Dividir o mundo entre heteros e gays é um conceito ocidental
July 17th, 2008Encontrei um texto acadêmico que explica isso de forma completa e detalhada.
Trecho:
“o conceito de indivíduo “homossexual” só chegou ao Japão no Período Meiji (1867-1912) com a modernização e ocidentalização daquele país (Pflugfelder, 1999). Antes deste momento, no Período Edo (1600-1867), a homossexualidade era tida apenas como um caminho (Dô) de obtenção de prazer. É desta época, por exemplo, o danshoku (ou, em algumas transcrições, nanshoku), cujo significado literal é “erotismo masculino” e que vinha a ser um compêndio de termos classificando diferentes formas de atos sexuais entre homens praticados, principalmente, dentro dos monastérios budistas e da elite de samurais (Leupp, 1997; Pflugfelder, 1999). Gary P. Leupp chega a defender a existência de uma “domesticação” do danshoku, estabelecendo um ethos bissexual masculino no período Edo. Ressalta, entretanto, que essa “domesticação” não se deu isenta de tensões, fazendo referências a textos impressos e manuscritos que naquele momento evidenciavam as reações positivas e negativas, bem como a complexidade da vida urbana durante este período.
Mclelland vai além e demonstra que, apesar das influências ocidentais, ainda hoje pensar a homossexualidade como identidade mesmo no Japão moderno é uma questão problemática, principalmente, em si, considerando as tentativas de compreensão deste fenômeno a partir do olhar ocidental, que tenta enquadrar todos os modelos culturais segundo o seu paradigma. Um dos pontos de complicação apontados por Mclelland está no aspecto terminológico, pois, embora na língua japonesa existam numerosos termos que mantenham referências com a prática homossexual, nenhum deles dá conta da vinculação de uma identidade homossexual. Assim, por exemplo, retomando o caso do nanshoku, temos numerosas classificações segundo o tipo de prática sexual, variando conforme a idade dos parceiros, o status, o gênero com o qual cada parte se identifica, o contexto no qual os atos são praticados, ou seja, trata-se de um inventário de comportamentos e práticas sexuais adotados em uma relação entre homens, mas em nenhum momento transferindo para o ser de qualquer deles. Aliás, vale ressaltar que no contexto japonês é totalmente coerente que um homem que se sente atraído por mulheres, possa vir a se sentir igualmente atraído por um wakashuu (adolescente andrógino) ou por um onnagata (personalização da fêmea) sem que este indivíduo tenha dúvida de sua orientação sexual voltada para o sexo oposto. Do mesmo modo, seria totalmente concebível para um onnagirai (aquele que odeia mulheres) a falta de interesse sexual por qualquer mulher, sem colocar em questão qualquer natureza identitária, podendo simplesmente abster-se do sexo ou masturba-se na companhia de outros homens, mas não sentindo qualquer desejo sexual também por estes.”
Gláucio Aranha. Mangá Yaoi: narrativa e estética da homoafetividade no universo das ‘graphic novels’ japonesas. In: 3o. Congresso da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura, 2006, Belo Horizonte. Discursos da diversidade sexual: lugares, saberes, linguagens., 2006. p. 2-64.
Leiam que vale a pena.






