Arquivado em: Húmus escrito por Paloma Kliss
“…estratégias destinadas a pessoas que não se adaptam aos protocolos clínicos tradicionais – toxicômanos, violentos, esquizofrênicos, jovens sobretudo-, quando os dispositivos psiquiátricos, pedagógicos, psicológicos ou psicanalíticos não funcionam”*1
ORDENS DE SERVIÇO
Aniquilar brutalmente populações. Eliminar lideranças locais incômodas. Falsificar provas, evidências, indícios de perigo. Justificar assassinatos seletivos. Executar líderes políticos de posições declaradamente contra imperialistas. Sabotar protocolos, acordos e negociações pró direitos humanos, pró meio ambiente, pró redução de danos. Investir na indústria de armas e na mídia. Boicotar novidades indesejáveis. Fichar rebeldes, internar sujeitos em novos campos de concentração. Privatizar serviços públicos, fortalecer esquadrões da morte. Promover ações esmagadoras calcadas na superioridade tecnológica. Financiar grupos contra revoluções nocivas ao mercado capitalista. Espalhar tropas por todo o globo, instaurar mecanismos de controle. Disseminar cursos de tortura. Controlar a energia e as matérias primas para melhor exercer o domínio. Fabricar e manipular movimentos. Militarizar as relações humanas. Genocídios “on demand”. Perseguir lucratividade, eficiência. Rastrear telefonemas e comunicações entre governos para elaborar estratégias de corrupção e instituir processos de alienação em massa. Manter a diversidade no Mercado Negro, preservar ilhas e paraísos fiscais. Enfraquecer paises subdesenvolvidos. Repetir versões oficiais. Parir e destruir inimigos e ampliar mercados.
SOCIALMENTE (IN) ÚTIL
“Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo
Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro” *2
Freqüentar bibliotecas. Falar por falar. Colar cartazes de protesto. Passear com cachorros. Cuidar de jardins. Fotografar porcos. Ciclos lunares. Poetar. Dedicar tempo a produzir sem almejar bens de consumo. Defender espécies em extinção. Ler material subversivo aos atuais preconceitos vigentes. Abraçar árvores. Escrever cartas de amor. Chutar lata sem direção. Ouvir música o dia inteiro. Cozinhar em fogão a lenha. Caminhar pelos litorais. Enumerar características. Praticar a hipocrisia. Fazer serenatas. Querer conhecer outras galáxias. Exigir explicações. Abortar soluções pouco criativas. Decretar novas regras. Permanecer coerente. Deflagrar delírios. Enfeitar quintais. Colher frutos transgênicos. Constatar a ineficiência dos sistemas burocráticos. Garimpar outras raridades. Atentar contra a segurança dos capitólios. Acampar. Hiper valorizar seres híbridos. Policiar desejos. Inventar feitiços. Ousar. Procurar empregos. Gostar da chuva. Reunir grupos de estudos. Colecionar figurinhas. Espantar devires. Apostar na loteria. Energizar chacras. Guardar postais. Cutucar chagas. Contar histórias. Vender mais. Pintar paredes. Resgatar cheques. Dançar em silêncio. Convencê-los a. Forjar saídas de emergência. Pensar livremente. Brincar. Perturbar vizinhanças. Atiçar manifestações não padronizadas. Quebrar os vidros e abrir as janelas. Mudar de olhos, boca e cabelos. Fazer dobraduras. Tomar ban chá. Filosofar. Procurar oásis. Gerar sóis distantes. Constituir miragens. Tapar buracos. Cartografar fluxos. Decretar comportamentos anárquicos. Idolatrar sub celebridades. Rezar novenas. Consultar oráculos. Sofismar. Domesticar pássaros. Crises econômicas. Pesquisar línguas mortas. Artesanato. Preencher formulários. Acumular milhagens. Locomotivas a vapor. Perseguir estilos literários. Roupas e varais. Sublimar culpas. Rejeitar édipos. Degolar Barbies. Denunciar obviedades. Imprimir a lazer. Caleidoscopiar recortes. Eletrochoques. Rabiscar canções. Procurar gnomos. Filmar ets. Comprar ingressos. Assistir em estado de conivência passiva filmes de guerra baseados em atrocidades reais. Mandar lembranças. Antropofagizar influências. Diferenciar qualidades. Sonhar variáveis improváveis. Capacitar corpos vazios a. Abastecer paranóias submersas entre corpos sem órgãos. Tentar fugir. Dar nomes. Fazer perguntas. Bater palmas.
Notas
*1 Antonio Lancetti – livro clínica peripatética. Coleção Políticas do Desejo. HUCITEC
*2 Hilda Hilst. Poema: Enquanto faço o verso, tu decerto vives.





