temos saudades; fiquei maravilhado.

Logo em seguida encontro uma pessoa que me pede uma esmola. Jamais fiz isso porque eu sei que é um incentivo à vagabundagem. Mas ele é velho, fala bem, parece um poeta, e, por fim, vende sua alma com um elogio. Sabia que tinha um quinto de chance de acertar, assim mesmo relatou um resultado do futebol. Devia estar desesperado.

Reconheci-me nessa pessoa, tive amor por ela – ou por mim – e dei algum dinheiro para aliviar minha consciência e a sua fome. Deixei de saber por um instante. Senti que estava mais vivo que antes.

E lembrei do poeta Villon que viveu na Idade Média, foi pobre, estudou, soube muito, até não conseguir suportar o lugar onde viveu e desapareceu sem deixar vestígio.

E por alguns instantes revivi a Idade dele na primeira cena, o reencontrei na segunda e tentei deixar esse instantâneo gravado.Por saber que tudo isso é uma bobagem sem tamanho, amassei e joguei fora.” 

Senti que precisava deixar isso registrado. 

François Villon

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday April 2, 2008

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“Que pensar bem é mais prudente,

Como Vegécio assim discorre,

Sábio romano previdente,

Ou alto risco então se corre.”

Nasci quinhentos anos depois de trazida ao mundo essa poesia, e tive como profissão ser salva-vidas. É verdade que observei de um posto camuflado; um só, não o troquei como fizeram outros, para mudar a perspectiva, ou conhecer o mundo. Resolvi, melhor dizendo, resolveram por mim, ficar no mesmo lugar, e mudei a maneira de ver; o que dará o mesmo resultado. Mudar o posto ou o ponto de vista dá no mesmo.

O menor esforço que poderia fazer era ir do catre à cadeira e o fazia cotidianamente quatro vezes. Numa delas, numa fria manhã encontrei no caminho lá pelo meu canto direito, rente à calçada, uma carroça. De madeira, sem nada de excepcional: desconjuntada, com duas rodas cobertas de borracha, cor indefinida pela passagem do tempo, dois varões de madeira. Era puxada por um homem. Magro, digno, com sua roupa velha, não muito limpa, possuía certa nobreza no andar. Fazia o movimento de tração como normalmente se observa, e de vez em quando o peso do conjunto o suspendia no ar, ele se aproveitava disso para tomar impulso para baixo e para frente, e fazia o seu trajeto. Poupava suas energias.

Carregava na caçamba uma mulher. A sua. Ela se acomodou como pode lá dentro, as pernas caindo para fora, segurava com uma mão a borda e com a outra a bolsa. Estava vestida com mais apuro, asseada passada e pronta para o trabalho. Eu o acompanhei até que ele parasse num ponto de ônibus, lotado, onde ela o deixaria com um beijo de despedida. Ele seguiu seu caminho acompanhado por um olhar de ternura dela, até desaparecer da vista.

Estava quase chegando ao meu posto e pondo em dia os meus pensamentos. Acompanhava distraidamente essas lagartas à diesel, articuladas e comprimidas de pessoas até não mais poder.

Numa esquina antes do meu posto, fui abordado por um senhor, velho, alto, com uns óculos redondos de tartaruga, rosto com barba de dois dias, uma camisa que foi imaculadamente branca um dia, abotoada até o pescoço, um colete que dançava em seu corpo, coberto por um paletó desaparelhado com a calça, um remendado, a outra cerzida. Cobria a cabeça com um gorro de lã à marinheira, desbotado e trazia à mão um coador de pano.Branco e sem uso, com aro de metal e o estendeu em minha direção dizendo:

- Será que o senhor pode me auxiliar nesse momento de dificuldade?

Olhei-o fixamente. E fiquei quieto. Estava sem ação, sem saber o que fazer.

- O senhor deve estar feliz, o Santos ganhou ontem. Sete a zero. Parecia primeiro de abril, não é?

Tinha no bolso uma nota de cinco. Ela trocou de dono. Ambos traçamos um sorriso longo, longitudinal, de orelha a orelha como de agradecimento mútuo.

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