Deserto

scriptu em Penso? by Djabal Thursday May 15, 2008

Talvez se eu pudesse colaborar, eu colaboraria para aumentar as dúvidas, em seu Momento Reflexivo. As suas e as minhas. Não as certezas, pois entre umas e outras existe o movimento. Acredito que nele nos assemelharíamos aos bêbados. Apesar de não nos darmos conta disso.

Quando estamos parados, estamos como alguém numa poça d’água e água parada gera a peste. Já que temos que nos movimentar. Descreveria o movimento assim:

Quando escrevemos dizemos o que pensamos a respeito de alguma coisa, fato ou questão; de tal maneira que aquele que lê, tira as sua impressão decorrente daquela nossa, e esta por sua vez será fruto de ambas, nem uma, nem outra. Numa espécie de movimento circular inesgotável.

Em resumo, quando eu escrevo descrevo a mim mesmo. Você quando lê, lê a si própria. Entre essa rachadura ficamos nós, os de bom senso, curiosos, aborrascados, aflitos, para encontrar pontos nas bordas daquele rio que é uma miragem.

Um rio que brotasse miraculosamente desse deserto e que nos conduziria até um lugar onde recebêssemos como troco de uma bebida comprada, aquela moeda de vinte centavos, (el zahir). Ela de tanto ser manuseada perderia a diferença entre as diferentes faces e quem sabe nos revelaria o que não pode ser revelado.

Meme

scriptu em Penso? by Djabal Tuesday May 13, 2008

Meu amigo Julio do Digestivo Cultural fez essas perguntas e sugeriu um meme. É uma ótima oportunidade para que todos façam o mesmo em seus blogs. Será uma forma agradável e sugestiva de conhecer melhor a nós próprios e aos nossos semelhantes.

1 - Qual o seu começo de livro inesquecível?

“O vermelho e o negro” de Stendhal


2 - Qual foi o livro da sua infância?

Infância: Irmãos Grimm, Monteiro Lobato; Adolescência: Giselle, a espiã nua que abalou Paris (escrita sob pseudônimo por David Nasser), Aluízio Azevedo: Comecei com “O Cortiço”

3 - Qual o livro que mais o perturbou?
Livro do Desassossego do Fernando Pessoa, através do Bernardo Soares

4 - Qual o livro que você mais releu?

Auto-de-Fé de Elias Canetti e Vidas Imaginárias de Marcel Schwob

5 - Que livro considerado clássico você abandonou antes do fim?

Mínima Moralia de Theodor W. Adorno (tecnicamente não abandonei, estou lendo desde 92- [!!?]). Por princípio, não abandono a leitura de nada que começo.

6 - Que livro você acredita que deveria ser conhecido por um maior número
de leitores e não é?

Paisagem Pintada com Chá de Milorad Pávitch; “A neve do Almirante” de Álvaro Mutis; “A linguagem dos Pássaros” de Farid ud-Din Attar; “O Partido das Coisas” de Francis Ponge.

7 - Cite um título de livro inesquecível*
“Viagem ao redor do meu quarto” de Xavier de Maistre e “Cabra Vadia” de Nelson Rodrigues

8 - Que livro prometia uma coisa pelo título e, ao ler, você percebeu que era outra coisa?

“A Sangue Frio” de Truman Capote e O Livro dos Peixes de William Gould

9- Que livro você gostaria de ter escrito?

“Austerlitz” de W.G.Sebald ou “José e seus irmãos” de Thomas Mann

10 - Que livro você está lendo agora?

Mímesis de Erich Auerbach


Num dia assim nada pode haver que pese sobre não haver senão suavidade.

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday May 9, 2008

Dentro de um ambiente lotado com livros, numa aparente mixórdia que se espalhava nas três dimensões existentes, até o ponto onde restasse um único vácuo preenchido por ele e uma poltrona, sob um facho de luz. Luz que fortalecia a penumbra do ambiente. Ruud estava manuseando um grande volume com – imagino – três mil páginas de papel bíblia, e parecia muito contrariado.

Eu que estava para fazer uma matéria não achava o fio daquela meada. Resolvi falar um lugar comum: “O que o senhor está lendo?” “Um livro de história natural” foi a sua resposta. Depois de um tempo, ele começou a falar: “A mariposa não se alimenta durante a sua vida, apenas se preocupa com a procriação. Quando ela entra num ambiente e fica pousada imóvel numa parede, sabe que está irremediavelmente perdida. Não conseguirá mais sair de lá; ficará ali até o final dos seus dias, auxiliada por minúsculas garras, presa naquele canto, até que um espanador ou um vento qualquer jogue o seu cadáver numa lata qualquer. São animais belíssimos, com cores e desenhos surpreendentes.”

Enquanto contava essa história percebi que separou o volume encadernado com uma textura peculiar, parecida com linho, de um amarelo sulfúreo, com letras negras gravadas em relevo, com marcas nos lugares onde uso era constante. Apontando para ele disse, contrariado: “Tenho esse dicionário há muitos anos, e hoje, ao procurar uma palavra, quis abri-lo já na letra S. Deveria fazer como sempre, deitá-lo no meu colo, e pegando pequenos maços de páginas atingiria o vocábulo paulatinamente; primeiro C, depois o F, mais adiante o M, até atingir o lugar e daí encontrar minha palavra. Entretanto hoje o peso do volume parecia maior e colocando a lombada sobre as minhas pernas, calculei onde estaria o S e num único golpe abri o volume. Perdi o equilíbrio, o livro ameaçou cair e, instintivamente, tentei segurá-lo pela única folha que me restou e acabou rasgada.”

E me mostrou a folha rasgada onde pude ler uma palavra rapidamente: ‘solitário’. Pensei comigo, bem até que ele acertou, tem boa mira.

Assim continuou falando: “Lendo sobre as mariposas, aprendi que eu também me comporto como elas; e com esse lamentável acidente, percebi mais, que o conhecimento do nosso semelhante deve ser como a leitura de um dicionário; nunca o conheceremos inteiramente é uma tarefa impossível e quando é necessário encontrar um ponto em especial, devemos ir de pouco a pouco; ao queremos acertar imediatamente com base em nossa experiência, eventualmente acertaremos, mas ficamos com a página na mão e com o livro estragado.”

Mencionei que não havia entendido direito o que ele estava falando e pedi que abrisse o dicionário na letra certa, de uma vez por todas.

E ouvi o seguinte: “Tenho um amigo por muitos anos, ambos somos solteiros, conhecemo-nos muito bem, ele também é professor; outro dia ele me disse que encontrou um outro homem, quinze anos mais novo; e – mais - que ele não saia de sua cabeça. Havia ficado muito impressionado e emocionado com sua beleza física, com a conversa envolvente e mais do que tudo, com o interesse que ele demonstrou em conversar, trocar idéias, expandir horizontes. Tanto é que conversaram todo o tempo da festa. Ao terminar a narrativa me perguntou se por tudo isso ele é um homossexual? Depois disso, nunca mais falamos.”

Esqueci a entrevista e perguntei com curiosidade mórbida: “Mas afinal de contas, qual foi a sua resposta, professor.”

“É.”

Quem tem medo dos blogues, Mr. Albee?

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday May 7, 2008

O blog é uma abertura imensa para o diálogo. Diálogo pertinente, impertinente, culto, inculto, sobre coisas sérias ou nem tanto. Mas diálogo. Ainda se cultiva muito a ofensa pessoal, a irreflexão, o elogio puro e simples e imerecido, a vingança na forma de um texto de resposta ou comentário. Porém, acredito tudo isso é um grande e inovador exercício que se aprenderá praticando, lendo e ouvindo o que o outro tem a dizer. Tentar responder com argumentos, moderados pela possibilidade latente de bloqueio puro e simples, é uma questão relevante cujo mecanismo incentiva esse exercício. Aquela resposta como desabafo, como uma reação veterinária e passional ainda continuará, mas acabará perdendo a força. Em suma é inútil. E o argumento tentará convencer até o limite de sua tolerância, que pouco a pouco será expandida. Não que eu espere que ela tenha a dimensão da nebulosa da Águia na constelação da Serpente, mas a simples dimensão humana paulatina ainda que errática já será divina.

É evidente que a possibilidade de se colocar no ar, a um custo acessível qualquer texto, também ajudará a aumentar a confusão de fontes, de dados, e de pseudos. Mas não precisamos dar importância ao que é irrelevante. Uma pesquisa consistente elimina todas as impurezas. Ler e desconfiar são atos siameses.

De outro lado não espero nenhuma modificação no fator humano, não é isso que estou tentando argumentar ou prever. É apenas uma nova possibilidade diante da qual teremos que tomar uma decisão. E é inteiramente nova.

No começo da literatura, chamando de literatura tudo que se relaciona com a palavra; sabíamos da história de um ou outro príncipe, nobre ou assemelhado, contada por algum maluco para que servisse de lição, de paradigma. Hoje temos a possibilidade de saber a história de tudo e de todos, contada por uma série imensamente maior de pessoas, que por sua vez a abordará dos mais diversificados, inesperados e obsessivos ângulos. E esse aspecto é determinante.

Se a imensa maioria das histórias e pontos de vista são repetitivas ou tediosas; - pena, assim é que nós somos vistos da janela de um foguete. Mas quem garimpar e tiver paciência para se aproximar do planeta e escolher, não será frustrado. Terá uma ótima oportunidade de alargar o seu horizonte.

Escrevi sobre tolerância e paciência e não sei se isso adiantará, pois os modernos têm pressa. Mas essa é uma janela, grande, imensa, com mais de cento e vinte duas vidraças emolduradas por chumbo – como existe no Observatório de Greenwich – janela, que ajudará a diminuir a imensa zona de sombra que nos avassala.

Morlock

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday April 30, 2008

 

Sol queimando sobre a Califórnia. O bar estava no topo de uma ladeira em cujo final se avistava a faixa de praia como um colar para o mar azul e majestoso; mais ao longe uma baleia saltava e se exibia circense para os banhistas que se apinhavam no local. Um salva-vidas que havia feito uma ponta num seriado de tevê e reinava sobre os jovens, contando suas peripécias.

No bar a claridade não penetrava foi deixada lá fora; talvez obstruída pelas persianas ou por sua dimensão exagerada. Um odor azedo pairava no ambiente. Bem no centro uma mesa com quatro pessoas, que formavam dois pares. Um homem aparentando vinte anos mais da mulher loira, de pele muito branca e sardenta que o acompanhava. Um rapaz de seus vinte anos, magro, tatuado, com cabelo azul; e, finalmente, outro menino com cabelo vermelho, piercing na língua, um boné de lã, meio mole, largado no topo da cabeça, desafiando a gravidade; no máximo dezoito.

“Acho uma tremenda sacanagem perder o emprego por isso”, disse o azul “afinal de contas qual o problema das pessoas com o sexo, com transa, com ele?”

“Essa história é muito complicada”, disse a moça, “todos nós temos algum problema com o exibir pura e simples, eu mesma, só consigo tirar a minha roupa com ele – apontando, com o queixo, o homem– no escuro. Nele vale tudo”.

Retrucou o azul: “Mas ele não faz parte do corpo? Ele é tão bonito quanto um braço, um baço, um queixo, pinta ou uma bu…da, não há nada demais. O perigo vem da cabeça e do pensamento”.

“Olha aí, gente”, falou agora o vermelho, “não adianta nada ficar falando dessa me..da, o bonitinho aí, perdeu o emprego. Pra carreira, isso não conta nada, era um trabalho de boy, num lugar vagabundo, cheio de gente chata e burra, tudo, periferia -  tá sabendo?”

“É, e todas as meninas me ajudaram. Pensei que elas estavam gostando da brincadeira. Tiramos um monte de fotos dele, bem durinho, exibido,de todos os ângulos e pusemos num arquivo, na rede, com o nome “Histórias do Zézinho”. Todos viam e gostavam. Riram um monte, me incentivaram. Aproveitei para colocar uma foto do nosso – olhou apaixonado para o vermelho – beijo, e outras dando um rolê. Aquelas que tiramos aqui, olhando na direção do banheiro.”

“Como é que a coisa estourou?” perguntou a loira.

“O carinha que cuida da tecnologia, pegou e mostrou pro chefe. E aí, já viu né? Fui chamado pra explicar. E prometi não publicar mais isso. Meu acesso aos computadores foi cortado. E tudo bem. Aí, sem que eu soubesse … direito, meio na moita, alguém republicou com o nome Príapro, o regresso; foi a conta. Reincidência.”

“Já te falei que isso não é nada. Deixa de onda, consegui um teste num estúdio pra você. É na marra que você vai virar modelo ou ator, qualquer um dos dois. Ou ambos. É bonito, musculoso, se cuida, e sabe cuidar como ninguém. A receita é de sucesso. Eu, vermelho, você azul, a Giovana branca, juntos formamos a bandeira da América, e todos adoram, beijam e lambem, por aqui, a bandeira.”

O homem, que assistia a conversa serenamente, foi interrogado com os olhares para dar uma opinião. E o fez assim:

“Tenho temperamento feminino e preciso ser amado. Sofreria muito com isso. Vocês são masculinos gostam do hostil. A pulsão do sexo em mim também é forte demais, mas felizmente ela se manifestou como na maioria. Não creio que seja pornografia o que você fez, também não tenho nenhuma atração por corpo masculino, vejo beleza nele, mas se alguém mais estiver olhando comigo, passo rapidamente pelas imagens e me concentro naquelas que além de belas, me atraem, despertam em mim o desejo. O corpo da mulher. E assim você deverá proceder. Faça o que manda seu coração, e não compartilhe com ninguém mais, até ter a certeza de que ele é igual a você, ou respeita as opiniões alheias. Aqui, ou mesmo, de onde viemos, o respeito a opinião alheia não é muito a moda. Quem sabe isso muda.”

Abriu o livro, grosso, capa dura, papel acetinado,  que tinha consigo e mostrou uma página.

Regra dos quatro padres – séc. V: Se alguém for descoberto rindo ou fazendo piadas (…) ordenamos que, por duas semanas, este homem, em nome do Senhor, seja reprimido, de todos os modos com o látego da humildade.”

Fechou-o. Levantou-se; e convidando Giovana:

“Vamos para o Hotel, meu amor?”

Recebeu como resposta uma piscada de olhos.

 

 

Walser

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Monday April 28, 2008

Não é comum escrever pedindo notícias suas. E não o faço agora. Escrevo para pedir-lhe que na próxima folga visite Berlim e investigue uma fortaleza remanescente da segunda grande guerra, na região norte, a antiga Berlim Oriental. Afinal de contas você está na Eslavônia, não tem nenhum problema com o idioma, e você, meu irmão, está infinitamente mais perto do que eu.

Ontem assisti um documentário mostrando as colinas da cidade. Aquela que costumava ser plana e com solo arenoso, agora tem várias colinas espalhadas. Fiquei intrigado com isso. Aos poucos fui informado que após o final da guerra os aliados após destruírem oitenta por cento da cidade, tiveram problemas com o entulho. Milhões de metros cúbicos de areia, cimento, argila, ferro em pequenos pedaços e blocos tinham que desaparecer. O que fazer com isso? Naquelas quantidades estratosféricas?

Tiveram uma idéia, a mesma que tínhamos quando pequenos, levar a sujeira para debaixo do tapete. Assim amontoaram os escombros em terrenos baldios e fizeram um monte; o cobriram de uma grande quantidade de terra. Sobre a terra plantaram árvores e plantas. Aí está, depois de algum tempo, tiveram uma belo cerro sobre a qual puderam contemplar a sua obra. A de reconstrução, quero dizer.

Entretanto na parte oriental da cidade existia uma fortaleza construída em local estratégico, para observar os movimentos dos inimigos quando viessem pelo oriente. Ela foi construída com tais requintes de arquitetura e engenharia para ser indestrutível. Possuía uma quantidade de ferro e cimento simplesmente inimaginável. Com capacidade para resistir a qualquer intempérie. Mesmo uma guerra.

Com o desenrolar dos acontecimentos, o forte foi também transformado em escombros?

Não. Esse não. Apenas em parte. Os aliados tentaram destruir de todas as maneiras possíveis a construção. Gastaram toneladas de TNT. Nada. Atingiram a parte sul, puseram-na no chão. Pararam para refletir e concluíram que o esforço para demolição não seria compatível com o resultado. E, para evitar problemas com desmoronamentos posteriores, deixaram o remanescente em pé, cobrindo o restante. O resultado foi um morro atrás de um portal de entrada, parcialmente arruinado.

Os repórteres conseguiram entrar, encontraram sapatos, cenouras em lata, passearam por alguns corredores, concluíram que estavam dentro de uma pequena cidade onde habitavam cerca de três mil habitantes. E prometeram voltar, para saber dos seus segredos. Previram que daqui dez anos, teríamos muito mais notícias sobre a construção e seus segredos.

Esta noite não consegui dormir. Fiquei angustiado com essa notícia. E com a imagem que não mais saiu da minha mente.

O pensamento de uma era - a arquitetura física e mental - foi completamente transformado em ruínas; em pequenos pedaços e enterrados? Cobertos para que aprendêssemos a lição.

A inteligência que construiu essa fortificação conseguiu transformá-la, pelo menos em parte, como idéia indestrutível? Não conseguiremos jamais destruí-la? Apesar dos avisos, indenizações, livros, filmes e novelas?

Verifique se isso tudo é verdade, por favor, ou se os fatos não estão deturpados.

Por aqui – o deserto de hábito. Não temos ruínas. Mas, tive duas boas, aliás, ótimas notícias. Foi publicado “De verdade” do Sándor Márai e amanhã pego “Austerlitz” do W.G.Sebald.

Abraços,

Robert.

Ada

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday April 24, 2008

Numa península, um passeio pelas alamedas. Condomínio onde mora meu irmão. Estou com minha mãe, (estudar enfermagem aos setenta; tô boba, colega) minha filha e o mar.

- Olha uma alquemila; essas folhas são sanícula-dos-montes, conhecida como quebra-pedra. Chegaram num jardim com vinhas virgens, madressilvas, clematite e hera. Essa aí perto da fonte é uma saxífraga-dourada. Que cor, né? Parece ouro e só aparece perto das fontes d’água.

(Troquei minha liberdade por um emprego mecânico, bração, poucas horas, deixa a cabeça livre pra sonhar com o vento. A oferta de pagar bem por seis horas, me raptou. Arranjei um lugar onde não se trabalha aos domingos e dobro o meu horário na sexta, para folgar no sábado; dessa forma estou livre no final de semana para velejar. Essa é a minha verdadeira paixão.)

- Mãe, como você sabe tanto nome de planta?

(Estudar? Estudei. Mais do que o suficiente. Nada que fiz me deu algo de útil para aplicar na vida. Alguma dica de psicologia. Uns truques de educação física. Nunca me importei com a imagem. Aliás, me preocupei um pouco com o físico, tenho medo quando a idade me tirar de cima da prancha.)

(Se eu fosse enfermeira quem sabe ele não teria morrido. Também pudera; como um advogado tão bem sucedido poderia subir numa Ducati Desmosedici RR, e fazer trezentos e vinte oito quilômetros por hora em linha reta? É vício em adrenalina. A filha dele é igual. Que destino, o meu. Resta-me compreender.)

- Gosto de natureza não sirvo para viver na cidade.

(Sirvo pessoas e me carimbei disso. Posso ter me impressionado com a educação das pessoas, sorridentes e afáveis. Senti; o sorriso era para que a comida chegasse logo, para que talvez eu esquecesse de anotar o pedido, e durava até chegar a conta, e o raro que vencesse a barreira do terceiro fosso, para esse o prêmio deveria ser a cama, a minha, claro. Na maior parte do tempo atendi pessoas, aparentemente ricas, com dinheiro, mas sem educação e respeito. Com uma dose de prepotência que mexeu comigo como a onda do mar, não adianta ir contra ela, se subir, subo. Se descer, desço. Faço uma tarefa como o ponteiro do relógio. E isso não basta para o cliente. Ele sempre quer mais. Devo procurar alguma coisa que não existe. O talco até que é simples. Pedir um analgésico também. Porém, não pára por aqui. Agora devo comprar cigarros, sempre mais, saber nome daquele cliente, daquela mulher. Que saco! Tentei recusar educadamente. Sorrindo. Deu certo! Só até o pagamento da conta. Ela passou a voltar sem o serviço. Trabalhava por dez por cento. Era só por isso. E perdi. Diante desse dilema tive que optar. Antes, falei com o chefe. Expliquei a situação. Ele, felizmente, concordou comigo. E disse: “Assim é o nosso ramo. Não posso fazer nada. Por isso te ensinei a venda. Você é vendedora nata, nada além; trazer e levar é disfarce. Venda. Venda. Quem diz a verdade, merece castigo. Não fui eu que inventei a roda. O público pede, se não tem: minta. Em Roma, faça como os romanos”. Putz, virei do avesso. Fiquei p u t a da vida. Saí de lá. Na hora. Fui para um lugar melhor, mais chique, cismei de tratar com a nata. Não, com a nata da nata. Investi um pouco da minha economia em novas roupas, novo fiquei confiante. Só durante os primeiros meses. Logo depois percebi que mosca mudou, a m e r d a era a mesma. De tanto lidar com nata, aumentou o meu colesterol. E, perdi meu sábado tão querido. Ao trabalhar e ouvir o vento rugindo, sentia uma dor de estômago terrível; maior do que a causada pelo ambiente servil, abjeto. Sempre dez por cento. Se quisesse mais, teria que trabalhar mais. Eu quero uma vida decente. Não quero ganhar mais.)

- Ada, você é muito egoísta, deveria pensar na menina e ficar em São Paulo, a educação e as amizades são melhores.

(Namorei um cliente. Não consegui ultrapassar a barreira do preconceito. Lá servir é pecado. Não falou do meu ofício. Era velejadora, amiga de um campeão olímpico, cujo irmão é chamado de macarrão, e caía na risada. Sem roupa somos iguais. Com roupa, não. Prefiro os meninos da praia. Todos são meninos, em qualquer idade. Incrível.)

- Mãe, depois falamos, tá? ‘Tou conversando com ela.

Disse a filha:

- E o mar - mãe - é natureza? Ou natureza é só floresta?

- Mar é liberdade. No mar cada um vive só para si. A gente só compete consigo mesma.

(Voltei ao meu emprego. Olho de fora para a minha vida. De todas que eu sou descobri e identifiquei duas. Uma que é atriz durante seis horas. Sorriso plástico. Seja lá o que aconteça, ele aparece. Corro fisicamente para pegar alguma coisa, o espírito não sai do lugar. Só o necessário para receber meu pagamento. Não consegui nenhuma experiência realmente humana nisso tudo.)

De repente, minha filha se abaixa e pega um copo plástico que um menino deixou cair – propositalmente - no chão e grita:
- Pode deixar que eu jogo no lixo…

E saiu correndo, dizendo:
- Óh mãe, não gosto daqui não, aqui é bom pra passear. É gostoso nas férias.

O irmão vestido de branco, apareceu lá em cima, emoldurado por um portal de mogno, e acenou, chamando as três para o almoço.

Pasticho

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday April 18, 2008

- Amar duas pessoas ao mesmo tempo seria moralmente inaceitável? -

Virginia desligou o telefone; “o seu pedido de aumento foi negado, estamos estudando a sua transferência, nada foi decidido”; colocou o Ipod, cruzou os pés sobre a mesa, ajeitou os óculos de lentes grossas; “recusaremos sua matrícula por atraso nos pagamentos”; afastou o seu obituário cotidiano, e passou os olhos no texto com esse título estranho, e leu:

“Não existe nenhum problema em amar duas pessoas ao mesmo tempo. Conhecemos o amor através de várias perspectivas, hoje em dia falamos do amor urbano, moderno. Essa linha do tempo foi libertando o sentimento das suas amarras, ele foi ficando mais livre, mais aceito, entre parceiros diferentes, um ou vários, do mesmo sexo, do mesmo grupo.

Creio, entretanto, que o amor requer tempo. O amor filial abrange uma vida, no tempo; é além dela. Dura a vida do homem. Não amo hoje, amo para sempre. Amamos para quando não estivermos mais aqui. Talvez tenhamos atitudes aparentemente contraditórias hoje; mas elas valem para o eterno.

O amor pelo outro, é muito mais complexo. O homem se partiu, despregou-se daquele iceberg que é a humanidade e descobriu-se: uno, indivisível, imerso. Deixou de olhar apenas em torno e passou a olhar para si mesmo. Voltou sua mira para o interior, e dentro de si encontrou outra multidão nas bordas de um rio interior. De quando em quando, convida uma delas e a incorpora. Esgota as possibilidades daquele momento e a devolve. Logo mais adiante, pega uma outra. E, não raro, elas são muito diferentes entre si. Mas todas elas têm o mesmo rosto e o mesmo corpo. É uma contradição dramática.

Essa viagem feita a dois é o resultado dessa imagem para o amor. Cada um dos ocupantes escolheu alguém para fazer parte daquele passeio. Ambos dedicam seu tempo para descobrir. E esse tempo não mira o infinito, mira o presente. O tempo cronológico não bate com o tempo de cada um. Cada um tem o seu. E é nele que os personagens têm que encaixar. Encaixe que significa prazer e felicidade.

Vários personagens, vários tempos, um único bote, um passeio que começa no interior de cada um e busca o interior do outro. A paisagem pode atrapalhar. Outros botes. São muitos os fatores que conspiram contra. Se deixarmos que o tempo resolva somos assaltados pelo tédio que um longo passeio dá. Se fizermos as contas diariamente, somos aterrorizados pela solidão de um barco vazio deixado à deriva.

Esse roteiro é uma bobagem simples. Tente você abrir as outras potencialidades dele. A questão de uma outra pessoa nos interessar simultaneamente; significará um simples passeio num outro barco; esse barco se revelará miúdo, o rio em que corre é raso, ou grande e confortável e o leito suporta o calado? Quem escolhe primeiro o barco? Ninguém sabe a resposta. Não é a moral – perdemos a imortalidade -, nem a religião, muito menos a ciência que têm a resposta. A resposta está em você, na sua viagem, no seu leito de rio. Tudo deve desaguar no oceano da felicidade. Mesmo que essa foz se revele, no mais das vezes, lodosa e ansiosa para agarrar no fundo do barco e deixá-la estagnada. Por muito tempo, tempo que, descuidadamente, não temos mais. O que posso é desejar: boa viagem.”

Parou por um instante para pensar como posso catalogar isso? “quando terei o meu próprio carro?” E jogou o papel pra lá. Vou colocar como horóscopo. É isso. A pergunta exige apenas uma resposta: O seu homem não está correspondendo? Troque; escolha outro. Ele não comparece? Troque. Isso acontece, “Cartola” simplesmente acontece. Ninguém manda no seu próprio coração. Se houver necessidade de vários, não hesite. Faça. Não sei por que as pessoas complicam tanto. Esse texto parece escrito por mulher. Vou checar.

Vi o papel assentar-se sobre um livro aberto, encadernado em couro marrom, página duzentos e noventa e quatro, sublinhada à lápis; aproximei-me para ler o texto:

levo comigo,….; a condenação de ser vizinho igual, perante o senhorio e o sítio, dos outros inquilinos do aglomerado, espreitando com nojo, por entre as grades traseiras do armazém da loja, o lixo alheio que se entulha à chuva no saguão que é a minha vida.”

Suburbano

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday April 16, 2008

Subúrbio. Rua Rosa e Silva. Grajaú. Rio de Janeiro. Essa é a melhor introdução para apresentar essa pessoa. Distante do centro, filho de um Rosa e de uma Silva, com influências indígenas, morando numa cidade com o nome de rio que não era rio, parecia um. Assim era ele. Emergiu de uma peste com algumas seqüelas, saiu dali para São Paulo. Cresceu. E nunca mais saiu.

Sancho foi seu primeiro amigo. Trabalhador; incansavelmente atrapalhado em tudo que fazia. Pronto em todas as horas. Trabalhavam juntos. Uma liberdade integral, em tempo integral. Conheceram as primeiras namoradas. Sancho foi traído pelo amigo. O suburbano não resistiu à tentação, ao mel do sexo, à luxúria. Caiu sem trinta dinheiros.

Voltou ao estudo. E na faculdade encontrou seu segundo amigo. Nascido em Caxambu, filho de família dona de muitas terras que despachou seu filho para estudar na capital do seu mundo. Sempre com sua maleta de executivo, possuía uma expressão desconfiada que não o abandonava, em nenhuma circunstância. Conheceram as segundas e outras namoradas, agora mais reservadamente. Cada um no eu canto. Os encontros conjuntos escassearam. Tinham mais o que fazer. Conheceram todos os motéis da barra.

Estudavam e trabalhavam quando necessário. Passeavam todo o tempo disponível. Voltaram ao Rio. O suburbano conheceu uma cidade desconhecida. Encantou-se com Copacabana. Túnel dois irmãos.

Repentinamente lembrou de Sancho e prometeu-se jamais cometer outra traição. Talvez motivado pelos olhares femininos, ou pelo olhar do enviesado do amigo. Ou ambos.

O segundo amigo conseguiu trancar a matrícula e se mudou para a Suécia. Foi trabalhar. Numa fábrica de papel em Göteborg. Deixou a namorada da ocasião, para o suburbano cuidar; ficaria apenas alguns meses e, estava profundamente apaixonado.

Assim fizeram e combinaram. Suburbano pediu ajuda ao Sancho e viveram alguns meses passeando pelos teatros da cidade. Conviveram sempre em três. E, ainda assim, na correspondência trocada tiveram uma briga tremenda. Essa situação de passeio era suspeita. O amigo sabia da vida, essa balela de amizade e passeio em três era conversa pra boi dormir.

Terminou o compromisso por carta assim como deu um basta na amizade.

Voltou depois de tempos, após passear pelo interior da França, gastar todas as economias num cassino clandestino em Londres; procurou seu amigo do subúrbio e o convidou para sua casa e apresentou sua primeira mulher. Uma paraense que encontrou na vindima.

Brigou com ela também, ruidosamente, atabalhoadamente. Saiu para estudar na América; durante sete anos, licenciado, mestre, doutor na filosofia da coisa. Casou novamente. Precisou de dinheiro para isso tudo e pediu ao amigo. Quando voltasse tudo iria se arranjar. Como de fato se arranjou.

Agora de volta, retomaram a amizade de antigamente. Acertaram os ponteiros, ouviu e concordou com a versão do amigo suburbano. Não se sentiu mais traído. Aquiesceu.

Assim que tivesse uma folga nas finanças devolveria todo o dinheiro que emprestou. Estava tudo anotado. Não havia motivo de preocupação, afinal de contas a dívida era em dólares, não desmancharia com o tempo.

Encontraram-se para conhecer as mulheres. Trocar impressões familiares. Afinal de contas, agora eram homens. Conseguiu um emprego de professor doutor numa universidade, aliás, em várias, para poder manter um padrão digno de vida. Demitiu-se de uma quando se viu obrigado a aprovar um aluno autista. Trocou por outra no interior.

Passou a ser um taxista do ensino, levava o conhecimento para os mais distantes pontos e recebia por isso.

Retomaram o ritmo de anos atrás, mas conversavam sozinhos; contou toda a sua aventura em Nova York, das amizades que fez, dos lugares que estudou, das dificuldades que enfrentou. Ao final de cada conversa, retomava a questão da dívida, e o amigo dizia que não se preocupasse com isso.

Falou do seu frágil inglês, apropriado para aulas em sindicatos, nunca em escolas. Contou da beleza das mulheres no verão norte-americano. Na quinta avenida, por exemplo, ele se lembrava de Ipanema. As roupas eram apenas um detalhe esvoaçante cobrindo os corpos semidespidos. E, como de regra, a dívida era retomada e o assunto afastado pelo amigo.

Conseguiu participar e depois promover congressos ao redor do mundo, Inglaterra, Índia, Estados Unidos; e almoçava com o amigo. Trazia o vinho e conversavam, trocavam reminiscências, do clima entre professores. Das disputas. Dos concursos feitos para que um só ganhasse.

Os vinhos que tomavam vinham das vinhas da África do Sul, local do seu último congresso. Aquele ar de desconfiança aos poucos desapareceu.

Nunca mais falaram do assunto da dívida.

Urbano

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday April 10, 2008

Saiu do norte de Minas, daquela cidade que não constou do mapa quando falou para seu chefe do seu lugar de nascimento. Descobriu que era pequena e pobre. Pobre, desconfiava pela vontade de sair que o dominou a partir dos doze anos. Saiu gradativamente. Primeiro saiu da escola, tinha que ajudar a família na roça. Trabalhava apenas trabalhava. Jamais recebia. Depois da roça e passou a cavar valetas em São Paulo. Finalmente saiu deles todos; não mandava ajuda alguma. Cultivou o hábito de gostar do dinheiro. Não o gastava por nada. Só o necessário. E o necessário era muito pouco. Pouco mesmo.

Cavou durante a construção de uma avenida. Lavrando criou músculos e disposição, batia todos os colegas, apesar de ser miúdo. Era reconhecido pela resistência. Dotado de raras, mas grandes qualidades. Sorria. Sorria muito. Quando estava alegre, ou triste. A sua face era uma paisagem sorridente, em qualquer situação.

Deixou de cavar por uma fábrica. Dez anos. Trabalho fácil, para se cansar, fazia sexo, jogava bola e andava. Descobriu maneiras criativas e alegres de se cansar. A sua força e vitalidade impressionava.

Com o passar do tempo comprou uma bicicleta. Jogava futebol apenas no final de semana. Antes de partida, se aquecida dando voltas ao redor do campo. Era o seu condicionamento físico. E acabou se casando com uma mulher trabalhadora, cozinheira de mão cheia, deu-lhe muito prazer, liberdade de invenção na aeróbica da cama e, filhos. Muitos.

Graças ao seu sorriso passou a trabalhar como vendedor. Comprou um carro. Comprou uma roupa social, e tudo mudou. Tendo o carro, roupa como aliados do sorriso, não só vendia como recebia ofertas diárias de sorrisos femininos. E nunca os deixou desapontados. Namorava. Descobriu que podia namorar muitas mulheres, desde que elas não soubessem uma da outra.

Carro zero. Novas oportunidades. Inimagináveis. Trabalhava muito, só vendendo. Incansável. Não fazia esforço nenhum, o sucesso era do sorriso e da calma. Com as mulheres descobriu que a aeróbica era de principiantes; conheceu: Step, Body Fit, Localizada, Manutenção, Ginásio Musculação, Cardio Fitness, Cardio Vascular, Yôga, Funk e Street Dance. Cada professora com uma especialidade. Uma mais linda que a outra. Pagava para se cansar e se divertia como nunca.

Arrumou-se com uma professora de Tantra Yôga. Enroscou-se definitivamente. Apaixonou-se. Dividiu-se em dois. Para atender a instrutora de aeróbica e a yogini. Do segundo e simultâneo casamento teve também uma filha. A yogini sabia do todos os seus compromissos anteriores, e não exigiu a dissolução do primeiro casamento, exigiu desempenho, segurança e companhia.

Trabalhando, vendendo, comprou uma moto para os finais de semana, alemã, com muitas cilindradas e de muitos dólares. Levava a sua vida assim, feliz.

Um dia sentado no sofá de sua casa, de braços com a segunda mulher, atendeu a campainha da porta e deu de cara com a primeira. Tentou negar as evidências, para evitar o escândalo, fez com que entrassem: ela e os filhos. E ali parlamentaram. Conversaram sobre tudo. Em alto e bom som. Fúria. Raiva. Traição. Canalhices, covardias, eram as palavras que os vizinhos até cem metros podiam ouvir. Não se ouviu a voz dele. Calmo e sorridente. Esperou passar o tempo. Horas depois, a turma se separou e a primeira mulher saiu acompanhada dele.

Passado um tempo, foi chamado pelo chefe para assumir a gerência das vendas. Assumiu a melhor expressão e aceitou. Passaram a conversar a respeito do que deveria ser feito dali por diante. Subitamente, o chefe mostrou o jornal que dizia:

“BAZAR DOS BENS DE ABADIA ACABA EM CONFUSÃO.”

- Como é que pode; né?

O mineirinho leu em voz alta e titubeante aquela manchete em vermelho e negro. E as palavras bazar, bar, loja, abadia, igreja, acabar e confusão não faziam o menor sentido, juntas. Limitou-se a concordar, gesto acompanhado do seu melhor, quase uma risada.

Assumiu com sucesso a chefia, as duas famílias, duas casas, uma bem longe da outra, com escala de horários, e tabela anual de férias compartilhadas de quinze dias cada. Abriu uma empresa de comunicação para o filho mais velho, como sócio majoritário e colocou a mais nova na escola de dança da prefeitura de Osasco.

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